Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

30.11.16

O espólio do Diário de Notícias


Li, a partir da Lusa, que o movimento cívico Fórum Cidadania Lx foi ouvido na Assembleia da República (Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto) por causa da necessidade de preservação do edifício e do espólio do Diário de Notícias, que mudou de instalações. O movimento cívico espera a aprovação de resolução para que a Direção Geral de Património e Cultura exerça as suas competências na proteção "da fachada, dos painéis do Almada Negreiros, da caixa do elevador, da porta giratória, dos frisos". O edifício do jornal é Prémio Valmor e foi classificado como imóvel de interesse público. Mas a situação do espólio do jornal é mais complicada. O que o movimento pretende é que seja feito um inventário, uma catalogação do espólio, incluindo fotografias, documentos e desenhos. O Fórum Cidadania Lx encaminhou também as suas preocupações para o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, a Assembleia Municipal de Lisboa, a Câmara de Lisboa, o Ministério da Cultura e para o gabinete do primeiro-ministro.

Retiro da página de Joaquim Vieira: "O espólio do DN, que investiguei anos a fio, em particular o arquivo fotográfico, onde existem milhares de chapas vidro, muitas delas ainda não devidamente estudadas, é de uma riqueza incalculável, como documento histórico sobre o século XX português. Lá descobri, por exemplo, a única fotografia conhecida do funeral de Fernando Pessoa, que nem a redação do jornal sabia que existia. Também a Amália Rodrigues aos 15 anos, na sua primeira atuação pública, integrada numa marcha popular. Preservá-lo como património público é fundamental. Quanto à sede agora evacuada, um dos vários Prémios Valmor desenhados por Pardal Monteiro, o mais importante arquiteto de Lisboa no século XX, a importância é a mesma, mas pelo menos esse edifício está classificado como de interesse público. O espólio não".

Atualização a 1 de dezembro de 2016 (a partir de notícia do próprio jornal: "Lembrando que "em circunstância alguma, em momento algum", o movimento cívico entrou em contacto com o DN para obter resposta relativamente às preocupações manifestadas, José Carlos Lourenço [administrador da Global Media] diz, em relação ao espólio do jornal: "O espólio é do Diário de Notícias, continua no Diário de Notícias. Obviamente vai ser preservado como sempre foi. E com uma evolução relativamente ao que tem sido o passado: vamos tentar que uma parte desse espólio - mais de interesse público - possa estar disponível para que as pessoas em geral possam tomar contacto com o espólio. O espólio do Diário de Notícias confunde-se com a história do país e da cidade de Lisboa, por isso faz sentido que tenha mais visibilidade do que teve nas últimas décadas, encerrado nas caves do edifício." Para tal, o grupo tem pedido aconselhamento à Torre do Tombo, fez saber o administrador. [...] O administrador do grupo a que pertence o DN lembra que "o espólio não é passivo, é um ativo" e pergunta: "Como é que alguém tem tanta preocupação com o espólio do DN e nunca perguntou ao DN o que vai fazer com o espólio?"

29.11.16

ªSede no Porto

ªSede chega a 3 de dezembro ao Porto. ªSede é um espaço na rua de Santa Catarina, 787, Porto, com propostas de atividades artísticas e culturais programadas por Rui Manuel Amaral e a cumplicidade de Carolina Lapa e Luís Nobre (os dois Lina E Nando), também responsáveis pela imagem e comunicação.

A assinalar a abertura de ªSede, inauguração da exposição Artes Plásticas, com alguns dos mais invulgares trabalhos de José Cardoso, incluindo inéditos. É às 17:00 e com entrada livre.


28.11.16

Provedores do serviço público de rádio e televisão

Jorge Wemans para o lugar de provedor do telespectador e Joaquim Vieira para o de provedor do ouvinte são os nomes indicados para a RTP. Wemans foi jornalista do Expresso e do Público (um dos fundadores) e diretor da RTP, Joaquim Vieira, igualmente jornalista, foi também responsável na RTP, presidente do Observatório da Imprensa e autor de livros de história e media serão, caso o Conselho de Opinião aceite os nomes, os sucessores de Jaime Fernandes, recentemente falecido, e Paula Cordeiro. Para mim, são dois nomes fortes e que honrarão os cargos.

Atualização em 30 de novembro de 2016: o nome de Joaquim Vieira foi vetado pelo Conselho de Opinião.

27.11.16

O silêncio e os intelectuais


Reconheço que não dei o devido valor ao livro de Tito Cardoso e Cunha, Silêncio e Comunicação. Ensaio sobre uma Retórica do Não-Dito, saído em 2006. Comecei a lê-lo e, mergulhado em aulas, leituras e obrigações burocráticas - passara a coordenador científico da área da Comunicação da Universidade Católica -, deixei-o sob outros volumes à espera de tempo. Agora, lembrei-o, ao ouvi-lo na conferência organizada por Mário Mesquita, Os Intelectuais na Democracia, com Maria Inácia Rezola, Tito Cardoso e Cunha e Luís Filipe Castro Mendes.

Os temas de Tito Cardoso e Cunha, de que guardo boa memória de aulas suas no mestrado da Universidade Nova de Lisboa, pela atualidade e humor fino na análise da contemporaneidade, mantêm-se atuais face ao livro. Escrevia ele sobre a dicotomia entre o silêncio - expresso, por exemplo, na leitura reflexiva de um livro - e a sobreabundância de informação no audiovisual tornada ruído, entendido como medida da perda de sentido. De uma forma mais específica, o autor compara o recolhimento silencioso que a (suposta) observação religiosa permite com o materialismo da modernidade e da industrialização. E, um pouco mais à frente, refere Platão, no Górgias, que opunha a retórica, arte que opera pela palavra, à pintura, cuja imagem se nos mostra silenciosa. Tudo isto está, conclui, ultrapassado pelas tecnologias multimedia. E cita M. Picard (The World of Silence, 1952) sobre a rádio, "máquina que produz ruído verbal absoluto. O conteúdo já pouco importa; a produção do ruído é a principal preocupação".

Na sua comunicação, Cardoso e Cunha entende que a democracia precisa do uso da palavra e do discurso. Enfatiza: a presença do intelectual faz-se pelo uso da palavra. E suporta-se em George Steiner (The Retreat from the Word). O retraimento da intervenção pública do intelectual torna-se evidente no tempo da televisão, ritmada pelo soundbite, meio eletrónico apto para a retórica patética e para excitar as comoções. Hoje, há falta de tempo. Pierre Bordieu (Sobre a Televisão) concluía que a televisão não é favorável à expressão do pensamento. Na urgência não há tempo a perder. Ora, a democracia tem como regra a circulação livre da palavra, ao passo que a não democracia é da ordem da silêncio e da censura. Cardoso e Cunha falaria ainda da distinção entre o intelectual - cuja linguagem tem dificuldade de chegar a sua intervenção e compreensão não redutíveis à linguagem comum - e especialista - aquele que fala para pares especialistas. Ou técnico do saber prático, como diria Sartre.

26.11.16

Escritores esquecidos


Recordar os Esquecidos, tema que João Morales propõe uma vez por mês na livraria Almedina (Saldanha, Lisboa). Desta vez, os escritores escolhidos para a tertúlia foram Nuno Camarneiro e Nuno Costa Santos. Eles falaram sobre Georges Perec, Jorge Listopad, Augusto Monterroso, Giovanni Papini, Aquilino Ribeiro, Rui Knopfli, Sá de Miranda, Emanuel Félix e José Martins Garcia. Geografias, percursos, géneros, biografias, poesias, inclinações políticas ou religiosas, costumes e épocas foram algumas ideias sobre os autores, que para os dois escritores e moderador precisam de ser reabilitados, republicando e falando deles. Uma hora e meia de agradável conversa.

25.11.16

Luís Lupi sobre António Ferro e a Emissora Nacional



A família de Luís Caldeira Lupi, nascido em Lisboa em 1901, foi viver para Moçambique ainda ele era criança. Politicamente, Lupi foi partidário das ideias do rei D. Miguel I e de Sidónio Pais, depois partidário das ideias de Salazar e muito próximo de Américo Tomás, mas teve os seus problemas com o regime.

Luis Lupi foi agrimensor em Moçambique mas o jornalismo atraiu-o quando era muito jovem, o que o levou a tornar-se correspondente do jornal londrino African World. Por essa altura, já pensava na criação da agência Lusitânia, autorizada quando Marcelo Caetano foi a ministro da Presidência. Luís Lupi regressou a Lisboa em 1928. Entre outras coisas, ele foi diretor do semanário Portuguese Time, publicado em Lisboa mas em inglês, em 1935 - e que durou apenas oito semanas. No terceiro volume das suas Memórias, na entrada do dia 9 de novembro de 1944, ele escrevia que estava bem encaminhado o estabelecimento da agência portuguesa que ele vinha pugnado há tantos anos, de modo a estabelecer uma ligação forte entre as colónias (Ultramar na linguagem dele) e Portugal (Metrópole na linguagem dele). Seria director da Associated Press em Portugal [ver mais elementos da sua biografia em Lupi].

Uma das personagens por quem não morria de amores era António Ferro. A 15 de agosto de 1935, ele registava no seu diário a festa de aniversário de Nita (a sua mulher Mariana Lupi, cantora lírica) e a conversa com os íntimos da família sobre a palestra que ele proferira sobre turismo na semana inaugural da Emissora Nacional, uma semana antes. Alguém ironicamente perguntou se o convite partira de Ferro. Ele deu um categórico não. Quem o convidara fora Henrique Galvão, "que andava em picuínhas com o Ferro, por ciumeiras dos favores do Doutor Salazar". O Lupi das barbas haveria de sobreviver aos dois, com um telefone direto ao ditador. Ferro caíra em desgraça e foi feito embaixador na Europa, Galvão desviou o paquete Santa Maria, contra Salazar. Curiosamente, Lupi fizera a viagem inaugural do navio junto ao então ministro da Marinha, Américo Tomás. Mas a morte deste também significou a sua decadência.

23.11.16

Elementos para a história da televisão portuguesa

Hoje, ao almoço na Associação 25 de Abril, o general João Bargão dos Santos falou da sua passagem como diretor de informação da RTP em 1974-1975, quando o general António Ramalho Eanes foi presidente da estação pública de televisão. Depois licenciado em medicina, desempenhando cargos nessa área como diretor do Hospital Militar, Bargão dos Santos falou da equipa que esteve com ele na RTP, como José Carlos Vasconcelos, Carlos Cruz e José Manuel Marques, chefe de redação antes de 25 de abril de 1974 e escolhido pelos seus colegas para continuar à frente da redação a seguir ao golpe militar (na fotografia do livro RTP 50 Anos de História, o segundo a contar da esquerda na noite de eleições para a Constituinte, abril de 1975; os outros elementos são Augusto Pinto, Carlos Cruz e Bessa Tavares). No cargo da RTP, Bargão dos Santos sucedeu a Álvaro Guerra.

22.11.16

Museu de Música Mecânica

O Museu de Música Mecânica excedeu as minhas expectativas. Situado em Pinhal Novo (Palmela), em edifício construído para o efeito (em forma de caixa de música), alberga cerca de 600 peças de música mecânica, coleção que Luís Cangueiro começou em 1987, quando comprou uma máquina de música mecânica num centro comercial de Almada por 30 mil escudos (quase 470 euros a preços atuais). Luís Cangueiro foi professor do ensino secundário e dedica-se à publicidade e ao hipismo.

De um pequeno texto do colecionador, retiro: "Destes instrumentos poderiam ouvir-se as mais belas melodias, rodando simplesmente uma manivela, dando corda a uma mola, acionando pesos, movimentando pedais, articulando foles". De uma notícia do Público, de há quatro anos, sobre a coleção então ainda à espera de sítio definitivo, retiro a seguinte parcela: "E que sistemas [de produção de sons] são esses? Os cilindros de madeira, por exemplo, eram movidos rodando uma manivela e activavam várias peças, tais como um Gem Roller Organ de 1887 para se ouvir 39 segundos de Auld Lang Syne, uma conhecida canção tradicional inglesa de Ano Novo, ou um piano bastringue que toca sozinho a valsa Douce Risette. Os cilindros de metal são usados nas caixinhas de música. A Edellweiss (peça do final do século XIX) usa um disco de metal para ressoar 63 segundos de um excerto de La Fille de Madame Argot, uma ópera cómica criada por Charles Lecocq em 1872. Já o Coelophone Orquestre, uma peça francesa de 1884, prefere uma simples banda de cartão. E o gigantesco Seybold, que junta um piano, um acordeão e um tambor numa mesma peça, é capaz de animar uma sala com Mimi d"Amour usando um frágil rolo de papel".

Num olhar mais preciso, noto similitudes em tecnologias: entre aparelhos de música mecânica e telefones, na transição do século XIX para o XX; no cartão perfurado de aparelhos de música mecânica a lembrar os computadores das décadas de 1950 a 1970.






Descobri um texto - que coloco a seguir, escrito por Teresa Margarida Cangueiro (e colegas) em abril de 2013 aqui - sobre o que se esperava do museu, agora tornado realidade (inaugurado em outubro de 2016):

“A música é algo intrínseca ao ser humano. A sociedade contemporânea tem uma relação diária com gira-discos, leitores de cassetes, ipods, iphones”, afirma Luís Cangueiro, “A história é a memória da humanidade, e será através das sonoridades que estes instrumentos nos transmitem que as gerações vindouras poderão recriar e reviver uma época já longínqua”.  A prática colecionista de Luís Cangueiro remonta a muitas décadas atrás.

Em 2000, a coleção de instrumentos de música mecânica já contava com cerca de três centenas de peças. Como consequência, o proprietário deste importante espólio decidiu que se justificava a construção de um espaço próprio, de forma a poder preservar e expor estas peças de forma condigna. Tratar-se-ia de um espaço museológico privado, de acesso restrito a familiares e amigos.

O interesse em aumentar a área de construção de um pequeno espaço, destinado a utilização privada, seria transformar a edificação já quase concluída num projeto de museu que pudesse ser considerado de relevante interesse cultural. “A iniciativa da construção deste museu tem como objetivo contribuir para a divulgação da música mecânica, muito pouco conhecida em Portugal, ao contrário do que acontece com outros países da Europa”, acrescenta Luís Cangueiro. As previsões para a conclusão das obras de construção do museu apontam para o próximo ano.

A coleção prima pelas diversas tipologias que se distribuem pelos mais variados instrumentos. Estes têm como objetivo tentar compreender a importância e o lugar que a música ocupava na sociedade da época da segunda metade do Séc. XIX até aos anos 30 do Séc. XX. O acervo divide-se nas duas grandes áreas da música mecânica: os instrumentos de música mecânica e os fonógrafos e gramofones.

A primeira forma de instrumento musical mecânico foi a caixa de música de cilindro, tornando possível ouvir-se música em casa sem ter que aprender a tocar um instrumento. Dentro desta parte da coleção é possível encontrar as diversas tipologias dos instrumentos de música mecânica: caixa de música de disco metálico, caixa de música de cilindro metálico, o autómato, o instrumento de cilindro de madeira, o instrumento de suporte perfurado e diversos objetos ligados a estes instrumentos.

A segunda área da música mecânica é dedicada aos fonógrafos e gramofones. Estes aparelhos tornaram possível gravar e reproduzir no momento seguinte a voz humana pela primeira vez. Estes têm a capacidade de nos transmitir a sua sonoridade por intermédio de cilindros que imortalizam as canções dos artistas do passado.

O primeiro fonógrafo foi apresentado por Thomas Edison em 1877. Esta máquina era constituída por um cilindro posto em movimento por uma manivela e recoberto por uma folha de estanho muito fina. “Num dos lados havia um estilete preso a um diafragma para gravar o som, e no outro uma agulha presa a um outro diafragma para o reproduzir. Edison pôs lentamente em movimento o cilindro e recitou um poema infantil Mary Had a Little Lamb, ouvindo-se a sua voz a reproduzir estes versos”, explica o colecionador, “Assim, tinha acabado de nascer a primeira máquina falante, o Tin Foil Phonograph, a primeira invenção com a capacidade de registar a voz humana”. O surgimento do fonógrafo levou o público a desinteressar-se pelos instrumentos de música mecânica.

Posteriormente foi a vez do gramofone se impor em relação ao fonógrafo. O Gramofone foi inventado por Berliner em 1887. O gramofone substituiu claramente o fonógrafo como instrumento de reprodução, sendo considerado como o grande precursor dos gira-discos elétricos que chegaram até aos nossos dias. Nesta coleção estão incluídos diversos modelos de fonógrafos e gramofones: gramofones de viagem, gramofones de criança, grafonolas, objetos relacionados com esta área como brinquedos musicais, agulhas, etc. e as formas de comunicação utilizadas na promoção destes aparelhos.

O aparecimento da telefonia fez com que os gramofones perdessem gradualmente a sua influência. Durante décadas as máquinas falantes que constituem esta colecção eram os únicos meios para divulgar a música. Perante o som destas caixas falantes no plano acústico, estas são restauradas permitindo a audição destas sonoridades que nos transportam para o plano sentimental ao despertar uma profunda nostalgia através da recriação do fascínio que provocou nas gerações passadas.

A coleção começou como um passatempo, tornando-se no primeiro museu dedicado à música mecânica. Neste espaço é impossível resistir à audição dos sons mágicos e nostálgico, produzidos e reproduzidos por estas máquinas falantes. É através da memória auditiva dos visitantes que ficará parte da essência da sociedade desta época. Este museu será o palco de um concerto do passado. “Ver, ouvir e sentir” é a mensagem que se deixa a todos os visitantes que se aventurem nesta viagem musical. A difusão desta arte permitiu o universo de uma linguagem musical, sem barreiras linguísticas.


O Museu de Música Mecânica, para além das salas de exposição, tem um auditório, uma sala de exposições temporárias (atualmente com uma coleção de fotografias de Luís Cangueiro), um centro de documentação, uma cafetaria e um espaço de venda de artigos relacionados com o museu.

21.11.16

Arquivo de Loures para destruir?

Do Loures Municipal - Boletim de Deliberações e Despachos mais recente, retiro a informação de uma decisão tomada pela assembleia municipal de destruição de arquivo. Isto parece-me ao arrepio do que deve ser um município que se quer orgulhoso das suas memórias culturais e históricas. Do que leio, transcrevo aqui uma parcela:

"No Arquivo Municipal estão reunidos documentos com interesse para a história de Loures, nomeadamente de associações e famílias, tendo este arquivo documentos desde o século XVI até aos nossos dias. Recentemente, o Sr. Presidente da Câmara Municipal apresentou à Câmara Municipal várias propostas de deliberação para a destruição de documentos do Arquivo, enquadrando a proposta numa lei que apenas se aplicará a parte dos documentos que se deseja eliminar, a legislação em que se fundamenta a proposta aplica-se a documentos que estejam apenas em conservação administrativa corrente, e não a documentos já antes considerados de valor arquivístico para conservação permanente os quais, salvo melhor opinião que não encontramos, são património municipal e enquadrados no domínio publico municipal. […] Ao contrário do que foi anteriormente afirmado nesta Assembleia não se vislumbra qualquer parecer de técnico credenciado sobre a pertinência da destruição dos referidos documentos; […] O Arquivo Municipal tem cinco pisos e capacidade para cerca de 15,8 quilómetros lineares de arquivos, pelo que não existe neste momento qualquer urgência, a curto ou médio prazo, para destruir documentos sobre os quais não existe qualquer estudo que permita uma decisão séria e devidamente fundamentada sobre a destruição dos mesmos; Os documentos já com valor arquivístico para conservação permanente devem ser considerados não só bens do domínio público municipal como, dada a sua natureza, documentos bens de incalculável valor histórico, e como tal a decisão sobre a sua destruição teria obrigatoriamente que ser deliberada em Assembleia, nos termos do n.º 1 do artigo 25.º da Lei n.º 75/2013; Existem sérias dúvidas sobre a legitimidade da Câmara Municipal em decidir sobre a destruição de documentos que são de entidades externas ao município (como parece ser o caso de alguns documentos designados de Espetáculos na proposta 250 aqui em causa; […] Que a presente recomendação seja enviada para o Arquivo Nacional Torre do Tombo, Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas e Direção-Geral dos Espetáculos".

Atualização a 26 de dezembro de 2016: a questão foi levantada pela televisão local de Loures: O mistério no arquivo municipal de Loures.

20.11.16

Cultura do aperfeiçoamento e história das pessoas

Aparentemente, os dois livros não têm semelhanças mas decidi colocá-los a par na minha biblioteca. A sua leitura deliciou-me, abriu-me horizontes, estimulou-me a escrever e a refletir. José Andrés Gallego (1944) ensinou história contemporânea nas universidades de Oviedo, Léon, Cádiz, ao passo que Robert D. Friedel (1950) ensina história da tecnologia e invenção na universidade de Maryland, não longe de Washington. O primeiro estuda a vida, os espaços vitais, a troca e o fazer, a condição do homem, a relação social entre analfabetos, leitores e sábios, a tolerância, a condição do súbdito, a revolução (e o Antigo Regime), o pensamento e a política nas relações internacionais, a morte (epidemias) e o tempo (relógio). O segundo analisou o arado e o cavalo, a potência (energia), a luz e o tempo, a troca, os quatro elementos (terra, fogo, ar e água), os renovadores (no sentido de aperfeiçoamento) e os engenheiros, artesãos, filósofos e empresários, iluminação, mobilidade, mensagens, ensino (formação), dinâmica, escala e terra e vida.

Neste cruzar de palavras-chave, encontro a razão porque decidi juntar os dois livros, pois espero um profícuo diálogo entre os dois. Portanto, têm muitas semelhanças. Pelas matérias, pelo sentido largo da sua exposição, no primeiro dando manobra aos processos e sistemas, no sentido permitindo a entrega e o reencontro de uma tecnologia e suas aplicações sociais, passando de um grupo ou geração para outro(a), que a melhoram e conseguem fruir mais adequadamente o esforço anterior. Se o primeiro livro atende aos movimentos sociais e lutas (fratricidas, muitas), o segundo alerta para a escassa vantagem de uma tecnologia para o seu inventor, com lucros ganhos por outros (sucessores, concorrentes, empresas). Um e outro apontam para o permanente devir, para a dinâmica social, para a troca entre indivíduos, grupos, sociedades e nações - no tempo e no espaço.

O livro de Andrés Gallego é uma edição renovada de um livro marcante em Espanha e que se debruça sobre o individualismo, a vizinhança, a alimentação e a fome, o interesse e o desinteresse pela cultura e pelas artes, associando geografia, psicologia, biologia e humanidades. O livro de Friedel, finalista no prémio Henri Paolucci / Walter Bagehout de 2008, elucida o contingente do aperfeiçoamento, a sua possibilidade em diversos níveis de ação e indica que a noção de aperfeiçoamento é menos objeto de explicação histórica e mais de observação psicológica. Historia de la Gente trabalha a história da Europa e do continente americano dos séculos XVIII a XX, A Culture of Improvement inicia a sua narrativa na Alta Idade Média e acaba-a em 1974.



Leituras: José Andrés Gallego (2016). Historia de la Gente. Madrid, Ediciones 19, 390 páginas
Robert D. Friedel (2007). A Culture of Improvement. Cambridge, MA, e Londres: The MIT Press, 588 páginas
Imagens das capas: Lorenzo Tiepólo (cerca de 1775), Retrato de tipos populares; Stephen Adam, The Engineers, Museu Glasgow City Council

19.11.16

Exposição O Mundo de Charles e Ray Eames

"Charles e Ray Eames iniciaram a sua parceria em 1941 que durou toda uma vida. A singular colaboração entre ambos deu origem a um vasto corpo de trabalho pioneiro e influente no campo do design". Os Eames e colaboradores "investigaram e desenvolveram produtos, mobiliário, filmes, slideshows, design gráfico, projetos expositivos e arquitetónicos, bem como novos modelos pedagógicos" [do texto que acompanha a exposição no MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia] [fotografia de Eames Office LLC].



Museu da Eletricidade (EDP)

A visita ao museu serviu também para ver o novo edifício e a instalação Mais Memória e Distopia em Pynchon Park, de exploração da influência do cinema e da literatura de Thomas Pynchon, conhecido por escrever livros longos e complexos com dezenas e centenas de histórias e personagens.


18.11.16

Rádio na Suíça

"La dialectique entre radiodiffusion et histoire des relations culturelles internationales est un domaine largement inexploré. Et pourtant, la radio, en tant qu’institution, en tant que vecteur et en tant que productrice d’objets culturels, se révèle être un sujet d’étude particulièrement intéressant pour faire l’histoire des relations culturelles internationales. L’objectif de cette thèse de doctorat a été d’analyser le rôle de la Société suisse de radiodiffusion (SSR) dans l’intensification des relations culturelles internationales de la Confédération. La SSR est une société privée fondée en 1931 qui chapeaute encore actuellement les radios et télévisions publiques suisses. Pour étudier la dimension internationale de ses activités, l’un des instruments phares du rayonnement culturel promu par le service public audiovisuel a été au cœur de l’analyse : la radio internationale helvétique, dénommée alors «Service suisse d’ondes courtes » (SOC). À l’instar de plusieurs organismes similaires à l’étranger, le SOC remplit dès ses débuts une double mission : resserrer les liens avec la diaspora et faire rayonner le pays hors des frontières nationales" ("Ici la Suisse – Do ischt schwyz – Switzerland calling"! La société suisse de radiodiffusion (SSR) au service du rayonnement culturel helvétique (1932-1949), Thèse de doctorat de Raphaëlle Ruppen Coutaz, sous la direction de François Vallotton, Université de Lausanne, soutenue le 9 mars 2015) [Radio Morphoses].

17.11.16

O Novo Dancing Elétrico

Gostei da peça, ao início a lembrar-me o neo-realismo, embora sem uma segunda mensagem de superação da alienação, o que me acordou para outra realidade. Mas persisto na ideia: afinal, são gente comum, que trabalha, é anónima, está condenada a perder - no caso, não o dinheiro nem a posição social mas a ser esquecida, a viver isolada em casa com sonhos que apenas pertencem aquelas pessoas.

São duas irmãs mais velhas - Breda e Clara - que recordam a juventude dos seus 17 anos de idade e Roller Royle, o cantor que apareceu na aldeia piscatória irlandesa, repleta de peixes e mexericos (coscuvilhices), e encantou as raparigas com a sua voz e, especialmente,o ritmar das suas ancas a lembrar o outro, o americano Elvis Presley. As mulheres acabaram por ficar sozinhas em casa, a verem a juventude a fugir, restando a memória das deslocações de bicicleta - longos quinze quilómetros - até ao Novo Dancing Elétrico. Elas e as outras mulheres ficaram apaixonadas e formaram logo sonhos, que permaneceram sem realização efetiva até à velhice. Ensaiam todos os dias, como se fosse a preparação para uma representação final. Elas conhecem tão bem as deixas que as duas repetem o papel de cada uma. Deixam as roupas de trazer em casa e engalam-se como se fossem para a discoteca, calçando sapatos de tacão alto e maquilhando-se. Mas aqui a ilusão revela-se dramática, quando a maquilhagem atinge formas ridículas.


A terceira irmã, Ada, é mais nova - mas faz o mesmo circuito entre casa e a fábrica de conservas de peixe. Parece condenada ao destino de memórias de Breda e Clara quando aparece o peixeiro Patsy. As duas irmãs mais velhas abandonam o seu delírio diário e esforçam-se, por uma vez, para servir uma xícara de chá e uma fatia do bolo de chocolate que uma delas fez. Mas o peixeiro, até aí rejeitado pelas suas histórias, acaba por se ir embora. Patsy confessa ser filho de um amor rápido da sua mãe e do próprio Roller Royle. E tudo volta ao começo.

O Novo Dancing Elétrico, de Enda Walsh, tradução de Joana Frazão, com Andreia Bento, Antónia Terrinha, Isabel Muñoz Cardoso e Pedro Carraca, cenografia e figurinos de Rita Lopes Alves, luz de Pedro Domingos, assistência de encenação de Andreia Bento e Pedro Carraca e encenação Jorge Silva Melo para Artistas Unidos - Teatro da Politécnica. O desempenho das três atrizes é muito bom, mas quero destacar o papel de Antónia Terrinha. A vantagem de estar na primeira fila a ver o desenrolar da história quase que me transporta para dentro da cena e perscrutar melhor os ambientes e o que pensam as personagens.

15.11.16

A história da rádio segundo Álvaro de Andrade (10)

Como tenho vindo aqui a publicar, Álvaro de Andrade (jornalista, radialista e homem de teatro) publicou uma série de artigos no Diário Popular sobre os primeiros anos de atividade da Emissora Nacional de Radiodifusão, na época em que ele trabalhou na rádio pública. Na sequência de um artigo sobre Pedro de Freitas Branco (publicado em 29 de setembro de 1970), ele voltaria a escrever sobre o diretor de orquestra mais duas vezes. O que destaco hoje saiu no referido jornal a 6 de outubro de 1970.

O jornalista destacou a homenagem nacional ao maestro, que terminou com uma condecoração atribuida pelo presidente da República. E, no presente texto, recorda uma das maiores digressões ao estrangeiro, ao Mónaco, onde dirigiu 15 concertos da "saison musicale" de 1938-1939. Reproduzo uma pequena parcela do texto sobre a orquestra e o maestro: "receberam do público escolhido e cosmopolita e da grande Imprensa, dos jornais e das revistas da especialidade, uma consagração que não pode nem deve ser esquecida". Álvaro de Andrade destacara já o trabalho de Pedro de Freitas Branco num jornal diário de "pouca expansão" e em dois semanários radiofónicos.


Pedro de Freitas Branco (1896-1963) - irmão do compositor, professor e musicólogo Luís de Freitas Branco (1890-1955) - começou por estudar engenharia, que trocou pela música. Esteve em Londres, onde se apresentou como cantor. Depois, no Porto, criou a Companhia Portuguesa de Ópera Lírica, encerrada por questões financeiras. Maurice Ravel convidou-o a dirigir obras suas em Paris (1932), no que resultou um grande êxito para o maestro português, entretanto casado com a pianista Marie Antoinette Lévêque e tendo fixado residência em França. Em 1934, Pedro de Freitas Branco foi convidado para dirigir artisticamente a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional de Radiodifusão, cargo que manteve até à sua morte (elementos recolhidos na Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX, artigo escrito por Adriana Latino)

13.11.16

GNR no Campo Pequeno (Lisboa)


Escreveu ontem o Expresso: "Em 35 anos foram pós-punk, pop de vanguarda, rock de massas e mais qualquer coisa. Gravaram álbuns seminais do pop/rock em português, encheram dois estádios de futebol, caíram a pique e levantaram-se com orgulho".

Ontem, já hoje, aliás, os GNR e os convidados (Campo Pequeno, Lisboa).

Os Últimos Dias da Humanidade

O teatro ficou transformado, desaparecendo a plateia e o palco. Toda a representação passa-se no centro da sala, uma trincheira da I Guerra Mundial. A ação decorre na Áustria desse período, uma sátira feroz à guerra, escrita por Karl Kraus, Os Últimos Dias da Humanidade. O autor concebeu a obra um mês e meio depois do assassínio do herdeiro do trono do império austro-húngaro em Sarajevo e que foi o motivo imediato da I Guerra Mundial. A obra foi escrita entre 1915 e 1922, teve poucas representações até meados do século XX por questões de direitos de autor defendidos pela família de Kraus e foi refeita para representação teatral dada a dimensão, que daria para dez serões a contar no planeta Marte, como enunciou o autor. Os encenadores Nuno Carinhas e Nuno M Cardoso propuseram-se instalar um "horror risonho" na plateia do teatro, assim transformada em "estaleiro de formas em construção: cidade, trincheira, arsenal de memórias e aparições", começando com um burlesco funeral de "terceira classe" e terminando com a voz grave de Deus.

Políticos, militares e comerciantes são personagens presentes, do mesmo modo que vendedores de jornais e empregados de restaurantes, onde se discutem preços, carestia de vida e racionamento de bens. Mas também lucros especulativos ligados à indústria da guerra, com personagens nada interessadas que os combates cessem. A senhora Wahnschaffe incita os filhos a brincarem à guerra, lamentando que o filho ainda não tenha idade para ir para a tropa e o segundo descendente seja uma rapariga.  A jornalista austríaca correspondente de guerra Alice Schalek, que percorreu os campos de batalha, retrata a guerra com quase indiferença, exceto quando cruza com um grupo de mulheres sérvias que se riem (a Áustria entrou em guerra com a Sérvia). Se quisermos, Kraus, além da crítica ao lado bélico das elites das nações, coloca em xeque a comunicação social - os jornais, então. E o encenador Nuno Carinhas foi muito claro: "Queremos fazer uma montagem aberta sobre a guerra e a estupidez da guerra".

O Otimista e o Eterno Descontente são figuras centrais, no texto inicial com uma função córica (versos cantados pelo coro nas peças gregas). Diz o primeiro - "Mas quando chegar a paz..." - a que responde o segundo - "... há-de começar a guerra". Onde o Otimista vê "Mas todas as guerras até hoje acabaram em paz", responde o Eterno Descontente, a própria voz do autor, "Esta não. Esta não se desenrolou à superfície da vida, destroçou a própria vida. A frente da batalha expandiu-se para o interior do país. Vai aí permanecer". Há uma aparente e inicial visão de apoio à Alemanha, onde tudo é racional, mas clarifica-se uma crítica óbvia. E a oposição à Itália, que ousou entrar na guerra contra o império austro-húngaro. A falta de bens alimentares e o ódio ao "outro", o inimigo, gera a censura e o esquecimento, caso dos nomes das refeições, linguagem proibida de palavras estrangeiras, levando a designações estranhas como "ovos ao desespero" ou "bife à traidor".

A obra da qual se extrai a peça é longa, o que levou o encenador a cortar. Mas o conjunto de pequenos e rápidos quadros têm uma grande harmonia no seu conjunto. O interior da sociedade burguesa austríaca, afetado pelo conflito, ocupa um dos quadros centrais, com a discussão entre marido (conselheiro Schwarz-Gelber) e mulher, reclamando a sua influência social (sou eu e não és tu). A circularidade da ação – desaparece a quarta parede invisível, que relaciona o palco e a plateia – traz alguns problemas. Mesmo com os microfones individuais, que amplificam a voz de cada ator, falha a visualização das expressões faciais e gestuais se o ator não está virado para a tribuna e balcão.

Os Últimos Dias da Humanidade, pela denúncia e crítica corrosiva, descontrói a visão de progresso da Europa no começo do século XX, quando países e sociedade sofrem uma forte mudança. O programa - prefiro chamar catálogo ou, neste caso mais apropriadamente, uma revista com bons artigos - traz trabalhos de António Sousa Ribeiro, Bruno Monteiro, Roberto Calado, Edmundo Cordeiro, Cândida Pinto, Rui Bebiano, João Luís Pereira, Walter Benjamin e Karl Kraus, que completam, de modo interpretativo e crítico, a peça em representação no Teatro S. João (Porto) [descarregar aqui]. Tradução do livro de Karl Kraus de António Sousa Ribeiro, dramaturgia de Nuno Carinhas, Nuno M Cardoso, João Luís Pereira e Pedro Sobrado, encenação de Nuno Carinhas e Nuno M Cardoso, cenografia e figurinos de Nuno Carinhas, desenho de luz de Wilma Moutinho, desenho de som de Francisco Leal, música de Jonathan Saldanha, vídeo de Pedro Filipe Marques, assistência de encenação de Mafalda Lencastre, interpretação de Ana Mafalda Pereira, Andreia Ruivo, António Durães, Benedita Pereira, Diana Sá, João Cardoso, Joana Africano, João Castro, João Lourenço, Mafalda Canhola, Marcello Urgeghe, Maria Inês Peixoto, Miguel Loureiro, Paulo Calatré, Paulo Freixinho, Pedro Almendra, Raquel Cunha, Rita Pinheiro, Sara Barros Leitão, Teresa Arcanjo e Tiago Sarmento.

12.11.16

Amadeu de Sousa Cardoso

Amadeu de Sousa Cardoso em exposição até 31 de dezembro no Museu Soares dos Reis (no começo de 2017, no Museu do Chiado, em Lisboa). Reconstituição da exposição de 1916 daquele grande artista plástico nacional. Das 114 obras expostas no Porto há 100 anos, estão cerca de 70% delas, identificadas a partir dos catálogos originais. Em novembro de 1916, no Jardim Passos Manuel, já demolido, a exposição causou polémica, havendo que tenha agredido o artista por discordar das formas do representado, mas alcançou 30 mil visitantes em 12 dias, o que foi impressionante. No mês seguinte (dezembro de 1916), a exposição na Liga Naval Portuguesa (Lisboa) foi mais elitista e cativou o grupo de Orpheu e Almada Negreiros. Com a ajuda do pai e do tio, Amadeu montou as exposições, fez os catálogos e deu entrevistas aos jornais. Na época, foi reconhecido como futurista.

Um destes dias, Margarida Acciaiuoli defendeu uma revisão da história da arte contemporânea para dar maior relevo ao pintor. Estou de acordo.


Media Capital à venda de novo

De acordo com o Expresso, o grupo espanhol Prisa colocou à venda a Media Capital (televisão TVI, produtora de conteúdos Plural e Rádio Comercial), no contexto da reestruturação financeira do grupo espanhol. O semanário revela que a Altice (Portugal Telecom) está interessada. Isto lembra uma situação de há anos.

Henrique IV, Parte 3

A representação tem um início lento. Parece que assistimos a um conjunto de exercícios experimentais ou de aquecimento. Henrique, o tradutor, anda à volta de um círculo, repetindo números e fórmulas. Quando a mulher Iolanda assoma, percebe-se que estava a sonhar, melhor, a ter um pesadelo. Ele estava a traduzir Shakespeare, ao mesmo tempo que fazia traduções comerciais e industriais (como empilhadoras e autoclismos) para viver. A economia desempenha um papel primordial – segurança social, recibos verdes, internet – quadro de um casal atual com precariedade de emprego. Dela, sabe-se ser educadora de infância, atividade que a leva a sair de casa cedo e a dar recomendações à empregada doméstica.

Lentamente, a peça mostra um triângulo amoroso. A empregada Miriam tem sonhos de ser modelo, de passar nas passereles, mas precisa de um pequeno investimento para a compra de vestuário. O tradutor a dias não consegue satisfazer essa dificuldade. A rapariga mete-se num buraco quando faz uma sessão fotográfica destinada a promovê-la e ela descobre que queriam pôr as imagens ousadas na internet. O que leva Henrique a recorrer a Jacaré e, após pagar um valor, fica com a cassete comprometedora. Esta mais tarde servirá para usufruto dele e de Iolanda.

Tudo se complica quando aparece Falsfatt, herói de Shakespeare, apenas visível para Henrique, o tradutor. Sir John Falstaff foi personagem fictícia em três peças de William Shakespeare. Nas peças Henrique IV, parte 1 e parte 2, ele é companheiro do príncipe Hal, futuro rei Henrique IV. Mais um delírio do jovem. O herói isabelino mostra-se arrogante e pede um adiantamento para se atualizar no vestuário. Mais uma vez, Henrique recusa, o que torna a sua vida diária um grande conflito.

A representação tem um elemento atraente: as luzes em objetos (copos), o corpo físico redondo no fundo do palco (que permite construir algumas ideias cénicas) e as corridas dos atores lembram a pintura construtivista, composta por elementos geométricos, retangulares, cónicos e circulares. Como se o teatro fosse uma junção à pintura, uma arte menos performativa que aquela. O texto é poético, nem sempre próximo da situação real que pretende retratar, mas agradável de ouvir. Os atores usam as letras sibilares com grande acento, porque falam assim ou porque a encenação assim o pretendeu.

O texto do autor (Jacinto Lucas Pires, também encenador) no programa não ajuda à compreensão do texto representado, porque fala de uma situação (história) que nada tem a ver com a peça. Nem se pode dizer que seja um metatexto. Excertos de Henrique IV, partes 1 e 2 de William Shakespeare, cenografia e figurinos de Sara Amado, desenho de luz de Nuno Meira em colaboração com Filipe Pinheiro. Interpretação de Ivo Alexandre, Luís Araújo, Paula Diogo e Anabela Faustino (a representação inclui o hino O Nata Lux de Lumine (Thomas Tallis), com interpretação Chapelle du Roi e direção de Alistair Dixon. Público do teatro Carlos Alberto culto mas severo (parcimonioso) nas palmas.

Do diálogo entre tradutor e personagem de Shakespeare:

Falstaff: Qual é o vosso nome, condição e origem?

Henrique: Henrique… tradutor… hã… Mas, que raio, porque é que… Eu é que devia estar a...

Falstaff: À fé de Deus que tendes aqui uma boa casa, e rica.

Henrique: Não é muito grande, mas… obrigado.

Falstaff: Poderá Vossa Senhoria emprestar‑me mil libras para eu me equipar?

Henrique: O quê? O senhor saberá, por acaso, o que é a minha vida? As dificuldades que eu tenho, segurança social, recibos verdes, conta da net e… o que eu tenho de passar todos os dias, a traduzir merdas – merdas mesmo – instruções de montagem de enroladores mecânicos de estrume, coisas assim – para que me paguem uns trocos, umas migalhas de...

Falstaff: O quê? Um rapazola tão novo e já a pedir? Então não há guerras? Não há empregos? Não fazem falta súbditos ao Rei?

11.11.16

Museu de música mecânica

Já abriu o Museu de Música Mecânica, em Palmela. Tem um acervo de mais de 600 peças. A visitar.


Leonard Cohen

No começo de agosto, falecera Marianne Ihlen, inspiradora da canção So Long Marianne, com quem Cohen vivera sete anos. Ele cantava: "Now so long, Marianne, it's time that we began to laugh and cry and cry and laugh about it all again". Ele desejou eterno descanso e disse estar pronto a segui-la. Agora, vem a notícia da morte do próprio Leonard Cohen, 82 anos, poeta e escritor, cantor e compositor. As canções e as letras das canções deste canadiano são valiosas e cantadas também por outros, um enorme património. Para mim, na discussão neste começo de outono, da qual estive silencioso, seria melhor atribuir-lhe o prémio de literatura Nobel - se um cantor merece um prémio de literatura pelos seus poemas (música e lírica não são um todo?).

10.11.16

Fórmulas naturalistas da arte moderna

Na Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves (avenida 5 de outubro, Lisboa).


9.11.16

Livro de Júlio Isidro


Hoje, ao final da tarde, foi apresentado o livro de Júlio Isidro, O Programa Segue Dentro de Momentos. Autobiografia, em edição da Marcador. A apresentação esteve a cargo de Nuno Markl. O veterano autor e apresentador de programas de rádio e televisão (56 anos de carreira) também falou e contou histórias da sua vida profissional e passou um pequeno filme com imagens de alguns programas ao vivo que fez para a televisão.

Sobre a rádio, no seu livro leem-se diversas páginas, a começar na 105, em que o autor reconhece ser dos poucos que começou na televisão e se deslocou para a rádio, quando, em 1967, concorreu para apresentador de Rádio Clube Português. Prestou provas mas o diretor da estação Álvaro Jorge não gostou totalmente da sua prestação. Apenas um ano depois ficaria ligado à estação, no programa FM 67, apesar de já ser junho de 1968, programa de madrugada produzido por Carlos Martins e onde alternava com Rui Paulo da Cruz. Júlio Isidro recorda do bom acolhimento dos veteranos de então, como Jaime da Silva Pinto e José do Nascimento. Logo depois, entraria para os noticiários, a convite de Luís Filipe Costa. Este deu-lhe algumas páginas com aquilo a que o agora autor biografado chama "a arte de bem noticiar a toda a sela" (p. 107): horários, tempos de cada serviço noticioso, ordem das notícias, inclusão de gravações, meteorologia e metodologia de trabalho. Oito profissionais garantiam 24 horas de notícias.

Então, Júlio Isidro ganhava à hora (25 escudos nos noticiários), surgindo depois convites para apresentar programas. Um deles foi Ruy Castelar, então a produzir A Noite é Nossa, de madrugada, celebrizado por fazer programas em direto de boîtes como o Porão das Naus, entretanto consignado ao produtor do programa (50 escudos por programa). Passou por outros programas como Clube das Donas de Casa (em parceria com Ana Zanatti), com o cabaz de Natal, Hora Bosch, Encontro no Ar, de José do Nascimento, com discos emprestados da discoteca A Havanesa (p. 116), e até Quando o Telefone Toca, a substituir Matos Maia. Júlio Isidro, que foi uma das vozes do programa Em Órbita, onde lia pequenos textos escritos por Jorge Gil (p. 123), chegou a fazer seis horas de noticiários seguido de outro tanto tempo como locutor de programas, além de outros compromissos em vários programas (p. 127).

Mais tarde, viriam, entre outros, Grafonola Ideal (p. 189), Febre de Sábado à Noite (p. 194), na rádio, e Passeio dos Alegres (p. 216), na televisão. E muitos mais, que eu estou a descobrir à medida que leio o livro.

Leitura: Júlio Isidro (2016). O Programa Segue Dentro de Momentos. Autobiografia. Barcarena: Marcador, 384 páginas, 19,95 euros

8.11.16

Arte e medicina em exposição em Soure

De 12 de novembro a 9 de janeiro de 2017, no Museu Municipal de Soure vai estar patente a exposição Arte & Medicina, do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. A equipa de curadoras da CulturAge (Cristina Nogueira e Carolina Gomes) centrou o discurso expositivo em dois eixos, relacionados com a arte e com o património hospitalar. A exposição convida o visitante a um percurso que o leva à reflexão da representação da medicina na arte, bem como médicos, doenças e hospitais. Por outro lado, visa o conhecimento do percurso histórico da realidade local através da exibição de exemplares do património hospitalar.

Na exposição, há 56 reproduções de pinturas e iluminuras de museus de todo o mundo sobre medicina e médicos, doenças e hospitais, como Picasso, Rembrandt, Bruegel, Gerrit Dou, Metsu, Goya y Lucientes, Eakins, Jiménez Aranda, Luke Fildes, Toulouse-Lautrec e Frida Kahlo. No segundo eixo expositivo, fez-se uma seleção de manuscritos e objetos médicos pertencentes ao antigo Hospital da Misericórdia de Soure, surgido no século XVII [informação da entidade organizadora].


De Viva Voz - canto profundo a capela

Dia 12 de novembro, pelas 21:30, no Teatro Tivoli (Lisboa), atuam quatro grupos e 40 mulheres, referenciando a riqueza de um património imaterial. Os grupos são: Cramol, Maria Monda, Segue-me a capela e Sopa de Pedra, vindos de Oeiras, Lisboa, Coimbra e Porto, respectivamente, juntos pela primeira vez, a partir de ideia e direcção artística de Amélia Muge. O concerto insere-se no âmbito do Misty Fest, em noite de descoberta ou redescoberta de um património imaterial nacional e dos mais ricos da Europa: o canto de mulheres e, em particular, as suas polifonias tradicionais. Serão sobretudo canções das Beiras, Entre Douro e Minho, Douro Litoral e Minho [informação da entidade organizadora].


7.11.16

Revisitar o programa PBX

Nascido em setembro de 1967, PBX foi um dos maiores programas da rádio desse período. A produção era dos Parodiantes de Lisboa e a realização pertenceu no primeiro ano a Carlos Cruz e José Fialho Gouveia, nomes já famosos nos ecrãs da RTP. José Nuno Martins apresentava o programa e a assistência técnica estava ao cuidado de Alberto Moreno. O programa radiofónico marcou nomeadamente por abandonar o estúdio com alguma regularidade e promover e transmitir eventos mediáticos junto do público.

Em baixo, a estrutura de uma edição do programa (3 de outubro de 1968). Dele se percebe haver jingles de apresentação e continuação do programa: "PBX está no ar, PBX vão escutar", "PBX vão ouvir, PBX vão seguir", "Sintonize PBX, utilize PBX". E spots de autopromoção: "Todas as noites / da meia noite às duas / está no ar / PBX", "Reunido o Clã PBX, vamos estar juntos nos próximos oito oitavos", "PBX é para ouvir Tooooooodo", "Este é o fenómeno PBX - só para quem gosta da vida", "Não desça com o PBX em andamento. Venha connosco até às duas - você vai ver o que acontece", "PBX tem duas linhas - uma que nasce aqui, para casa do ouvinte; outra que nasce no acontecimento", "PBX - um sorriso e uma flor".

O programa tinha uma lista classificada de vinte discos, escolhidos de acordo com o valor musical, o gosto pessoal, o êxito junto dos ouvintes e as possibilidades comerciais, tudo apreciações muito subjetivas. O disco mais votado era apresentado com um jingle: "É, é o número 1". No dia aqui apreciado, houve três entrevistas: a um amolador, a um guarda de passagem de nível (comboio) e a espectadores de filme no cinema Império.


 PBX comemoraria 50 anos no próximo ano de 2017.
 

6.11.16

O Feio

Peça de Marius von Mayenburg, com encenação de Toni Cafiero, com os atores André Pardal, João Farraia, João Tempera e Maria João Falcão, para o teatro Municipal Joaquim Benites (Almada), numa curta série de representações no Teatro da Trindade (Lisboa). A história é de Lette, um engenheiro que inventou um aparelho que deu fama e proveito à sua empresa, mas cujo patrão não permite que ele a apresente num congresso. A razão é porque ele é muito feio. Mesmo a sua mulher não lhe dissera. Lette recorre a uma intervenção cirúrgica e renasce como homem belo, atraindo toda a gente. O cirurgião que o operou, repetiria o êxito, transformando os outros homens e ganhando fama e dinheiro, ao passo que o patrão do engenheiro passou a querer que ele fosse a congressos para atrair investidores ricos. Mas a produção em série, com muitos duplos, reduz o valor de Lette e mesmo a sua mulher pensa num outro.

A história tem muito potencial e a encenação recorre a imagens da cultura de massas (cinema, banda desenhada e desenhos animados, música e outras peças de teatro), em colagens e jogo de citações permanentes, que corta a narrativa e a transporta para outros níveis. O que está em jogo é a identidade e a sua perda ou transferência, à qual a nova pele tem dificuldades em se adaptar ao indivíduo. E ainda a imagem, elemento essencial na nossa sociedade. Os afetos e a sinceridade de sentimentos contam menos do que a aparência.


5.11.16

El Perro del Hortelano, de Lope de Vega

Literatura espanhola barroca do século XVII, a peça de Lope de Vega, El Perro del Hortelano, tem como tema principal o amor. A condessa Diana está apaixonada pelo seu secretário Teodoro, mas a inferior condição social deste impede o casamento. Por outro lado, Marcela, criada da condessa, gosta de Marcelo e quer casar com ele. Diana, por um lado, quer que aqueles dois se casem, mas ela também gosta de Teodoro, impedindo por todos os meus o enlace. Ela é como o cão do jardineiro, que não come vegetais mas não permite que os outros não comam.

Os ciúmes são uma variação do tema, conhecidas as reações de Diana e de Marcela, quando ambas reagem de modo idêntico relativamente a Teodoro. Um terceiro aspeto da obra é o engano, em especial quando Tristán faz passar Teodoro por filho de um marquês para, assim, herdar um título nobiliárquico e poder casar com Diana. No fim de contas, Diana quer sair do cárcere de ouro a que foi submetida por condição de classe, querendo escolher por ela própria, mesmo que lhe surjam pretendentes do seu nível social. E ainda a honra, a ousadia, a ambição e o desengano, que fazem da obra de Lope de Vega, escrita entre 1613 e 1615, uma comédia urbana e que agrada a quem a vê, pois os sentimentos estão atualizados.

O Teatro de la Comedia (Madrid) reabriu recentemente, depois de obras de requalificação. Com o novo teatro, a companhia rejuvenesceu, a partir de uma seleção de mais de mil candidatos, e preparou-se para apresentações no país e no estrangeiro.

4.11.16

Coimbra Cartaz Cultural - crowdfunding


"O Coimbra Cartaz Cultural é uma agenda de divulgação de eventos culturais, desportivos e de lazer da cidade de Coimbra, que nasceu em 2012. A agenda propôs-se aumentar a oferta dos seus serviços criando mapas, postais e guias de lazer de forma a enriquecer a experiência de vivência da cidade. É para a realização desses materiais que estamos a criar a campanha de crowdfunding. O mote da campanha: Perder-se e achar-se em Coimbra. Criar mapas, escrever postais (ou colecioná-los), andar com Coimbra ao ombro pelo mundo fora. Ter recordações para partilhar. (Vi)Ver a cidade de uma outra maneira. A equipa do Coimbra Cartaz Cultural é composta por duas pessoas: Paula Vale Marques, responsável pela manutenção e gestão do website e da página do Facebook, e Ana Fróis, autora das ilustrações das páginas e responsável pela pesquisa e produção do material gráfico para os mapas, postais e tote bags" [ver mais em Coimbra Cartaz Cultural e em Ana Fróis].

Livro de Júlio Isidro

Vai ser lançado no próximo dia 9, pelas 18:30, na FNAC do Cento Colombo, o livro de Júlio Isidro, O Programa Segue Dentro de Momentos.

3.11.16

Marcel Broodthaers: una retrospectiva

O Museum of Modern Art (Nova Iorque) e o Museo Reina Sofía (Madrid) organizaram um retrospetiva muito completa do artista belga Marcel Broodthaers (1924-1976), de grande produção artística nas décadas de 1960 e 1970 (cerca de 300 obras presentes). Isso inclui os objetos mais antigos feitos com mexilhões (um dos pratos favoritos dos belgas) e ovos, um e outro materiais frágeis e ilustrativos de uma arte pobre e efémera. Depois, a exposição percorre os seus objetos posteriores, como o museu fictício, o Musée d’Art Moderne. Département des Aigles, e a retrospetiva Décor. A poesia, os livros e o cinema constituem outros espaços de trabalho criativo do artista, inicialmente fotógrafo de imprensa que, já maduro, resolveu dedicar-se às artes plásticas.