Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência mantida desde 2003.

29.5.15

As telecomunicações em 1989

Em 1989, um grupo de profissionais das telecomunicações quis fazer um vídeo sobre a atividade. Retiro a ficha técnica: "TLP em Linha com o Futuro (1989), coordenação Maria Conceição Ramires, realização António Clemente, Manuel Aguiar Costa, Rogério Santos e Rui Medeiros, operador de câmara Américo Barros, produção Centro de Formação TLP-Porto". O vídeo segue parcialmente a ideia que eu desenhara em livro (Da Telefonista ao Digital).

No vídeo, de passagem, fala-se de correio eletrónico (email) e de telemóveis (ainda ligados ao automóvel por uma ligação física). Os computadores que se veem são anacrónicos e a palavra internet ainda não é dita. O vídeo feito em VHS ou Betamax, não me recordo, foi agora passado para formato digital, perdendo alguma qualidade na definição das cores. Agora, vale apenas como documento.

28.5.15

Parem as máquinas

São 23 histórias deliciosas do jornalismo, desde o final da monarquia até ao pós-1974. Quase todos os jornalistas referidos no livro ficaram para a história e para a cultura nacional, como Ferreira de Castro, Félix Correia, Urbano Carrasco, Urbano Tavares Rodrigues, Maurício de Oliveira, José Mensurado, Eduardo Gageiro (foto-jornalista), Nuno Rocha, José Goulão e Carneiro Jacinto. Do ponto de vista político, estes jornalistas podem até ter visões diferentes, mas o que sobressai das histórias é o lado épico, divertido, ou até tendencioso e falso, umas resultaram de atos corajosos dos jornalistas, outras são embustes que levaram à publicação de notícias depois desmentidas, mas sempre resultado da paixão de quem escreve nos jornais de papel.

Por gosto pessoal, destaco as histórias em torno das fotografias do embarque da fuga do último rei de Portugal, do acompanhamento dos funerais dos regicidas de 1908, da entrevista ao membro do grupo que fuzilou Mata-Hari, à paródia em torno da "morte" de Peyradon e dos "árabes" que queriam comprar petróleo em Angola. E diverti-me ao conhecer as razões para o duelo entre dois jornalistas consagrados à época: Pinheiro Chagas e Magalhães Lima.

Gonçalo Pereira Rosa narra as histórias com um sentido quase policial, que nos leva a querer chegar até ao fim da mesma para saber que desenlaces ocorrem. Ele, que revela um sentido apurado de humor, tem muitas qualidades de escrita, quase ao nível do romancista ou da História romanceada: ao facto verdadeiro, ele junta pequenas cores de aguarela. Ao que junta duas outras características: fica a saber-se o que aconteceu ao jornalista ou à personalidade retratada, com uma curta biografia em cada história; imagens de jornal, fotografias da época ou desenhos modernos que nos remetem para os jornalistas ou personalidades. O que torna o livro um produto cultural muito interessante. Cada história ocupa uma média de 10 páginas, o que permite ao autor apresentar o facto, situá-lo no contexto do tempo e do espaço e trazer as histórias quase à atualidade, género "estes homens podiam ser nossos contemporâneos".

O autor acrescenta outra qualidade. Ele é um historiador - não das estruturas mas da micro-história. A ele interessa-lhe a ocorrência, a cintilação, o gesto - e depois junta, interpreta, avalia e anuncia. Parece inaugurar um género - o do historiador-jornalista. Não nos dá o ambiente pesado da redação, mas o lado do repórter, do que está em campo e julga apanhar a "cacha" que o pode tornar conhecido, mas nem sempre preocupado com o que ganha financeiramente. Repito: o autor é historiador, pois o seu livro recolhe dados obtidos nos arquivos da Torre do Tombo e da Biblioteca Nacional. Por vezes, cruzamo-nos nesses sítios fantásticos.

Uma única falha no livro: os jornalistas são do género masculino. Não há nenhuma história que mostre a perspetiva feminina?

Gonçalo Pereira Rosa tem o mestrado em Ciências da Comunicação e doutoramento em Sociologia, é professor na Universidade Católica e diretor da National Geographic portuguesa. Como leitor de livros de media, gostaria que a sua tese de doutoramento (sobre jornalismo e ambiente) fosse publicada tão depressa quanto possível.

Leitura: Gonçalo Pereira Rosa (2015). Parem as máquinas! Lisboa: Parsifal, 254 páginas, 16 euros

O doutoramento de Joana Seabra

Hoje à tarde, na Universidade Católica, Joana Seabra defendeu a tese de doutoramento Assessoria de Imprensa: Controlo em Rede. O Assessor de Imprensa como estratega de enquadramento.


A nova doutora trabalhou o tema da assessoria de imprensa enquanto estratégia de comunicação, fonte e agente que procura controlar a relação entre a empresa ou instituição e os media. As suas perguntas de partida levavam a conhecer como o assessor procura capitalizar a produção jornalística em benefício da organização para quem trabalha e quais os passos e as implicações da sua estratégia. A ideia motora é que as fontes de informação estão cada vez mais profissionais.

[na fotografia, da esquerda para a direita: Nelson Ribeiro, Rogério Santos, Ana Mafalda Eiró Gomes, ESCS, José Tolentino de Mendonça, vice-reitor da Universidade Católica, Joana Seabra, Vasco Ribeiro, Universidade do Porto, e Rita Figueira]

À Joana Seabra - foi um prazer a orientação ao longo destes últimos anos. Falámos muito de Foucault, da sociologia do jornalismo, das relações entre fontes e informação, teoria do agendamento e gatekeeping, de metodologias e de validade da investigação. Aos meus colegas do júri - como é agradável a cumplicidade de discutirmos os temas que temos trabalhado, da aprendizagem mútuo e de que como não há melhor democracia de, embora não concordemos em tudo com todos, continuamos a argumentar a a aprender.

27.5.15

Percurso

O livro de Yves Eyot era sobre arte, cultura e estética. Havia um capítulo longo dedicado à arte pré-histórica nas suas formas de arquitetura e escultura. Fixei esta parte e escolhi para apoio à aula. Utilizei alguns diapositivos com imagens retiradas de livros de história da arte. De repente, dei-me conta da discrepância de datas face a outra fonte bibliográfica. Dois autores sobre a mesma ocorrência identificavam anos diferentes. A aula estava a correr bem, mas a incongruência embaraçou-me. Era ao começo da noite de um dia de outubro de 1981. No final do semestre, a turma e os professores fizeram um almoço de confraternização, onde evoquei a falha.

Logo depois, iniciava o ensino de teorias da comunicação, percurso até hoje prolongado, nos últimos 12 anos na Universidade Católica Portuguesa. Por isso, hoje, no final do ano letivo, apresentei o pensamento de autores da teoria da ação linguística, entre os quais John Austin e Paul Grice. Atos de fala, performatividade, sujeito locutório, ilocutório e perlucotório, princípio cooperativo e relevância foram tópicos referidos. Noutra aula da semana, noutra matéria, lemos um capítulo do livro de David Hesmondhalgh sobre indústrias culturais, que me acompanha desde o começo deste blogue.

No decurso destes anos, além das teorias da comunicação desfiei sociologia do jornalismo, história dos media e análise de públicos e muito mais e autores como Michael Schudson, Nelson Traquina, Paddy Scannell, Michel Foucault, Gilles Deleuze (muito menos) e Harold Adam Innis. Nunca falei de Paul Ricoeur, embora tenha preparado uma aula, adiada por decisão própria, em que ele, Innis e Braudel dialogavam com outros. Mesmo sabendo que estes dois últimos estão fora de moda, o texto está guardado no computador há quase um ano, à espera de ser retomado.

Quando chegava a casa, o perfume das tílias invadia a rua, anunciando junho. E os jacarandás já mostravam as suas flores azuis. A natureza está exuberante.


Felisbela Lopes apresenta livro sobre jornalismo em Lisboa

Foi hoje ao fim da tarde que Carlos Magno, presidente da ERC (à esquerda) apresentou o livro de Felisbela Lopes, docente da Universidade do Minho (ao centro), e com Zita Seabra, responsável pela editora Alêtheia. O livro chama-se Jornalista. Profissão Ameaçada. Começa do seguinte modo: "Os jornalistas vivem hoje sob permanente pressão. Pressão para ser rentável. Pressão para fazer a cobertura de determinado acontecimento. Pressão para ouvir este ou aquele interlocutor".


Em poucas palavras de apresentação, a editora regozijou-se por, no livro, se juntar a academia e os profissionais da coisa. Depois, Carlos Magno, na linguagem simultaneamente jornalística e erudita que o caracteriza, referiu o texto como sendo de leitura não necessariamente linear mas uma obra para ser consultada e revisitada. Para ele, a autora apagou-se face aos inquiridos, deixou falar cem jornalistas, que responderam ao inquérito que está na base do livro e sem se importarem de responder a questões polémicas. O que significa que os profissionais estão à espera de ser desafiados na sua profissão, embora possam ter dificuldade de auto-reflexão. O livro, para Carlos Magno, mostra as pressões económicas, políticas e de mãos invisíveis que marcam a agenda mediática, e contra a qual os jornalistas se devem erguer.

Quer Carlos Magno quer Felisbela Lopes expressaram uma posição semelhante face à atual discussão sobre a legislação sobre a cobertura da campanha eleitoral que se avizinha. Para o primeiro, os diretores dos media devem fazer e conduzir a discussão. E devem defender o espaço editorial. Magno olha o problema de dois ângulos: 1) à profissionalização das fontes de informação corresponde a proletarização dos jornalistas, 2) recuperação do poder do editor como responsável do espaço editorial. Ele frisaria ainda mais dois pontos: 3) criar alternativas à existente agenda mediática, 4) juntar, como no presente livro, a experiência dos jornalistas e a investigação académica.

Este último tópico foi recuperado por Felisbela Lopes, que destacou a disponibilidade dos jornalistas para responderem às suas perguntas. A autora acredita no futuro do jornalismo, apesar de encontrar tensões agravadas (pressões económicas e políticas como o começo do seu livro anuncia). "A pressão de lucro não pode ser cega", num enunciado próximo do manifesto.

[ouvir parte da apresentação de Felisbela Lopes em  https://soundcloud.com/rog-rio-santos-6/felisbela-lopes]

25.5.15

Livro de Felisbela Lopes sobre jornalismo

Na próxima quarta-feira, dia 27 de maio de 2015, pelas 18:30, na livraria Alêtheia, aqui em Lisboa, Felisbela Lopes lança o seu livro Jornalista. Profissão Ameaçada. A apresentação da obra estará a cargo de Carlos Magno, atual presidente do Conselho Regulador da ERC.

Felisbela Lopes é docente na Universidade do Minho.

24.5.15

Umberto Eco e a internet

"Umberto Eco: «No momento em que todos têm direito à palavra na internet, temo-la dada aos idiotas»" (retirado do Diário de Notícias de hoje). Eco é um homem muito velho mas igualmente muito sábio. Ele merece que se faça uma reflexão sobre a frase.

23.5.15

Começar a Acabar, de Beckett, por João Lagarto

O velho estava à espera da morte. Talvez dentro de uma ou duas semanas, no próximo mês ("Em breve estarei morto finalmente apesar de tudo"). Já não veria passar as festas, como a Assunção. É um longo solilóquio de um homem marginal, sem abrigo, ao mesmo tempo que uma espécie de filósofo. A longa vida servira para isso - para olhar a realidade e dar um retrato. Incluindo uma discussão científica. Agora, que esperava a morte, sentia a falta de um amigo para conversar. Ou da mulher, que nunca teve, e, por consequência, dos filhos e dos netos ("Nunca amei ninguém, acho eu, senão lembrava-me"). Podia comentar o que pensava de cada um e aguardar o jantar, num lugar reconhecido pelos outros. Por isso, falou do pai e da mãe, de memórias muito antigas.

Rapidamente nos apercebemos que as relações com eles não foram boas. O pai, que lhe chamava aborto, morreu cedo. À mãe, chamava-lhe Mad (o d servia para distinguir de má). A mãe chamava-lhe Dad, nome que não era o dele, mas talvez lhe lembrasse o seu pai (marido dela). Ela era muito nova quando ele nasceu, pelo que as idades de mãe e filho não eram muito distantes, em especial quando ele já estava a envelhecer. Ele visitava-a e comunicava com ela por código, em especial para obter dinheiro. Ela falava com a dentadura postiça, como se fossem castanholas. Dele, fica-se a saber que andou na escola, onde aprendeu muito, incluindo geometria. Mas não se sabe se e onde trabalhou. Talvez tivesse sido sempre vagabundo. A sua vida de homem isolado levou-o a encontrar jogos e entretenimentos próprios, como o dos dezasseis seixos que ele armazenava nos seus quatro bolsos. Como chupar cada um deles sem saber que já o tinha chupado antes dos restantes?

Em jovem, gostava de andar na rua, recordando que deixava a mãe à janela. A parede era cinzenta, o friso da janela era verde e a mãe, à medida que se afastava de casa, era um ponto delgado branco a acenar com a mão. Ele detestava a cor branca. Até sonhava com animais de cor branca, o que aumentava a sua fúria. Naqueles tempos em que ele esperava morrer, uma tarefa muito lenta, ele queria ter menos fúrias e estar calmo. O que era difícil. A apreciação que o velho faz de si não é agradável. Há um momento em que o velho se reconcilia com a vida, ao dizer que não se arrependia de nada do que fizera na vida.

Beckett não fez um retrato feliz da humanidade. E João Lagarto representou muito convincente no papel da personagem. Um sobretudo roto e cheio de pó, o cabelo despenteado, com tosse frequente, algumas imprecações de permeio, uma queda no chão mas o retomar da energia, os passos lentos, a voz por vezes forte e por vezes mais íntima e próxima dos espectadores. Seria no novo Teatro do Bolhão (Porto), agora tornado centro por excelência da cultura da cidade, que João Lagarto representa Começar a Acabar, monólogo escrito por Samuel Beckett para o amigo Jack MacGowran. Na estreia, teriam sido convidados os mendigos de Dublin para assistir. João Lagarto, que estreou em 2006 no Teatro Nacional D. Maria II, que eu não assistira, voltou à peça.

À Espera de Godot e Ah, os Dias Felizes são as peças mais conhecidas do autor irlandês que viveu uma parte significativa da sua vida em Paris. Da atual peça, que começou por ser a agregação de textos fragmentárias de Beckett, pode ver-se um curto vídeo aqui.

22.5.15

Museu Nogueira da Silva (Braga)


Jorge Barradas tem diversas obras no museu António Nogueira da Silva (Braga). Dono da Casa da Sorte, negócio de venda de lotarias iniciada em Braga e alargada a todo o país, Nogueira da Silva (1901-1976) começou a investir em arte, cujo espólio se vê no museu. Filantropo, ficou o bairro com o seu nome e a escola, a conclusão a igreja dos Congregados, o apoio à Universidade Católica e o legado da Casa da Sorte aos seus funcionários são marcas da sua ação. Por ocasião da sua morte, a casa e toda a coleção de arte passou para a universidade do Minho. Nogueira da Silva era amigo de Salazar, que pernoitaria naquela casa quando se deslocava a Braga. No seu escritório, são evidentes as obras do homem do Estado Novo.

Mobiliário, tapeçaria, pintura, louça, faiança e alfaias religiosas são áreas que se encontram no museu. Não há propriamente uma linha cultural específica na aquisição de obras por parte de Nogueira da Silva, mas é relevante o conjunto. Acresce-se o jardim decorado e com um mural de Jorge Barradas.


Esta semana, Braga comemora a sua origem romana, o que traz muita alegria à cidade no seu perímetro histórico.

21.5.15

Tran-missão

A palavra transmissão está contaminada pela teoria matemática da comunicação de Shanon e Weaver, que procuraram resolver problemas de ruído e qualidade de som nas ligações telefónicas. A peça do grupo Visões Úteis (Ana Vitorino, Carlos Costa e João Martins), agora no Rivoli (Porto) tem pormenores interessantes, como o uso de alguns adereços. A personagem Carlos diz tratar-se ainda de um ensaio, em busca de melhorar as linhas da peça. As parcerias do projeto agora no palco revelam pormenores ricos, como a recolha de frases ditas por populares nos autocarros da cidade, efetuada por alunos de Sociologia da Universidade do Porto. A importância de refletir sobre a identidade nacional, tipo "não participamos, pois não podemos alterar nada", porque "eles controlam tudo", culpando esses "eles", encolhendo sistematicamente os ombros e aceitando submissos a realidade social atual.


Mas o texto ainda não é eficaz, nomeadamente no terceiro ato, quando os atores se envolvem numa discussão sobre manter sobre a mesa ou deitar fora os livros (a teoria) e sobre Ho-Chi-Min - poeta ou revolucionário. A ideia de acordar os cidadãos para uma alteração social discute-se entre dois planos - os revolucionários e os reformistas, uma retoma do tema ensaiado vezes sem conta nos últimos cem anos. Não creio ser útil a discussão sobre pontos de vista antagónicos, porque o mundo é muito mais complexo (a minha crítica situa-se dentro do espírito de criação colaborativa, como os atores não cessam de dizer na peça). Há outras questões: uma ópera só com uma personagem? Como morreu a criança que tinha ideias muito maduras e que a personagem da peça ouvia de cada vez que voltava a casa e o obrigava a pensar?

Num momento, quando João, usando uma mensagem mais radical do que Carlos, fala num bomba e na necessidade de a fazer explodir, para mudar alguma coisa, o que leva aquele a afastar-se do palco, lembrei-me da peça A Casa de Ramallah, de António Tarantino, que vi em 2014 no teatro dos Artistas Unidos (Lisboa). O texto tinha qualidade literária, duro mas belo. Mesmo o texto de Zeferino Mota, A Revolução, que vi o mês passado no Teatro do Bolhão (Porto), garantia uma maior atração em termos de imagem. Aqui assume um papel mais panfletário, brechtiano sem ser Brecht.


19.5.15

Museu Nacional Ferroviário

Inaugurou ontem no Entroncamento o projeto expositivo coletivo coordenado pela P28 com a participação de Paulo Mendes, Pedro Cabral Santo, Sandro Resende e Susana Anágua. Trabalho Património Social em Manutenção Permanente Século XX – 2015. Impressão em lona de uma imagem composta a partir de uma fotografia original de António Pedro Ferreira de 1982 (fonte: www.paulomendes.org).



18.5.15

Aldeias históricas

António Ferro criou um concurso da aldeia mais portuguesa de Portugal, em 1938, ganhando Monsanto. A ideia era desenvolver nos portugueses o culto pela tradição. Margarida Acciaiuoli, no seu livro sobre António Ferro. A Vertigem da Palavra (2013: 215) indica que as condições para o concurso implicavam "a conservação das suas características na habitação, no mobiliário e alfaias domésticas, no trajo, nas artes e nas indústrias populares, nas formas de comércio", na preservação da poesia, dos contos, da música, do teatro e das festas. Monsanto venceu, sem unanimidade, face a Orada, Alte e Azinhaga, no Alentejo. Continua Acciaiuoli (2013: 216): "A surpresa de alguns manifesta-se, a iniciativa é criticada, e António Ferro apressa-se então a elucidar os objetivos que tinham presidido a essa sua realização".

Ferro, o intelectual orgânico do Estado Novo, apresentaria Monsanto como "a imagem empolgante da nossa pobreza honrada e limpa" (Acciaiuoli, 2013: 217). O concurso não se repetiu e ficou na memória psicológica a ideia da aldeia mais portuguesa de Portugal aplicada aquela aldeia de Idanha-a-Nova. Hoje, ela faz parte do lote de aldeias históricas, algumas recuperadas recentemente como Castelo Novo (Fundão), parcialmente na segunda fotografia.

 

17.5.15

Rio Tejo


Vila Velha de Ródão, ao sul do distrito de Castelo Branco.

Notícias do CIMJ



Ontem, na minha caixa de correio, vi esta imagem e um comentário sobre o fim do CIMJ (Centro de Investigação Media e Jornalismo), instituição fundada em finais de 1997 por Nelson Traquina e outros investigadores de ciências da comunicação e do jornalismo. Depois, veio uma mensagem mais tranquila. O CIMJ acabou enquanto modelo autónomo como existia no começo mas associou-se a outras unidades das universidades (Nova de Lisboa, Porto, Aveiro, Lusófona), formando um centro de maior massa crítica em termos de investigadores. O CIMJ, que dá o nome a uma linha de investigação no seio desse consórcio, tem três projetos em curso até final do ano e seis outros aguardam resultado do recente concurso da FCT.

Atualização (19.5.2015). Registo aqui um dos comentários no Facebook, escrito por Teresa Mendes Flores, sobre a nova vida do CIMJ: "Eu não sou fundadora, mas foi com muito orgulho que participei neste centro com uma dinâmica tão especial, com um espírito aberto e colegial, integrador das pessoas - sem olhar a hierarquias e proveniências - e a olhar para as mais valias que cada um e cada uma pudessem trazer. Sonho que se consiga continuar este espírito no novo centro".

16.5.15

Troya Naos no Fundão


Para a companhia EOS Theatron, Troya Naos é "uma revisão contemporânea dessa epopeia vista pelos olhos de quem mais a sofreu, as esposas, as filhas, as mães. Uma montagem de dança e teatro que pretende ser um apelo da vida contra a ausência de razão e a loucura da destruição, da morte". Na realidade, a peça articula de um modo singular a representação, a dança, a luz e a música, um espetáculo quase total. Os adereços teem uma importância vital na representação: a estrutura metálica é casa, prisão, navio, ponto alto onde se fala e escuta, porta de entrada e saída, escada; os panos servem para vestir, vela de navio, esconderijo, simples elemento estético a voar no espaço. O único reparo foi a colocação da voz de alguns dos atores, em palco que não tiveram tempo de conhecer e com representação em castelhano.

Dirigida por Maru Bernal, a peça de Eurípides agora exibida no Fundão contou com os atores Cesar Marañón (Ulisses), María Rodríguez (Briseida), Adrián Moreno (Heitor), Hugo Villegas (Aquiles), María Canel (Penélope), Carlota Díaz (Andrómaca), Sonia Rábago (Andrómaca), Ana Fernández (Climnestra) e Maru Bernal (Helena). A companhia tem sede em Cabezón de la Sal, na comunidade autónoma de Cantabria (Espanha).

Ver a apresentação da peça aqui.

15.5.15

Concerto coral sinfónico na Covilhã

Foi hoje à noite, na igreja de S. Tiago, que o Coro do Orfeão da Covilhã, a fazer 90 anos de atividade, e a Orquestra Sinfónica da Escola Profissional de Artes da Covilhã cantaram e tocaram Händel, Bortniansky, Morricone, Fauré, Mozart, Vivaldi, Schubert e Verdi. A direção musical do coro cabe a Paulo Serra e a direção musical da orquestra cabe a Rogério Peixinho.

14.5.15

Cultura pública em Castelo Branco

O Museu Cargaleiro, nome do popular artista plástico, em Castelo Branco, é constituído por dois edifícios próximos. Um, o Solar dos Cavaleiros, palacete do séc.XVIII, outro, um edifício contemporâneo, muito perto da Praça de Camões, mais conhecida como Praça Velha. Além de louças utilitárias do século XIX oriundas da zona de Sevilha e dos trabalhadores sazonais oriundos da Beira Baixa, que se deslocavam para o Alentejo com roupas e utensílios domésticos, os ratinhos, o mais importante da coleção do museu são as obras do mestre Cargaleiro e peças contemporâneas de cerâmica, feitas por artistas internacionais, numa soma de bom gosto e qualidade.

 
O Centro Cultural de Castelo Branco, equipamento cultural inaugurado em 2013, está em edifício da autoria do arquiteto catalão Josep Lluis Mateo, numa colaboração com o arquitcto português Carlos Reis de Figueiredo. Fica no Campo Mártires da Pátria, no centro da cidade, perto do Cine-Teatro Avenida e da Biblioteca Municipal. Possui um excelente auditório e tem exposições temporárias. A atual chama-se Everywhere is the same sky - Uma perspetiva de paisagem na coleção Norlinda e José Lima, com 50 artistas nacionais e estrangeiros: pintura a óleo, desenho, fotografia, vídeo, técnicas mistas.
 


13.5.15

Os Mata-Ratos e o punk

No Diário de Lisboa de 31 de dezembro de 1984, era publicado um texto assinado por Rui Eduardo Paes sobre o punk e um festival musical em finais desse ano. O autor carregou forte nas palavras: "A assistência, um «naipe» de cristas ou cabelos ouriçados, com sebo, blusões pregados, jeans rasgadas, cervejas e escarros. Móbil da ocasião: acusar a hipocrisia presente na atual quadra festiva em que uns engolem o bacalhau e as filhoses lamentando entre garfadas ou trincadelas a miséria dos que têm salários em atraso ou já nem sequer têm emprego". Os punks, para Rui Eduardo Paes, estavam já enredados na apologia da destruição de tudo, da afirmação pela negativa".

O texto do Lisboa veio à baila após a leitura do livro de Paulo Lemos, Vida Suburbana, este ano editado pela Associação Cultural Burra de Milho. O livro, como já aqui escrevi, resultante da sua tese de mestrado na Universidade de Coimbra, trabalha o movimento punk (contexto da música popular urbana, semelhança de ideais políticos com o surrealismo, grafismo, fanzines e elementos e símbolos de identificação do movimento), enquadramento histórico desde a década de 1970 e sub-estilos, movimento punk em Portugal e caso dos Mata-Ratos. Durante anos, Paulo Lemos fez parte da banda punk açoriana Resposta Simples.

Como declaração inicial, eu não gosto da sonoridade dos Mata-Ratos, mas estou atento às mensagens contidas nas letras cantadas por Miguel Newton, aliás, co-orientador da tese de Paulo Lemos, e com um interessante prefácio no livro. A tese contou ainda com a orientação de Paulo Estudante. Embora o movimento punk tenha diversas raízes musicais na sua origem, ele soube desenvolver a sua própria identidade (p. 129), com os seus elementos e fãs a serem vistos como desestabilizadores sociais, visto no recorte de jornal acima, e que os conduziu a uma subcultura com um comportamento próprio. O autor identifica bandas como Crise Total, Kú de Judas, Mata-Ratos, Grito Final (todas de Lisboa), Cães Vadios (Porto), Bastardos do Cardeal (Viseu) e Cagalhões (Aveiro), com concertos em pequenos espaços e circuitos especiais.

Os media tiveram importância na promoção do punk, em especial em programas de rádio de António Sérgio e Luís Filipe Barros (p. 131). Se na década de 1980, as bandas divulgaram o seu trabalho através de auto-promoção dos espetáculos musicais e gravações em maqueta, na década seguinte surgiram editoras independentes e que possibilitaram a consolidação desta tribo na cena musical e cultural do país.

Leitura: Paulo Lemos (2015). Vida Suburbana. Terceira: Associação Cultural Burra de Milho, 148 páginas, 7,42 euros

12.5.15

O punk pelas suas próprias palavras

As Palavras do Punk. Uma Viagem Fora dos Trilhos pelo Portugal Contemporâneo, de Augusto Santos Silva e Paula Guerra, é um guia da música e da expressão do punk. Dividido em três partes (primeiras palavras, palavras seguintes, últimas palavras) e 16 capítulos, o livro insere-se na investigação KISMIF (Keep it simple, make it fast), que engloba investigadores das Faculdades de Economia e de Letras da Universidade do Porto, em parceria com duas outras universidades (Griffith e Lleida).

Os autores começam por identificar o punk como uma forma musical, entroncada no grande universo do rock'n'roll, a partir da segunda metade da década de 1970 (p. 7). Inovação, dissidência e lógica do faça você mesmo (do it yourself) são marcas iniciais apontadas pelos dois sociólogos, num livro baseado na análise das letras das músicas das bandas portuguesas e nas entrevistas a protagonistas no activo ou já retirados, num total de 214, buscando saber o que querem dizer os punks (discursos dos actores e das suas criações). A investigação em curso identificou já 788 bandas, 1429 registos e 177 edições de fanzines (p. 26). Logo, três abordagens: documental, recolha de testemunhos, observação de contextos (editoras, espaços de concerto, referências nos media, escolas e bairros, numa observação da cena punk nacional).

As primeiras bandas seriam Faíscas, Aqui d'el-Rock, Minas & Armadilhas, Xutos & Pontapés, UHF e Raios e Coriscos, a que se seguiriam, já no começo da década de 1980, Mata-Ratos, Kú de Judas, Grito Final e Crise Total. Uma banda marcante do punk nacional seria a dos Censurados, com a figura de João Ribas, já desaparecido. Um radialista muito importante na divulgação dos sons do punk foi António Sérgio (Rádio Comercial).

Se o punk é um passo na evolução do rock, enquanto condição histórica na linha de desconstrução da cultura urbana (p. 219), ele tornou-se um paradigma produtivo e organizacional (p. 221), com destaque para ocupações de casas e acções de provocação, uma conformação de campo, com traços plurais e diversificados (p. 222), e a convergência para um padrão de avaliação e posicionamento no tempo social.

O livro é muito mais do que isto e eu não pretendo fazer aqui uma recensão crítica mas tão só dar conhecimento da edição de um livro bem escrito, com muito material empírico e uma análise séria.

Leitura: Augusto Santos Silva e Paula Guerra (2015). As Palavras do Punk. Uma Viagem Fora dos Trilhos pelo Portugal Contemporâneo. Lisboa: Alêtheia Editores, 259 p., 16,50 euros

10.5.15

Novos dirigentes da SOCOM

Ontem, foi eleita a nova equipa directiva da SOPCOM. Os sócios presentes na Assembleia Geral votaram unanimemente na lista apresentada por Paulo Serra, professor catedrático da Universidade da Beira Interior (informação veiculada pela própria SOPCOM). Assembleia Geral: Presidente: Tito Cardoso e Cunha [Universidade da Beira Interior] Vice-presidente: Gustavo Cardoso [ISCTE] Secretário: Jorge Veríssimo [Escola Superior de Comunicação Social] Direcção: Presidente: Joaquim Paulo Serra [Universidade da Beira Interior] Vice-Presidente: Madalena Oliveira [Universidade do Minho] Vice-Presidente: José Gomes Pinto [Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias de Lisboa] Secretária-Geral: Gisela Gonçalves [Universidade da Beira Interior] Tesoureiro: Nuno Moutinho [Universidade do Porto] Vogal: Carlos Camponez [Universidade de Coimbra] Vogal: Filipa Subtil [Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa] Conselho Fiscal: Presidente: Jorge Pedro Sousa [Universidade Fernando Pessoa] Vice-Presidente: Rogério Santos [Universidade Católica Portuguesa] Secretária: Fernanda Ribeiro [Universidade do Porto]

9.5.15

O jornalismo actual em Nelson Traquina

Em 1993, Nelson Traquina, o mais conceituado professor de jornalismo em Portugal, lançava a sua obra-prima Jornalismo: Questões, Teorias e "Estórias", uma antologia de textos que deram a conhecer aos seus alunos a pujante investigação norte-americana, nomeadamente a sociologia do jornalismo.

Agora, com data de finais de 2014, ele volta a editar um livro com textos de investigadores consagrados norte-americanos, embora sem a novidade do livro inicial do professor: Questões Críticas do Jornalismo Contemporâneo. Os Papéis Pulverizados do Capitalismo.

Além da introdução, escrita pelo organizador, o volume tem textos de William Gamson e Andre Modigliani, Nelson Traquina, Thomas Hanitzsch e colegas, Brian McNair, Thomas Patterson, Maria João Silveirinha, Sonia Serra, Steven Livingston e Lance Bennett, e Rui Miguel Gomes.Na contracapa do volume, apresenta-se o levantamento dos temas presentes no livro: cobertura jornalísticas de temas globais, como a energia nuclear, enquadramentos e representações de grupos sociais, como mulheres, tendências contemporâneas do jornalismo e impactos na vida pública e cívica, como o aumento da tabloidização, e avaliação sobre as narrativas jornalísticas, caso do uso crescente de acontecimentos presentes ao vivo.

Na introdução, Nelson Traquina, que dedica o livro à nova geração de jornalistas, questiona o jornalismo sobre o hipotético fim da importância da reportagem, a perda do poder de selecção, construção e saliência dos profissionais quando olham o acontecimento e reflectem sobre se ele se torna ou não notícia. Os jornalistas também mudaram, conclui o antigo professor de Jornalismo e de Teoria da Notícia da Universidade Nova de Lisboa. A chegada de mulheres, de licenciados de várias origens (economia, história, ciência política), além da consolidação da democracia em Portugal, foram elementos fulcrais nessa transformação. Um outro texto da colecção inserida no livro identifica o relevo da tecnologia na construção da notícia, embora a conclusão não indique uma relação directa.

Leitura: Nelson Traquina (2014). Questões Críticas do Jornalismo Contemporâneo. Os Papéis Pulverizados do Capitalismo. Lisboa: Aletheia, 379 páginas, 16 euros


7.5.15

32 nomes para o Panteão de Jornalistas

Uma notícia inserida no Expresso, a propósito da biografia do jornalista agora desaparecido, Oscar Mascarenhas, indica que ele e mais outros jornalistas (Adelino Gomes, Alexandre Manuel e Luís Paixão Martins) estavam a planear uma proposta com 32 nomes para o futuro Panteão de jornalistas, com algumas anotações feitas por ele:

Adolfo Simões Müller (jornalismo didático), António Paulouro (jornalismo regional), Artur Agostinho, Augusto de Castro (direcção e editorialismo), Camilo Castelo Branco (folhetinismo), Cândido de Oliveira (jornalismo desportivo), Carlos Pinhão, Carlos Pinto Coelho (jornalismo cultural televisivo), Eça de Queiroz (crónica de viagem), Eduardo Coelho (pioneiro do noticiarismo e novas tecnologias), Fernando Assis Pacheco, Fernando Pessa (jornalismo radiofónico e televisivo), Fialho de Almeida (jornalismo de crítica de costumes), Joshua Benoliel (fotografia), Leitão de Barros (jornalismo da nota do dia, Os Corvos), Manuel António Pina, Maria Lamas (jornalismo no feminino), Mário Castrim (jornalismo para jovens e pioneiro da crítica de televisão), Mons. Moreira das Neves (jornalismo religioso), Norberto de Araújo (olisipógrafo), Norberto Lopes (repórter de guerra e entrevistador), Rafael Bordalo Pinheiro (caricaturista), Ramalho Ortigão (polemista), Raul Proença (fundador da Seara Nova e criador do Guia de Portugal), Raul Rego (jornalismo oposicionista), Reynaldo Ferreira (Repórter X), Roby Amorim (jornalismo enciclopédico), Rodrigues Sampaio (jornalismo político), Sousa Veloso (jornalismo televisivo de divulgação da agricultura), Stuart Carvalhais (cartoon), Vera Lagoa e Vítor Direito (jornalismo popular).

As revistas de informação segundo Carla Cardoso

Foi hoje à tarde que a Carla Cardoso, responsável da licenciatura em Comunicação e Jornalismo na Universidade Lusófona desde 2013, defendeu a sua tese de doutoramento intitulada A Newsmagazine em Portugal: 70 anos até à consolidação do conceito. A prova decorreu na Universidade Nova de Lisboa, onde ela já defendera a tese de mestrado em 2006, como aqui referi na altura.

A tese debruça-se sobre o segmento da newsmagazine, como hoje a entendemos, nascida em 1923 nos Estados Unidos, com a Time. O objecto de investigação empírica foi a análise das revistas portuguesas no longo período de 1967 a 2014, num total de 15 publicações, de que destacou a Visão e a Sábado, mas  também Vida Mundial, Observador, Opção, Grande Reportagem, Focus e outras. Em trabalho muito minucioso, Carla Cardoso olhou as capas e os títulos e temas de edições número 0 e 1, além de números especiais (aniversários, por exemplo). Do trabalho, fica um acervo muito importante deste tipo de publicações, esperando-se agora a sua divulgação para além do circuito académico.

Do que eu disse, destaquei o texto limpo, claro e agradável, apesar da dimensão (626 páginas), o ponto 1.7 onde escreveu sobre jornalismo de revista e criou uma nova palavra - jorvista - que caracteriza o cruzamento de jornal e revista.


Na foto, da esquerda para a direita: Rui Francisco Cádima, Rogério Santos, Cristina Ponte (a orientadora), Carla Cardoso (a nova doutora), Jorge Pedro Sousa, Estrela Serrano e Carla Baptista.

5.5.15

Livro de Gonçalo Pereira




Dia 14 de Maio, pelas 18:30, na Casa da Imprensa (Lisboa), vai ser lançado o livro Parem as Máquinas! de Gonçalo Pereira Rosa. Um livro das Edições Parcifal, apresentado por João Paulo Cotrim. 

Actualização às 21:50 (incluindo vídeo de pequena entrevista que fiz ao autor hoje à tarde): Escreveu António Granado no Facebook: "Recebi-o das mãos do Gonçalo Pereira Rosa há apenas duas horas e já li umas sete ou oito estórias, absolutamente deliciosas, do jornalismo português do século passado. A reunião do Conselho da Revolução, que Nuno Rocha noticiou n'O Tempo com todos os pormenores, mesmo antes de ela ter acontecido, é um episódio que inscreveu definitivamente essa personagem na história (universal) da infâmia do jornalismo português. A não perder".

Actualização em 7 de Maio de 2015 (21:30), com texto editado na revista Sábado (a partir do sítio de ecosferaportuguesa, de Gonçalo Pereira).

 

4.5.15

Recepção dos media pelo género feminino

O livro organizado por José Ricardo Carvalheiro, As Caixas Mudaram o Mundo? Usos Femininos dos Media no Estado Novo, resulta da investigação inserida num projecto da Universidade da Beira Interior financiado pela FCT. Objectivo: saber os consumos dos media e a sua recepção pelo género feminino a partir da década de 1940, ou, como o livro diz mais acertadamente: "trabalhar com memórias acerca da recepção mediática na ditadura" (p. 10).

O meu ponto de descoberta foi o texto do organizador do livro "História oral, memória e recepção mediática". Nele, o autor procura "reconstituir e compreender o passado" (p. 45), o que o leva a captar as práticas e os contextos de uso dos media e os compreender na dimensão diacrónica (histórica). No texto, também se fala de memória e identidade, biografias e apreensão da recepção no passado e da interpretação dos textos às práticas significativas. Como corpo de observação empírica, a equipa de investigação conduziu 57 entrevistas a mulheres nascidas antes da Segunda Guerra Mundial e o início das emissões de televisão (1939-1957) em associações na Covilhã e em Coimbra em núcleos fabris e de serviços das duas cidades (p. 134). A partir das entrevistas, a equipa procurou reconstituir histórias de vida. Aqui, reside a riqueza da investigação agora publicada e que, além de José Ricardo Carvalheiro, inclui os nomes de João Carlos Correia, Maria João Silveirinha, Sara Portovedo, Diana Tomás e Catarina Valdigem.

Um dos outros capítulos que gostei de ler foi o dedicado às narrativas de vida de quatro lisboetas sobre a recepção da rádio, igualmente escrito pelo organizador do volume. Carvalheiro destaca as estruturas de relevância e as práticas criativas de recepção (p. 160). O livro insere-se na colecção "Comunicação, História e Memória", da MinervaCoimbra, dirigida por Isabel Vargues. Da colecção, já fiz aqui comentários do livro de Carolina Ferreira Os Media na Guerra Colonial.

Leitura: José Ricardo Carvalheiro (2014). As Caixas Mudaram o Mundo? Usos Femininos dos Media no Estado Novo. Coimbra: MinervaCoimbra, 284 páginas, 21 euros

2.5.15

A rádio em 1985

A capa reproduz um altifalante de excitação directa em leque Gaumont. O livro 60 Anos de Rádio em Portugal foi publicado em 1986 pela RDP (rádio pública) e pela editora Vega e reproduz as comunicações realizadas no colóquio sob aquele nome, nos dias 23 e 24 de Maio de 1985, no Fórum Picoas, em Lisboa. À época, actuais e antigos dirigentes da rádio (como Maria da Paz Barros Santos e José Manuel Nunes), profissionais destacados (como Fernando Curado Ribeiro e Fernando Serejo), novos protagonistas (como Emídio Rangel), especialistas em audiências e publicidade (como Rui Dias José e João David Nunes), professores de comunicação (como Adriano Duarte Rodrigues) passaram esses dias a falar de rádio.

Um dos textos que melhor fixei foi o de José Manuel Nunes. Ele falou de recursos humanos (a partir de estudo feito por Ana Paula Ferreira e Maria Leonor Nunes). Então, a rádio pública tinha 22 categorias profissionais, como realizadores, assistentes de realização, locutores, animadores de emissão, jornalistas, sonorizadores, assistentes musicais, assistentes literários e arquivistas musicais. Do conjunto dos trabalhadores da rádio, ele extraiu 570 produtores do discurso radiofónico, dos quais 348 se situavam na faixa etária entre 35 e 50 anos, mas poucos abaixo dos 30 anos. Ao contrário, havia uma forte juvenilização e predominância masculina nos jornalistas. 28,1% dos produtores de discurso possuíam o antigo 7º ano do liceu, 23,2% o antigo 5º ano e 10,3% o ensino básico. Apenas 7,8% tinha licenciatura. O então director de Programas colocou uma questão premente na época, a do ingresso de muitos funcionários em 1976, quando se formou a RDP, e 1980, ano de eleições.

A síntese final (pp. 233-238) apontou 11 pontos principais dos trabalhos do colóquio: 1) conceitos e ideias, 2) rádio-teatro, 3) rádio nova/rádio velha, 4) rádio e juventude, 5) pesquisa de audiência, 6) regionalização da rádio, 7) publicidade, 8) recursos humanos, 9) informação, 10) emissões em onda curta, e 11) planeamento e gestão.