Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência mantida desde 2003.

30.10.13

A Guerra dos Mundos 75 anos depois

Na noite de domingo 30 de outubro de 1938, na véspera do dia das bruxas nos Estados Unidos (halloween) a rede de rádio CBS transmitia o programa Mercury Theater. Um jovem e talentoso ator, Orson Welles, escolhera para aquela semana o romance de ficção científica A Guerra dos Mundos, escrita no final do século XIX pelo inglês H. G. Wells. A época era excecional: na Europa estava quase a iniciar-se um gravíssimo conflito: a Segunda Guerra Mundial. Os ânimos estavam exaltados. Na audição da peça um em cada cinco ouvintes não notara que era uma obra de ficção. Parte considerável dos ouvintes acreditaram que a Terra estava mesmo a ser invadida por marcianos. O pânico provocou acidentes em série. Além de tudo, o programa aparentava ser normal – com música transmitida de um concerto de dança interrompido bruscamente por uma notícia de última hora (adaptado da introdução de Eduardo Meditsch ao livro Rádio e Pânico 2).

Depois, a 25 de junho de 1958, um jovem locutor e realizador da Rádio Renascença, José Matos Maia, em Lisboa, levava a cabo uma emissão intitulada "A Invasão dos Marcianos". Agora, os extra-terrestres não aterravam em New Jersey, perto de Nova Iorque, mas aqui ao lado, em Carcavelos. O mesmo pânico (mas também a mesma curiosidade) que vinte anos antes nos Estados Unidos. Os telefones das esquadras da polícia ficaram entupidos com solicitações dos ouvintes. A polícia foi à Rádio Renascença e o programa não chegou ao fim. Depois, Matos Maia era interrogado na polícia política (PIDE). O polícia que falou com ele estava bem informado sobre o pânico gerado pela peça de Orson Welles e perguntou se Matos Maia não sabia que ia provocar semelhante situação. À despedida, disse-lhe: “desta vez, sai pela porta fora. Da próxima, já não sai daqui”.

Em homenagem aos 75 anos da emissão certamente mais famosa da rádio enquanto meio de comunicação, os grupos dos meus alunos de Edição Multimédia fizeram podcasts das duas peças, em excertos, em página do Facebook. Eles não se ouvem sequencialmente, mas a ideia era experimentar, encontrar sons e homenagear esses homens e as suas ideias. É também uma homenagem aos alunos.

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29.10.13

Os dez anos do LabCom

digitalComunicação Digital. 10 Anos de Investigação, livro organizado por António Fidalgo e João Canavilhas, é o volume mais recente da colecção Comunicação da editora MinervaCoimbra. O livro apresenta o trabalho do LabCom, Laboratório de Comunicação Online, centro de pesquisa de Ciências da Comunicação da Universidade da Beira Interior, na Covilhã, criado em 2002. Antes do LabCom, a equipa fundadora já tinha a experiência de uma biblioteca, a BOCC (Biblioteca Online de Ciências da Comunicação), lançada em 1999, o jornal Urbi et Orbi (2000), a revista Recensio (2001) e a investigação no projeto Akademia, financiado pela FCT.

O objectivo geral do LabCom é "a pesquisa sobre o estado das novas tecnologias de comunicação, especialmente aquelas envolvidas nos processos de comunicação online, para avaliar [o] seu impacto na vida quotidiana e os diferentes tipos de fenómenos resultantes da comunicação" (p. 11). Os textos incluídos no livro resultam de trabalhos feitos no LabCom, com a grande maioria dos seus autores oriundos da própria universidade da Covilhã como docentes ou investigadores.

Design, jornalismo nos tablets, ecrãs e dispositivos móveis, Facebook, comunicação estratégica e webdocumentário são algumas das ideias traduzidas em capítulos de 15 a 20 páginas cada. Por razões de interesse pessoal, mas sem qualquer valorização face aos outros, destaco os capítulos escritos por João Canavilhas e Ivan Satuf (Jornalismo em Transição: do Papel para o Tablet) e António Fidalgo e Catarina Moura (O Design e a Fabricação da Experiência). Neste último, acrescento a elegância da escrita e das referências bibliográficas (Vilém Flusser, Jean Baudrillard, Umberto Eco, Walter Benjamin, José Bragança de Miranda, Roland Barthes, Lev Manovich, Marshall McLuhan). Seguindo Manovich, pensamento aplicado à arquitectura e ao urbanismo, os autores consideram que o espaço navegável (multimédia) se torna uma espécie de medium que pode ser guardado, formatado, comprimido, recuperado e programado como o texto, o áudio e a imagem (p. 29).

Leitura: António Fidalgo e João Canavilhas (org.) (2013). Comunicação Digital. 10 Anos de Investigação, Coimbra: MinervaCoimbra, 209 p., 17€.

28.10.13

Congresso sobre censura ao cinema e ao teatro

O Congresso Internacional Censura ao Cinema e ao Teatro, a decorrer nos dias 13 a 15 de Novembro no Edifício I&D, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tem já o programa fechado, conforme informação abaixo.

22.10.13

História da comunicação e humor em congresso

No segundo dia do congresso de História da Comunicação, entre outras comunicações, Xosé Lopéz Garcia falou sobre o humor galego Enchufados, com páginas pessoais de humoristas que produzem cartoons (vinhetas) pessoais, embora poucos tenham hipermediação.

No final do congresso, foi aprovada a constituição de uma associação internacional de historiadores de imprensa e comunicação, ficando como presidente Antonio Laguna.

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21.10.13

El humor en la historia de la comunicación

Na conferência inicial, Josep María Casasús falou sobre como o humor jornalístico intervém na história. Ele apresentou dois registos, um em 1905 num jornal satírico de Barcelona e outro em 2005 num jornal dinamarquês. O professor de Barcelona consideraria que o humor funciona como arma de efeitos ideológicos e emocionais, a partir de contradições irónicas, culturais e éticas, podendo modificar ou reorientar a estrutura dos acontecimentos.

Nas sessões seguintes, registo as intervenções de Jorge Pedro Sousa sobre a ideia de identidade nacional em publicações do século XVIII e de Ana Cabrera sobre jornalismo, infotainment e democracia.

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19.10.13

O provedor do ouvinte no Brasil

ouvidoriaFoi agora lançado o livro Comunicação Pública em Rede: Ouvidoria e Rádio, organizado por Fernando Paulino e Luiz Martins da Silva. Da introdução, retiro a seguinte frase: "O ombudsman surgiu como instância mediadora de demandas dos cidadãos. Com o passar do tempo, a instituição se disseminou e, além de iniciativas existentes no âmbito da administração pública, diversas organizações também começaram a utilizar o canal, dentre elas, veículos de comunicação" [ver abaixo texto completo].

O livro resulta da parceria criada entre a Ouvidoria da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e a Universidade de Brasília, de que resultou o programa Rádio em Debate, onde desde 2010 já foram produzidas mais de 250 edições de programas semanais, produzidos e difundidos por jovens universitários sob a coordenação do professor Fernando Paulino, exactamente um dos organizadores do volume e cujo depoimento em vídeo se pode ver abaixo. O ponto de partida são as manifestações dos ouvintes, que levam à criação de uma grelha cujos conteúdos procuram explicar as questões colocadas. O livro divide-se em quatro partes: entrevistas com elementos que estiveram desde o começo ou entraram na EBC, práticas na ouvidoria da EBC, depoimentos e outras práticas de ouvidoria. Registo um dos capítulos, sobre a experiência dos provedores do ouvinte em Portugal e em Espanha, a cargo de Madalena Oliveira, recém-eleita coordenadora do grupo de trabalho de Rádio e Meios Sonoros da SOPCOM.

18.10.13

A rádio em novo grupo de trabalho da SOPCOM

Foi hoje à tarde constituído o grupo de trabalho Rádio e Meios Sonoros da SOPCOM (Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação), sendo eleita coordenadora Madalena Oliveira (Universidade do Minho). rádio SOPCOM

Das actividades projectadas pelo novo grupo, destaque para a celebração do dia mundial da rádio (13 de Fevereiro), criação de colecção de livros com contributos dos investigadores de rádio, organização de seminário nos anos intercalares do congresso nacional da SOPCOM, educação para o meio rádio, candidaturas nacionais ou internacionais a projectos colectivos e criação de redes de cooperação com outros investigadores e grupos internacionais. O grupo tem constituintes portugueses, brasileiros e espanhóis. Saúdo a coordenadora e todos os elementos do grupo, augurando um excelente trabalho em torno deste meio fantástico que é a rádio.

10.10.13

Sílvio Santos publica livro sobre o Serviço Público de Rádio

Com a chancela da Imprensa da Universidade de Coimbra, Sílvio Correia Santos fez sair Da Rádio Estatal ao Modelo Integrado. O texto, que parte da tese de doutoramento do autor, divide-se em três grandes capítulos - Emissora Nacional, Radiodifusão Portuguesa (RDP) e Rádio e Televisão de Portugal -, com um olhar preferencialmente histórico a mais de oito décadas de vida da rádio de Estado portuguesa (ver vídeo abaixo).

Trabalho muito equilibrado e com um distanciamento sobre as orientações seguidas ao longo de todo o período, que aprecio, o capítulo 2 é o que mais novidades traz para a história deste importante meio. A revolução de 1974 cortou o serviço público - melhor, marcou-o. Até então, a rádio estava muito vinculada ao poder político que a instituiu. Depois, a empresa seguiu um outro rumo, com a nacionalização e a integração do património de rádios privadas como o Rádio Clube Português e os Emissores Associados de Lisboa. Seguindo tal contexto, Sílvio Santos escreve sobre a difícil gestão da rádio pública, o saneamento económico, as ideias de descentralização e a regionalização da RDP, a desregulamentação, o fim das orquestras da rádio pública, a venda da Rádio Comercial e a reorganização da oferta de conteúdos.

 

3.10.13

A imprensa portuguesa em novo livro de José Tengarrinha

tengarrinhaJosé Tengarrinha publicou um novo livro a que deu o nome de Nova História da Imprensa Portuguesa das Origens a 1865, um volumoso livro de mil páginas editado pela Temas e Debates/Círculo de Leitores, e que se torna indispensável para quem queira conhecer a realidade social, económica, cultural e política desta indústria.

No prefácio, o autor começa com a definição de imprensa, inicialmente a máquina de imprimir e depois também o produto: impressos, revistas ou jornais. Adiante, ele traça a história da imprensa em Portugal a partir do momento em que o seu objeto se apresenta como periódico e envolve homens de letras como Alexandre Herculano ou Eduardo Coelho.

Identifica a história da imprensa como aquela que resulta de critérios formais estabelecidos na década de 1940 - a consideração do jornal como chega ao leitor. Destes e de outros critérios, Tengarrinha releva quatro fases da sua história: 1) primórdios, da Gazeta de 1641 à revolução de 1820, 2) nascimento da imprensa de opinião, até ao estabelecimento da monarquia constitucional em 1834, 3) liberais contra liberais, indo do fim da guerra civil até à regeneração, e 4) da regeneração em 1851 à organização industrial da imprensa em 1865. O esquema de classificação das publicações periódicas atende a um conjunto de fatores tais como âmbito geográfico, relação com os poderes públicos e religiosos, orientação, conteúdos, periodicidade e género.

Entre as páginas 845 e 880, o historiador faz o que ele chama um breve balanço mas que representa um longo caminho e que subdivide em áreas: 1) transição para o jornalismo moderno (empresa jornalística e jornalista, dificuldades técnicas, ilustração e gravura, portes do correio e expedição, o papel como matéria prima cara, primeiros movimentos reivindicativos dos tipógrafos, e 2) imprensa e evolução da sociedade oitocentista portuguesa.

Detenho-me na sua análise à imprensa jornalística, em que assinala uma maior complexidade a partir de 1834 (pp. 854-857). O jornal passava a ter um editor, um redator responsável ou chefe de redação, um a dois noticiaristas e um folhetinista. Os noticiaristas ganhavam um salário pequeno, pelo que precisavam de ter outros rendimentos. O negócio era regra geral pouco lucrativo e Tengarrinha estima um mínimo de 200 cópias para um jornal subsistir no tempo. Na segunda metade do século XIX, o jornal começava a deixar de ser visto como tendo função doutrinária para passar a ser considerado como uma mercadoria, evidenciado pela presença crescente de anúncios pagos.

José Tengarrinha é doutorado em História e professor catedrático jubilado, presidente do Instituto de Cultura e Estudos Sociais (Cascais) e autor de muitas obras sobre a imprensa das quais destaco História da Imprensa Periódica Portuguesa (1965) e Imprensa e Opinião Pública em Portugal (2006). Tengarrinha foi o arguente da minha tese de mestrado defendida em 1994.

Leitura: José Tengarrinha (2013). Nova História da Imprensa Portuguesa das Origens a 1865. Lisboa: Temas e Debates/Círculo de Leitores, 1003 páginas, 24,40 €