29.11.09

RELVAS, LUMIÈRE E VON STUCK


O chalet de Carlos Relvas e o seu espólio pessoal (livros, máquinas fotográficas, mobiliário, laboratório) lembram-me outras duas casas, de outros visionários, a dos irmãos Lumière em Lyon (cinema) e de Franz von Stuck em Munique (pintura).

O museu dos Lumière (ver o texto que aqui escrevi sob a designação Lumière) abriu em 2003, em Lyon (França), ocupando a casa onde os irmãos inventaram o cinematógrafo. Filhos de um fotógrafo muito conhecido em Lyon, eles próprios tornados fotógrafos, evoluiram para o mais novo medium de então, o cinema. Estávamos em Março de 1895.

Por seu lado, o pintor Franz von Stuck (1863-1928), impulsionador do Jugendstil, a arte nova de Munique, tornou a sua casa uma autêntica obra de arte (ver meu comentário no blogue, em Villa Stuck).Tectos, paredes e o quadro Die Sünde são dos espaços mais fantásticos que vi.


Em todas estas casas, nota-se a invenção e criatividade, a ousadia e o excentrismo das actividades dos seus autores à época, apoiados em fortunas sólidas e em espírito aventureiro. Mas acabam aqui as semelhanças. A casa dos Lumière tem muito equipamento cinematográfico da época, o espólio de Relvas é menor. Os Lumière foram profissionais, fizeram filmes que circularam no mundo, arriscando mas ganhando muito dinheiro. Relvas ter-se-ia mostrado satisfeito pelo reconhecimento internacional pelos prémios e pelas medalhas em concursos de fotografia, dado o modo que o levou a imprimir em alto relevo na parede de entrada a reprodução dessas medalhas, além do seu lado científico e benemérito, ao desenhar um bote salvador no rio Douro.

Desconheço as políticas de aquisição de bens, mas não me parece absurdo que o museu de Lyon compre equipamentos da época de modo a ter uma colecção muito vasta. Depois, as casas-museu de Lumière e de von Stuck ficam em cidades ricas de dois dos mais ricos países da Europa, em quarteirões associados à burguesia dessas cidades, com árvores e ruas limpas, afastadas dos núcleos históricos sobrepovoados e barulhentos. Arredada do olhar crítico mas cosmopolita das elites urbanas desses países, a casa de Relvas ficava na grande propriedade rural, então como ainda hoje numa planície agrícola muito fértil junto à antiga estrada real de Lisboa ao Porto. Os Lumière e von Stuck teriam visitantes vizinhos apreciadores da sua arte, numa circulação permanente de novas ideias, Relvas saía da Golegã em busca do contacto intelectual internacional, de modo a manter-se actualizado.

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