Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

31.12.07

PÚBLICOS DO CINEMA SEGUNDO TÂNIA LEÃO


Como já indiquei aqui, Tânia Leão publicou no mais recente volume da revista Trajectos um texto intitulado O(s) público(s) do Fantasporto. Perfis e modalidades de apropriação ritualista do Festival Internacional de Cinema do Porto, onde aborda a formação dos públicos da 23ª edição do Festival Internacional de Cinema do Porto (Fevereiro-Março de 2003).

Dado uma das minhas linhas de investigação englobar o estudo de públicos (e sua formação), prestei muita atenção ao texto citado. A investigação teórico-metodológica - e que foi base de uma tese de mestrado da autora, defendida em 2007 - assenta em três eixos fundamentais: 1) dimensão da oferta, 2) dimensão da procura (frequentadores do Fantasporto), e 3) análise do contexto. Ela partiu do princípio observado em estudos sobre hábitos e práticas culturais que identificaram a existência de práticas intermédias – como o cinema – enquanto transição entre consumos cultivados e massificados (p. 32).

Diz Tânia Leão que, quanto mais selectivo e restrito se torna o acesso cultural, mais distintiva se torna a prática. No caso do Fantas, carinhoso nome como é conhecido o festival, fala-se em critérios de consagração, evento de excepção e raridade mas renovável. A socióloga fala igualmente da criação de um culto – a celebração de um ritual contemporâneo. Duas das características dos públicos do Fantas são juventude (grupo etário com maior disponibilidade temporal para uma cultura de saídas, posse do estatuto de estudante, aposta na esfera do lazer e da fruição da vida quotidiana) e elevado capital escolar [imagens retiradas do sítio do Fantasporto].


Na investigação, foram definidas cinco categorias de espectadores, a partir de vários indicadores (antiguidade, modo de ingresso, número de sessões a ver, natureza das relações de sociabilidade no Fantasporto, apropriação passiva ou activa do espaço do festival) (pp. 35-36):

1) Núcleo-duro – frequentam regularmente o Fantasporto, possuem passe de participante, estão diariamente no espaço do Fantas, adquiriram uma rede de sociabilidade forte e têm uma relação privilegiada com o topo da hierarquia do Festival,
2) Habituais – frequentam regularmente o Fantasporto, recorrem a várias modalidades de ingresso, estão quase todos os dias no espaço do Fantas, possuem rede de sociabilidade,
3) Aspirantes – frequentam regularmente, estão com alguma assiduidade no espaço do Fantas, possuem rede de sociabilidade e mantêm alguma relação com o núcleo-duro,
4) Flutuantes – frequentam esporadicamente e seleccionam as sessões a que assistem, com rede fraca de sociabilidade,
5) Novatos – frequentam pela primeira vez o festival, sem rede de sociabilidade.


Há uma relação entre fidelização com o Festival e aumento da idade dos participantes e o género é determinante, pois o núcleo-duro é exclusivamente masculino, associado à temática do festival – cinema do fantástico e do terror.

Os novatos e flutuantes representam o maior número de espectadores do evento, mas muita da vida do Festival deve-se aos elementos do núcleo-duro, habituais e aspirantes. Há, também, um efeito geracional/familiar, uma espécie de passagem de testemunho de uma geração mais velha à mais nova, o que quer dizer que o Festival é um acontecimento cultural e social de relevo. Os espectadores novatos lidam com uma sensação de deslumbramento resultante da experiência de assistir a cinema em circunstâncias distintas das salas tradicionais, partilhando colectivamente emoções durante a exibição de alguns filmes.

Tânia Leitão faz um paralelismo entre o certame e diferentes grupos de rituais (p. 41): 1) ordem cultural (casos dos concertos rock/pop), de reunião de multidões e uma espécie de mística com efervescência colectiva, 2) desportivo, permitindo a manifestação de emoções colectivas (gritos, ovações, palmas), 3) de interacção quotidiana, marcada pela convivialidade, 4) do corpo, com representação e figuração ligados ao estatuto, valores, condutas e ideologias dos indivíduos.

Leitura: Tânia Leão (2007). "O(s) público(s) do Fantasporto. Perfis e modalidades de apropriação ritualista do Festival Internacional de Cinema do Porto". Trajectos, 11: 31-44

30.12.07

A MORTE DEFINITIVA DO MUSEU DA RÁDIO


Já no dia 22 deste mês, o blogue A Rádio em Portugal se havia referido ao definitivo desaparecimento do museu da Rádio, à rua do Quelhas (Lisboa). Essa mensagem era montada com base na leitura de reportagem da Rádio Renascença, aqui, de autoria da jornalista Dina Soares com imagem e edição da Jornalista Conceição Sampaio [imagem retirada desse vídeo].

Nessa peça, o director do núcleo museológico da RTP, Pedro Brauman, afirma que chegou a estar prevista a construção de um novo museu, mas o projecto não avançou por decisão do Governo e da administração da RTP. Agora, as peças - retirando as que não forem classificadas como tendo valor e jogadas fora, pelo que sei - ficarão numa garagem, nas caves das instalações centrais da RTP.

Hoje, o diário Público pega na questão. Infelizmente sem o fulgor da peça escrita a 1 de Maio de 2004, que ocupara o espaço de uma página (se a memória me não falha), quando agora tem a dimensão de notícia breve. Conclusão: como morreu, já quase não tem valor-notícia.

Por essa altura, aqui, neste blogue, a
14 de Maio de 2004, eu escrevia: "Faz hoje doze (12) anos que abriu as portas o Museu da Rádio. Escreve Matos Maia no seu livro Telefonia (Círculo de Leitores, 1995, p. 296): "O Museu foi uma ideia do Rádio Clube Português, na década de 60 [...]. [Ela] partiu de José do Nascimento, quadro superior do Rádio Clube Português [...]. Desde a primeira hora, colaboraram com José do Nascimento, no projecto, outros dois colegas do RCP: Manuel Bravo e Armando Leston Martins". Depois, seguiram-se várias vicissitudes, acabando o Museu por ser inaugurado em 14 de Maio de 1992. O museu tem cerca de cinco mil peças e recebe anualmente à volta de doze mil visitantes".

Alguns dos blogues mais relacionados com a rádio promoveram uma petição que chegou a ter um certo impacto (não consigo recuperar o link, por presumivelmente estar já desactivado o blogue que tomou a iniciativa). Eu escrevi uma carta à administração da RDP, protestando contra o desaparecimento do museu, que me respondeu (ver em
28 de Maio de 2004), onde eu li: "o actual Museu da Rádio não será «desmantelado». Pelo contrário, a instituição dará oportunamente lugar ao futuro Museu da Rádio e Televisão, passando a incorporar também o espólio do núcleo museológico da RTP". A mesma carta indicava ainda que o museu da Rádio e da Televisão seria instalado "em local adequado quer à boa conservação das peças como à sua efectiva disponibilidade". Aquando da tomada de decisões, elas teriam divulgação pública.

Mais tarde, a
18 de Abril de 2006, voltei ao assunto: "O certo é que o museu está já fechado desde o começo do mês. NÃO SE FAZ UMA COISA DESTAS. Temos direito à indignação".

Agora, estou muito mais indignado. Por causa do museu que desaparece, erro que se deve atribuir à administração cessante da RTP e ao actual Governo. O ministro que tem a tutela do serviço público do audiovisual foi alertado em 2004 (então deputado da oposição) e prometeu agir de modo a preservar a memória viva do museu, dentro das suas forças. Nada se fez; outro museu - o da Arte Popular - irá desaparecer e transformar-se em espaço virtual da língua portuguesa. Para mim, o presente Governo será responsabilizado pela destruição de dois museus. Claro, parafraseando a ministra da Cultura em finais de Outubro do ano passado: "A vida dos museus não é eterna. Eles nascem, vivem e morrem. Não devemos estar presos a uma atitude conservadora" (ver minha mensagem de
31 de Outubro de 2006). A questão é que os cidadãos têm memória e não esquecem quem faz as acções públicas!

MAIS UM BALANÇO?


"Mais tarde ou mais cedo, eles regressam. Mas raramente o fazem em tanta quantidade, e de qualidade diversa, como neste ano. De Led Zeppelin às Spice Girls, dos Take That aos Madness, dos Sex Pistols aos The Police" (Independent, publicado no dia 28, a ler aqui).

BALANÇO DE 2007? PROSPECTIVA PARA 2008?


2007 foi o ano da morte de Michelangelo Antonioni, Ingmar Bergman, Norman Mailer, Karlheinz Stockhausen, Jean Baudrillard e Luciano Pavarotti.

Mas, se estes autores ou artistas desapareceram fisicamente, outros fracassaram em 2007: Bryan Appleyard, no Sunday Times de hoje, fala de Don DeLillo (Falling Man), Francis Ford Coppola (Youth Without Youth) e Quentin Tarantino (Death Proof).

O articulista fala de grandeza da arte e dos seus autores ou intérpretes e procura saber o que quer dizer grandeza. Para ele, há um clima de excesso e, igualmente, de incerteza e de disputa tribal. Além de tecnologia, extravagância, publicidade e promoção na arte e na cultura. Sem o identificar explicitamente, apresenta herdeiros em termos de grandeza: Pierre Manent, na filosofia (The city of man, com recorte agustiniano da Cidade de Deus); Pedro Almodovar e Wong Kar Wai no cinema, este último a lembrar Tarkovsky, Ford ou Kurosawa.

De outras indústrias culturais, Appleyard traça um quadro negro. A música, escreve, está em crise. Por um lado, os descarregamentos (downloads) acabam com os lucros na venda de CD. Por outro lado, os artistas de música clássica estão sob a mesma pressão que os da música pop para editarem de modo rápido como estes. As artes visuais estão a ser vítimas de excessiva publicitação, que elimina o isolamento e o tempo próprio de criação que não segue horários ou calendários.

ESPÓLIO DE OITO MIL DISCOS DE FADO


Retiro a informação do jornal Público do passado dia 21, destaque intitulado Portugal compra valioso acervo de oito mil discos de fado.

Trata-se da aquisição por parte do Estado português de uma colecção pertencente a Bruce Bastin por € 1,1 milhões. Bastin, em visita a Portugal nos anos de 1970, encontrara grande parte das gravações de discos num armazém em Lisboa (cinco mil discos das marcas Gramophone, HMV, Columbia, Homokord e Victor, entre 1904 e 1945). Mais tarde, completou a colecção com a compra de mais discos no Brasil. Há discos de 78 rotações por minuto e gravações em cilindros de cera de artistas como Júlia Florista, Alice, Pedro Araújo, Roberto Catão, Manassés de Lacerda, Luís Petroline, Joaquim Ramos, Tomaz Ribeiro, Maria Vitória, Reinaldo Ferreira, José Bastos, Isabel Costa, Almeida Cruz, Eduardo de Souza, Delfina Cruz, Armandinho, António Menano, Edmundo Bettencourt e Alfredo Marceneiro.

Foi o editor musical José Moças que descobriu e promoveu a ideia de o Estado português comprar a colecção. Ele conta que, em 1992, passou pela HMV de Londres para comprar discos e se deparou com uma estante com fados portugueses. Contactado o editor, levou cem discos para vender em Macau, onde vivia então. A venda foi rápida e ele procurou adquirir mais discos. Até que chegou à conversa com Bastin, o editor da Interstate. Sugeriu-lhe a venda do espólio a Portugal, para haver uma investigação séria. Em 2000, apresentou uma proposta ao Museu do Fado e ao Ministério da Cultura. Mais tarde, José Moças descobriria que há registos de fado antes de 1904, quando começa a colecção de Bruce Bastin. Há registos feitos no Porto em Outubro e Novembro de 1900, o Fado Hylario cantado pelo actor Duarte Silva e Oh! Júlia cantado pelo actor José Brito.

29.12.07

CONCENTRAÇÃO NA ÁREA DOS LIVROS (MAIS SOBRE O ASSUNTO)


Os jornais de hoje dão conta da efectiva aquisição da Dom Quixote (do grupo espanhol Planeta) por Miguel Paes do Amaral, como se vinha a comentar nas últimas semanas (e que eu escrevi aqui, anteontem).

O Expresso divulga a possível designação do grupo editor de Paes do Amaral - Texto/Caminho - e da previsível expansão do grupo editor para os mercados do Brasil, Angola e Moçambique. Por outro lado, fala-se da possível venda da Gradiva, de Guilherme Valente, à Explorer Investments (que já detém a Teorema e a Oficina do Livro). Ainda na mesma notícia, há a informação de uma nova editora, propriedade de Nelson de Matos (de 1980 a 2004 dono da mesma Dom Quixote), a lançar os primeiros livros em começos do próximo ano.


Isto é, num momento em que se dá uma concentração no mercado da edição livreira, nascem outros projectos, explorando nichos de mercado.

A CULTURA DOS BLOGUES NACIONAIS SEGUNDO PACHECO PEREIRA


Os blogues, a blogosfera, são um facto cultural novo nos últimos cinco anos. Não abunda assim tanto a novidade no domínio lato da cultura, para que possa passar despercebida, ou melhor, notada mas não percebida, ou erradamente percebida. Muita coisa nos blogues vem em continuidade do passado, existia noutros meios e sob outras formas, mas mesmo a que apenas fez a transmutação dos media clássicos para os blogues como media mudou também com o meio. Mudou e continua a mudar.

Para uma geração de jovens que só lê escassamente os jornais, para além dos desportivos e dos gratuitos, a "cultura de blogue" começa a deixar os seus traços próprios: redução temática considerada "importante" ao que é discutido nos blogues, valorização do posicionamento comprometido, de "prós e contras", maior radicalismo político e opinativo, mecanismos de identidade grupais ou tribais [...]. Não é um fenómeno "mau" por si só, tem também aspectos "bons", na proporção desigual que é habitual para Portugal nestas coisas, mas caminha para ser um instrumento suplementar que reforça as duas tendências em curso nos nossos dias: a da substituição da democracia pela demagogia e a espectacularização da sociedade.


Eis dois excertos do texto publicado hoje na coluna habitual de José Pacheco Pereira no jornal Público. Mais uma reflexão do historiador (designação que aparece no final da coluna) sobre os blogues. Para ele, a blogosfera nacional é um mostruário da nossa pobreza, feita simultaneamente de pequenos egos e da rareza de independência e inovação. E, ainda, ela é avessa às críticas a ela dirigida do mesmo modo que os media tradicionais. Ou seja: a blogosfera portuguesa transporta para dentro de si os males e defeitos dos media - não há, pois, novidades. Contudo, reconhece o articulista, a blogosfera permitiu colocar no espaço público muitas vozes que a ele não tinham acesso.

O realismo pessimista de Pacheco Pereira pode continuar-se a ler na edição de hoje do Expresso, onde ele e António Barreto reflectem sobre o Portugal de 2007. Sem que a blogosfera seja nomeada, existe um enquadramento semelhante a nível da sociedade. Parece que não conseguimos fugir à sina da incapacidade, tristeza e depressão nacionais.

A IMPORTÂNCIA DA ESCRITA


Um livro cuja leitura me entusiasma de cada vez que pego nele é A musa aprende a escrever, de Eric A. Havelock (1988/1996). Tema: a passagem da poesia à palavra escrita na Grécia e na sua literatura.

Se McLuhan chamou a atenção para os efeitos psicológicos e intelectuais da imprensa, Havelock haveria de recuar até à cultura grega, 700 anos a. C.

Este autor concluira pela lentidão do processo de alfabetização. Até então, o coro (da tragédia grega) desempenhara um papel fundamental na conservação da tradição, oralidade também associada à dança e à melodia. Resumindo: nas sociedades orais, a responsabilidade do discurso residia na associação da poesia, da música e da dança. A poesia era originalmente o instrumento operativo de armazenamento de informação cultural para reutilização ou o instrumento para o estabelecimento de uma tradição cultural (Havelock, 1996: 90).

Essa necessidade de manter a memória exigia um conteúdo económico da mesma (Havelock, 1996: 128), acrescentando-se novo material com cuidado e apenas quando se perdia informação anterior. Acrescento eu: a memória oral era o garante da preservação e da tradição mas impedia a renovação e a mudança.

Continua Havelock: na oralidade primária, as relações entre seres humanos regulavam-se pela acústica (complementada pela percepção visual do comportamento corporal). A comunicação primária inclui o sorriso, o franzir das sobrancelhas, o gesto (Havelock, 1996: 84) - códigos visuais puros.

Na história da palavra grega escrita, o texto mais antigo é, provavelmente, de Hesíodo, escreve Havelock (1996: 97). As letras, como artefactos, objectivam a memória, tornam-na visível. O facto de serem uma transferência que ainda retém a oralidade materna, e não uma criação nova, é reconhecida pela expressão mãe-musa, grammata, certamente lembrança da genealogia de Hesíodo.

No século VI a. C., existiam funcionários específicos, os memorizadores, a que corresponderia um serviço executado para uma sociedade não letrada, onde se preservavam oralmente as regras e os precedentes e a cronologia do passado (Havelock, 1996: 102), desígnio servido pela memorização de uma sequência fixa de nomes associada a acontecimentos e acrescida de uma contagem de anos. E, continua Havelock, todas as informações apontam não para a pronta aceitação do alfabeto mas para uma resistência. A leitura, juntamente com a escrita, não seria celebrada no drama grego antes do último terço do século V, no Hipólito, de Eurípides (Havelock, 1996: 106). Os primeiros textos da chamada grande literatura, em pergaminho ou papiro, seriam encarados pelos gregos da época como continuação da prática oral.

Depois, à medida que se efectivava a mudança para a literacia, produziam-se alterações na configuração da sociedade humana (Havelock, 1996: 119). Oferecia-se um acto de visão em vez de um acto de audição, como meio de comunicação e de armazenar a comunicação. O armazém da acumulação, já não material acústico mas visível, torna-se passível de alargamento.

Leitura: Eric A. Havelock (1988/1996). A musa aprende a escrever. Lisboa: Gradiva

28.12.07

TIRAGENS DOS JORNAIS


Sigo a informação editada hoje no Público, com base nos dados da Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação (APCT) relativos aos primeiros nove meses de 2007, onde se informa que "a circulação dos diários pagos, no seu conjunto, está em queda". Assim, o Correio da Manhã tem uma média de 117522 exemplares vendidos, seguindo-se Jornal de Notícias (93265), Público (42494), Diário de Notícias (36810) e 24 Horas (35479).

Por seu lado, os jornais gratuitos continuam em ascendente: Metro (distribuição de 180 mil exemplares), Destak (173 mil), Global Notícias (151 mil), Meia Hora (84675) e Oje (22 mil). O total da circulação dos gratuitos é de 611213 exemplares.

Nas revistas semanais, a circulação paga média foi na Visão de 102673 exemplares, atrás da qual está a Sábado (66 mil). Continua a mesma notícia do jornal Público: "As vendas dos desportivos também desceram. No seu conjunto, Record (76.524 exemplares) e O Jogo (35.569) venderam menos 9235 exemplares. A Bola não é auditada pela APCT. Quanto aos semanários, também em queda (31,5 por cento em relação ao período homólogo de 2006), o Expresso [...] teve uma circulação média paga de cerca de 117 mil exemplares e o Sol ficou-se pelos 49 mil".

SOBRE MARSHALL MCLUHAN


Originalmente tese de mestrado defendida em 2003, e alterada e ampliada para edição, o livro de Filipa Subtil aborda o trabalho de um dos mais originais pensadores do século XX no campo da comunicação. Canadiano, McLuhan (1911-1980) foi professor de literatura antes de se tornar conhecido pelas suas obras, em especial Galáxia Gutenberg e Understanding Media [o livro de Filipa Subtil foi lançado em 18 de Abril deste ano e pode ser visto aqui um pequeno vídeo].

Dividido em três capítulos, o livro sobre McLuhan detém-se sobre a forma como ele encarou as consequências das tecnologias de informação e do conhecimento, a análise da teoria dos media e o impacto que os conceitos de McLuhan tiveram no campo científico e o estudo das "extensões" e as transformações que eles trazem à sociedade. O livro de Filipa Subtil também põe a obra de McLuhan em contraponto ou continuidade com as de Lewis Mumford, Walter Benjamin, Jack Goody, Harold Innis, Jean Baudrillard e Paul Virilio, entre outros. Assim, neste texto de cerca de 160 páginas, precepcionamos bem o percurso do pensamento de McLuhan, mas também as influências recebidas e transmitidas.

Destaco, naturalmente, a influência que McLuhan recebeu de Harold Innis (1894-1952) e que enche parte do capítulo final do livro que aqui apresento. Innis - que não é um autor muito conhecido em Portugal - apresenta dus ideias principais na relação tecnologia/civilização: 1) as tecnologias revelam os modelos relacionais e de pensamento de um período, 2) as civilizações expandem-se e estabelecem contactos através de meios artefactais. Meios como canais, estradas, caminhos de ferro e media afectam a organização social (Subtil, 2006: 116).

A natureza da tecnologia dos media influencia o modo de pensar e agir dos seus membros, através de monopólios de conhecimento. Num trabalho inicial sobre a importância estratégica da comunicação e do jornalismo, Innis revê o papel tido pela imprensa no aumento da velocidade na comunicação e nos transportes do século XIX. Como a imprensa passou a estar dependente da publicidade, tal contribuiu para a difusão do sistema de preços (Subtil, 2006: 124). Devido ao uso do marketing e da publicidade, o jornal seria um precursor dos departamentos de vendas; a publicidade inserida nos jornais torna este um aliado do mundo dos negócios.

Se McLuhan partiu de intuições de Innis, ele traçou perspectivas muito próprias, com um pensamento original. Galáxia Gutenberg (1962) parte do princípio que a história da humanidade se compreende à luz das tecnologias da comunicação (Subtil, 2006: 32). A escrita e os seus significados concentra a atenção de McLuhan. Antes da comunicação escrita, a humanidade recorria a todos os sentidos para comunicar, resultando um conceito de comunidade. A escrita começou um processo de fragmentação sensorial, o qual culminou com a tipografia (Gutenberg). Uma nova partilha sensorial ocorreu com as tecnologias de informação, do telégrafo aos media electrónicos.

Além do relevo aos principais elementos da obra de McLuhan, no livro de Filipa Subtil faz-se também uma crítica à obra daquele pensador, casos do seu determinismo tecnológico e o ignorar a análise histórica dos media, além de factores sociais, económicas, políticas e culturais. Trata-se de um livro bem escrito e de muita profundidade, em especial para os leitores portugueses que conhecem McLuhan mas não sabem o seu percurso. Como se lê na contracapa do livro:


  • Através da atenção aos significados do processo social e percepcional da comunicação oral, escrita e electrónica, McLuhan propõe uma concepção dos media que continua a captar o elemento fundamental das mudanças que estão a ocorrer por via das tecnologias de informação - os media são mensageiros que constituem eles próprios a sua mensagem.
[de McLuhan já falei aqui em 17, 20 e 22 de Junho de 2005; de Innis escrevi a 19 de Junho de 2005]

Leitura: Filipa Subtil (2006). Compreender os media. As extensões de Marshall McLuhan. Coimbra: MinervaCoimbra

RESPONSÁVEL DE COMUNICAÇÃO PARA FNAC VISEU


Perfil pretendido: formação em Marketing, Comunicação Empresarial, Publicidade, Comunicação Social, Relações Públicas, Gestão e Produção Cultural;
Bons conhecimentos da realidade cultural da região de Viseu;
Conhecimentos em planificação e produção executiva/técnica de eventos;
Experiência profissional mínima de 3 anos;
Dinamismo, espírito de iniciativa, motivação e aprendizagem rápida;
Capacidade de organização e de gestão de projectos;Domínio de Inglês e Francês, falado e escrito;
Domínio da expressão oral e escrita;

Principais Funções:
- Zelar pelo funcionamento e manutenção do Fórum Fnac e da Galeria da Fnac Viseu;
- Programação, produção e acompanhamento dos eventos culturais diários e das exposições;
- Gestão do departamento de comunicação e coordenação das actividades com restantes departamentos;
- Gestão e produção de conteúdos para Agenda Cultural quinzenal;
- Criação de dinâmicas de relacionamento com fornecedores, instituições, agentes culturais e meios de comunicação locais;
- Acompanhar e apoiar o desenvolvimento das acções dos departamentos comerciais;
- Coordenação dos suportes de comunicação institucional, cultural e comercial na própria loja.

Envio de currículos, acompanhado de carta de apresentação para o e-mail
dp.comunicacao@fnac.pt , até 15 de Janeiro de 2008.

27.12.07

A RTP E RODRIGUES DOS SANTOS


Comentei aqui, a 15 de Novembro passado, a questão de José Rodrigues dos Santos na RTP.

Agora, com data de 23 deste mês, a comissão de trabalhadores da RTP formaliza um "pedido à Entidade Reguladora para a Comunicação Social para que instaure um inquérito e para que sobre ele se pronuncie. Porque no entender da Comissão de Trabalhadores da RTP estão em causa a independência do operador público perante o poder político e o condicionalismo da liberdade de imprensa e de informação".

Parece-me bem. Mas a comissão de trabalhadores da televisão pública demorou mais de um mês a assumir esta posição. É estranho! Trata-se de exercer pressão indirecta sobre a nova administração, agora que se conhecem os seus nomes?


E não gosto do começo da carta à ERC, quando fala do do jornalista da RTP como "Professor Doutor José Rodrigues dos Santos". Não bastava o nome do profissional? Servirá para impressionar o regulador? E este vai responder, quando tempos atrás o seu presidente considerava não ter nada a dizer sobre o caso?

CONCENTRAÇÃO NA ÁREA DOS LIVROS


Os jornais anunciavam, na semana transacta, a possível compra da Dom Quixote pelo grupo de Paes do Amaral. Este, depois de sair do negócio do audiovisual (televisão e rádio), optou pelo mercado de livros, tendo já adquirido a ASA, a Texto Editora, a Nova Gaia, a Gailivro e a Caminho, esta editora de José Saramago, prémio Nobel da literatura.

A Dom Quixote, actualmente na posse dos espanhóis do Grupo Planeta, edita autores como Lobo Antunes e Lídia Jorge e tem um catálogo de mais de dois mil títulos.

20.12.07

FÉRIAS


O blogueiro não actualizará este sítio nos próximos dias, voltando para o final da próxima semana. Para além do descanso necessário, há leituras a fazer e trabalhos a planear ou concluir nos começos de 2008.

A todos os leitores, desejo um muito bom Natal.

FAZER UM ANÚNCIO POR UMA BAGATELA


No canal de televisão britânico ITV1, no dia de Natal, será emitido um anúncio que custou cerca de 450 euros.

Nils Elders, de 25 anos, que trabalha como produtor musical freelance a viver em Aberdeen (Escócia), gastou dois dias para criar a canção Jinglin Pringlin e a sua letra, trabalhando as imagens no seu computador pessoal, fazendo um anúncio de 40 segundos da Pringles, marca de cereais de pequeno-almoço. Elders ganhou um prémio de 3500 euros em concurso promovido pela Procter & Gamble, proprietária dos Pringles (ver o anúncio
aqui).

O programa onde o anúncio vai passar é o Emmerdale, com mais de 90 milhões de espectadores estimados, período do dia que atinge os 90 mil euros por anúncio.


[agradecimentos a Célia Caeiro por me ter dado a conhecer a notícia]

GUERRA CIVIL DE ESPANHA


A 25 e 26 de Setembro do ano transacto, realizava-se o congresso internacional Guerra civil de Espanha: cruzando fronteiras 70 anos depois, na Universidade Católica e no Instituto Cervantes [fiz aqui referências com, vídeos, em 25, 26 e 27 de Setembro de 2006].

Agora, são editadas as actas desse encontro que reuniu Paul Preston, notável historiador do conflito de 1936-1939, e Nicolás Sánchez- Albornoz, filho do último embaixador da República Espanhola. E ainda Jorge Fazenda Lourenço, Ana Paula Rias, Paloma Esteban Leal, José María Ridao, Carlos García Santa Cecilia, Inês Espada Vieira, Eugénia Vasques, Antonio Fernández Insuela, Ana Vicente, Nelson Ribeiro e José Miguel Sardica.

O encontro revisitaria e analisaria um dos momentos mais importantes da história contemporânea do país vizinho. Além da história e da política, as artes visuais, literatura, cinema, teatro e media (imprensa e rádio) foram trabalhados, atendendo à proximidade geográfica e envolvimento político do regime português de então, o Estado Novo. No seu texto, escreve José Miguel Sardica que o desfecho da sangrenta luta em Espanha interessava directamente a Portugal, porque a sobrevivência de um regime num dos países garante igual situação no outro. A vitória de Franco sobre as forças republicanas estabilizou o poder de Salazar. Mais tarde, a queda do Estado Novo e a lenta implantação do regime democrático no nosso país, foi seguida a par e passo em Espanha, com a morte de Franco e igual transição para a democracia.

As capas representam a edição das actas, saídas agora, e o livro dos correspondentes de jornais no conflito armado de Espanha, nomeadamente os portugueses, editado por altura do congresso e da exposição a ele associada. A semelhança gráfica das duas capas espelha esse lado do conflito: a guerra vista pelos jornalistas e por fotógrafos - quiçá os olhares menos comprometidos e mais livres no terreno, embora as ideologias tenham também pesado nos relatos feitos. O livro Guerra civil de Espanha: cruzando fronteiras 70 anos depois é uma produção do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura e edição da Universidade Católica Editora.

NOVO NÚMERO DA REVISTA OBSERVATÓRIO DISPONÍVEL ON-LINE

Encontra-se disponível o número mais recente da revista online Observatório, cuja temática é Users as Innovators (aceder através de http://obs.iscte.pt/).

CONCERTO DE PEDRO CARNEIRO NO CENTRO DE ARTE MANUEL DE BRITO, A 28 DE DEZEMBRO

19.12.07

CONGRESSO DE JORNALISMO ON-LINE


A data para o Congresso Internacional de Jornalismo On-Line (International Symposium on Online Journalism), na Universidade do Texas (Austin, Texas, Estados Unidos), está marcada para 4 e 5 de Abril de 2008.

Data limite para abstracts a concurso: 25 de Janeiro de 2008.

Sítio oficial: http://online.journalism.utexas.edu/.

PRÉMIO PARA CÉU NEVES


[Retirei a informação do blogue Jornalismo e Comunicação e segui o rasto para o jornal Público, através de um comentário de António Granado, daquele jornal]

Céu Neves, jornalista do Diário de Notícias, ganhou o primeiro prémio de jornalismo Pela diversidade, contra a discriminação, atribuído pela Comissão Europeia, em que participaram mais de 800 artigos provenientes dos 27 estados-membros da União Europeia.

Escrevia ontem o Público (Última Hora): "Maria do Céu Neves foi premiada pela reportagem Portugueses alimentam nova escravatura da Europa, que denunciou as condições de discriminação a que são sujeitos emigrantes portugueses na Holanda.Para a realização da reportagem, Maria do Céu Neves fez-se passar por trabalhadora emigrante".

Parabéns, Céu! Foi um excelente e merecido prémio. Os leitores sentem-se igualmente muito orgulhosos!


18.12.07

A IMPORTÂNCIA DA PROPAGANDA DA EMISSORA NACIONAL NA GUERRA COLONIAL


O altifalante do regime. A Emissora Nacional como arma de guerra no conflito colonial, dissertação de mestrado de Carolina Ferreira, foi hoje apresentada e aprovada com a máxima classificação na Universidade de Coimbra.

A autora propôs-se estudar o Estado Novo e a guerra colonial (1961-1974), a Emissora Nacional e o efeito das suas emissões na opinião pública. O seu ponto de partida foi o da rádio como arma de guerra no conflito colonial. Para isso, analisou a programação da rádio pública, a partir da revista Rádio e Televisão, as "Notas do Dia", rubrica de opinião lida por João Patrício (período 1968-1970), ordens internas de serviço e inquéritos de audição (audiências).

Carolina Ferreira criou uma grelha de cinco fases em termos de propaganda à guerra colonial por parte da rádio: 1) surpresa [quanto ao rebentar da guerra] e propaganda de integração, 2) entusiasmo/versão estatal [o tempo do refrão "Angola é nossa"], 3) conformismo/discrição [redução do número de programas sobre a guerra colonial], 4) esperança e dúvidas, mais a criação de colunas de opinião [1968, com a ascensão de Marcelo Caetano], e 5) descontentamento/reforço da mística imperial.

A jovem investigadora concluiu que a Emissora Nacional teve um comportamento irregular na propaganda ao serviço do regime, no que ela considerou como o poder difuso da rádio (concepção bem distinta da teoria dos efeitos totais ou agulha hipodérmica, como se pensava no começo da radiodifusão, em que uma mensagem atingia total e duradouramente os receptores dessa mensagem).

QUEBRA DE AUDIÊNCIAS: GRUPO PRISA LEVA A NIELSEN A TRIBUNAL


A Prisa, grupo espanhol de media (detém, entre outros activos, o jornal El Pais e a cadeia de rádios Cadena Ser e a televisão portuguesa TVI), vai levar a tribunal a empresa americana Nielsen. Motivo: no presente ano, uma revisão da medição de audiências feita pela Nielsen ao sítio do El Pais indicou uma quebra de acessos. Para a Prisa, houve uma negligência por parte da Nielsen, dando valores inferiores à realidade.

Os dados fornecidos pela Nielsen são importantes em termos de estatísticas de visitantes dos sítios de internet, com efeito directo nos preços a cobrar na publicidade.

[via
European Journalism Centre]

17.12.07

YASUJIRO OZU


Segui o trilho indicado pela Cristina Fernandes (blogue Dias Felizes) e cheguei a Yasujiro Ozu (1903-1963): Cartazes e Signos, aqui. Imperdível!

CINEMA SOBRE EMIGRAÇÃO PORTUGUESA


O Museu da Presidência da República vai organizar o ciclo de cinema "Emigração Portuguesa" associado à exposição Traços da Diáspora Portuguesa, que pode ser visitada até 30 de Janeiro de 2008, na Gare Marítima de Alcântara, em Lisboa. A iniciativa, entre 5 a 8 de Janeiro de 2008 no Cinema S. Jorge, em Lisboa, com entrada gratuita, compõe-se por filmes maioritariamente portugueses e documentais (apresentados pelos realizadores e/ou comentados por especialistas).

Diz o programa:

Nas décadas de 1980 e 1990, a inflexão de sentido dos movimentos migratórios tendo como base o território português e o pasmo provocado pela entrada, em Portugal, de um número expressivo de imigrantes levaram a que, não já só nos fóruns sociais, mas também no meio académico, o tema da "emigração" fosse preterido face às preocupações sociais decorrentes da imigração. Com este ciclo de cinema sobre emigração, associado à exposição "Traços da Diáspora Portuguesa", em exibição na Gare Marítima de Alcântara, o Museu da Presidência da República pretende reeditar esta(s) história(s), privilegiando os olhares dos seus protagonistas e dando oportunidade a novas e descontaminadas leituras.

PÚBLICOS DE CULTURA DA GULBENKIAN


No livro Fundação Calouste Gulbenkian. Cinquenta anos, 1956-2006, cujo lançamento foi relatado
aqui (29 de Novembro de 2007) o coordenador da obra, António Barreto, escreve no primeiro capítulo do primeiro volume acerca da opinião pública quanto à Fundação.

Partindo de relatórios feitos por Pedro Magalhães e por mim mesmo, Barreto fala de dois principais grupos de públicos da Fundação, o primeiro dos quais é constituido por beneficiários (bolsas de estudo, subsídios de investigação, apoios sociais). Já o segundo grupo, aquele que me interessa aqui realçar, é o dos visitantes, espectadores e utentes dos museus, serviços educativos, concertos de música, outros espectáculos e Biblioteca da Arte.


Em 2005, houve 210 mil visitas ao Museu Gulbenkian e 165 mil ao Centro de Arte Moderna (CAM), 150 mil assistiram a concertos de música e 4 mil consultaram a Biblioteca da Arte (e 1500 na biblioteca de Paris).

Conclui Barreto (p. 52): "a análise dos públicos da Fundação, nas suas diferentes áreas de actuação, revela-se algo talvez previsível: os que frequentam as suas actividades são geralmente pessoas cultas, informadas, com estudos ou cursos superiores e elevadas qualificações académicas, muito acima das médias da população".

Há diferenças etárias e de geração nas diversas actividades em estudo: os públicos dos concertos e espectáculos musicais são de idade avançada (acima dos 50 anos) e os dos museus muito mais jovens. O carácter elitista dos frequentadores da Gulbenkian acentua-se na música erudita: mais de 70% possuem curso superior. As assinaturas para ingresso nos concertos atingem 53% dos bilhetes vendidos, o que significa um público fiel mas fechado. Maioritariamente constituido por homens (52%), tem uma elevada taxa de reformados e residentes na Grande Lisboa (95%), desempenhando (ou tendo desempenhado) funções profissionais relevantes, e com poder de compra elevado.

Já os públicos dos museus são femininos (57%), jovens (média de idades de 35 anos), metade tem graus académicos iguais ou superiores à licenciatura (como muitos estão ainda em percurso escolar estima-se que atinjam uma percentagem mais elevada, se os mesmos respondentes participassem num novo inquérito daqui a uns anos). De igual modo que os públicos dos concertos, os públicos dos museus dedicam-se muito a práticas culturais (leitura, teatro, bailado, ópera, cinema). Dentro dos museus - Gulbenkian e Centro de Arte Moderna -, os públicos do segundo espaço são mais assíduos nas visitas e estão muito empenhados em actividades culturais.

Sendo públicos esclarecidos, obtêm informação em brochuras, programas, cartazes, sítio da Gulbenkian na internet, assim como na publicidade nos media (p. 55).

O inquérito que esteve por detrás dos dados foi realizado em 2005. No caso dos concertos musicais, foram entrevistados espectadores de seis concertos na parte final de 2005 (música sinfónica e música de câmara, na Fundação e no Coliseu dos Recreios) (p. 53).

LIVRO SOBRE JORNALISMO


O livro (174 páginas) tem introdução, 5 capítulos e conclusão. Da introdução, lê-se que a investigação sobre os processos de produção jornalística (newsmaking) reconhece o poder do jornalismo na projecção social dos assuntos e no seu enquadramento (p. 10). O objectivo é compreender os valores-notícia existentes nas notícias de um jornal de referência (Diário de Notícias) por comparação a um jornal popular (Correio da Manhã) e um jornal africano (Jornal de Angola).

A metodologia é a análise de casos (análise de conteúdo) cobrindo o período de 1981 a 2000 (no jornal angolano analisam-se apenas alguns anos do período). O tema são as notícias sobre VIH-sida.


A introdução ainda inclui cerca de oito páginas dedicadas à teoria da notícia (embora não identificado, a parte inicial é escrita por Nelson Traquina, docente da Universidade Nova de Lisboa e presidente do CIMJ, centro de investigação que tem uma colecção de livros na editorial Horizonte). Na conclusão, que podemos igualmente atribuir ao mesmo investigador, e após recuperação de conceitos como agendamento, enquadramento, "estória" e valor-notícia, é trabalhada a ideia de problemática. O VIH-sida enquanto problemática nem sempre foi notícia (p. 96). Fala-se, então, de um período invisível. Por oposição à problemática, desenvolve-se a noção de acontecimento - o jornalismo é orientado para o acontecimento.

Por outro lado, conclui-se que a proximidade geográfica desempenha um papel fundamental no enquadramento e valor-notícia do acontecimento e que as fontes oficiais dominam o processo de produção noticiosa. Quando se escreve que o jornalismo é orientado para o acontecimento, significa que as notícias raramente partem da iniciativa dos jornalistas, os quais reagem a um evento (quer os agendados quer os de ruptura ou imprevistos).

Ponto forte do livro: a colaboração de duas gerações de investigadores, uma mais teórica e sociológica, a outra com conhecimentos empíricos de tratamento de dados estatísticos.

Leitura: Nelson Traquina, Marisa Torres da Silva e Vanda Calado (2007). A problemática da sida como notícia. Lisboa: Livros Horizonte e CIMJ

16.12.07

POESIA DE LAU SIQUEIRA


MANTRA

Não fiz planos pro futuro. Nem por
isso a vida me surpreendeu em
cima do muro. Calei diante do lago
onde palavras são cisnes. Sorri na
esperança de um pássaro azul.
Cometi plenitudes... Agora a noite
já é quase um salto. O Sol queima
aos poucos o hálito do horizonte...

E a vastidão é um átomo.


(poema de Lau Siqueira, do livro Texto sentido, 2007, p. 49)

Lau Siqueira nasceu em 1957 em Jaguarão, fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai. Publicou em fanzines, folhetos, agendas, suplementos, revistas, postais e na internet (onde mantém o blogue Poesia Sim, agora actualizado aqui). O desenho da capa pertence a Constança Lucas.

TRÊS POSTAIS DE CONSTANÇA LUCAS

RÁDIO DIGITAL EM FRANÇA


No passado dia 5, a ministra francesa da Cultura, Christine Albanel, assinou o decreto que confirma a adopção das tecnologias Digital Radio Mondiale (DRM) e Terrestrial Digital Multimedia Broadcasting (T-DMB) nas bandas III e L, dando um passo em frente na digitalização da rádio, prevista para o último trimestre de 2008.

A combinação das duas tecnologias digitais DRM and T-DMB é a solução perfeita para os emissores públicos e privados e ainda para as estações urbanas, locais e internationais.

Sobre o DAB, tecnologia adoptada pelo operador público português, nada se diz - o que será um aviso a considerar.

(informação recolhida em Media Network Weblog, em mensagem do dia 13)

15.12.07

BLOGUES E PRÉMIOS


Para além dos melhores blogues de 2007 [Bitaites (http://bitaites.org), Há Vida em Markl (http://havidaemmakl.blogs.sapo.pt), 31 da Armada (http://31daarmada.blogs.sapo.pt)], o júri do Melhor Blogue Português (MBP) decidiu também classificar blogues na categoria Artes e Cultura, segundo a opinião expressa pela nomeação do público e do MBP.

Assim, os lugares cimeiros pertencem a
Os Livros, Desenhos do Rui e Indústrias Culturais.

O meu muito obrigado por tão honroso lugar na classificação.

ABY WARBURG

Aby Warburg, filho primogénito de um banqueiro que teve papel central na Alemanha imperial pré-Primeira Guerra Mundial, concentrou-se no estudo, mormente arqueologia e história da arte, viajando, coleccionando livros e garantindo o contributo de assistentes, numa altura em que Hamburgo ainda não tinha universidade. O nome Warburg é geralmente associado não com o investigador mas com o banco Warburg, com sedes em Nova Iorque e Londres. Ora, Warburg dedicou toda a sua vida à criação de uma biblioteca enquanto memória colectiva europeia assumindo a cultura da antiguidade pagã. Biblioteca e atlas das imagens, história da arte (caso do Renascimento italiano) e história da cultura são objectos constantes do trabalho desse criador (1866-1929).

António Guerreiro, crítico de literatura, deu uma conferência sobre Warburg e o seu conceito de memória, a convite do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura (UCP), no passado dia 13. Da sua comunicação, o vídeo seguinte traduz uma parcela.

MARINA DA EXPO?


Com vistas para a ponte Vasco da Gama, no rio Tejo.

BLOGUES JAPONESES


No suplemento "Digital" (Público) de hoje, vem um artigo interessante sobre blogues japoneses (trabalho de Blaine Harden, do Washington Post).

Diz o texto que, enquanto os americanos fazem blogues para se destacarem, os blogues japoneses servem como veículo de integração. Com uma longa tradição de escrita a caneta de diários em papel, os computadores serviriam para actualizar o formato, com igual recurso à escrita em telemóveis. O uso desta última tecnologia significa a escrita curta e muito actualizada. Escrita sobre coisas do quotidiano, como gatos, flores, bicicletas, pequenos almoços, estrelas de televisão e gadgets.

Se os blogues americanos procuram ganhar visibilidade enquanto autoridade no seu campo, os japoneses são frequentemente anónimos e funcionam como arquivos para os seus pensamentos e informações que vão recolhendo. Ao lado discursivo dos blogues americanos corresponde um estilo japonês de narrativa pessoal. Os blogues japoneses evitam a polémica ou o escrever negativamente sobre algo, talvez o lado conformista ou tranquilo da sociedade oriental de busca de consensos.

Quando escrevo aqui, reconheço-me em algumas destas perspectivas. Por vezes, escrevo sobre o que leio, sobre os sítios por onde passo e as observações sobre isso. Mas também procuro exprimir o que sinto sobre o que acontece, com tomada de posição. Ainda há dias, escrevia sobre o provedor do ouvinte da rádio pública. Embora de modo contido, manifestei a minha opinião, aliás retomada em outros blogues, como
Contrafactos & Argumentos, de Pedro Fonseca, e Blogouve-se, de João Paulo Meneses. As posições destes blogueiros, embora não exactamente concordantes com a minha, demonstram outra característica dos blogues não acentuada no artigo que refiro no topo da mensagem: a circularidade de opiniões, que se torna riqueza de pontos de vista.

14.12.07

DOM SÉBASTIEN, ROI DE PORTUGAL - DE DONIZETTI/SCRIBE


Ópera de Gaetano Donizetti (libreto de Augustin Scribe), Dom Sébastien roi de Portugal foi estreada em Paris em 13 de Novembro de 1843. Narra a história da luta do rei português D. Sebastião contra os mouros. Na história da ópera, D. Sebastião, apesar de ter perdido, é salvo por Zayda.

Hoje, de manhã, Vítor Oliveira, docente da Universidade Católica, apresentou uma comunicação sobre esta ópera e o seu trajecto desde então, nomeadamente a sua representação no Carnegie Hall. Integrado no encontro Nova Iorque - de topos a utopos, como aqui fizera eco dias atrás, uma realização do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura.

EDIÇÕES RECENTES - 2


A revista Comunicação e Cultura, do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa (edição da Quimera) publicou o seu número 4, com o título Terror e Terrorismos.

Traz artigos de Susan Sontag (Olhando a tortura dos outros), José Augusto Mourão (Para uma semiótica do terror (branco) - em torno de O Terrorista de John Updike), Isabel Gil (Terrores nocturnos. A noite e a estética noir em Edgar Allan Poe), Miguel-Pedro Quádrio (A ira dos espectros inúteis. O terror em duas variações contemporâneas do Macbeth, de Shakespeare), Carlos Gaspar (Três proposições sobre a guerra e a democracia), Nuria Quintana Paz (Televisión pública y 11-M. La información sobre terrorismo en campaña electoral) e Pedro Rivas Neto e Pablo Rey García (Terror armado, terror sin armas. "Programa de Paz y Reconciliación" de la Alcadía de Medellín y desmovilización de combatientes (2004-2006).

Da introdução, assinada por Fernando Ilharco, lê-se: "O terror, conforme à sua etimologia, assenta o desenvolvimento naquilo que cultural, política e metafisicamente marca a Terra - hoje é a globalização, a simultaneidade, o ao mesmo tempo em todo o mundo: a explosão, o fogo, o caos, a noite".

Fora do dossiê, dois outros artigos preenchem a publicação: Luísa Leal Faria (De Bologna a Bolonha. Novecentos anos de graus e símbolos académicos) e Ciro Marcondes Filho (As imagens que nos aprisionam e a escapada a partir do corpo. Sobre Dietmar Kamper). Uma entrevista a Barbie Zelizer (por Rita Figueiras), recensões e montra de livros fazem ainda parte da revista.

EDIÇÕES RECENTES - 1


Saiu agora o número 3 da revista Conhecer a FCH, conferências multidisciplinares, da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa. O número tem o título Cultura e conflito e resulta das comunicações de duas conferências, a primeira designada "Culturas da cidadania" e a segunda com o nome de "Conflitos epistemológicos". As comunicações couberam a, na primeira conferência, Ana Maria Costa Lopes, Jorge Pereira da Silva, Rui Marques, Catarina Batista e Mónica Dias (com nota introdutória de José Miguel Sardica) e, na segunda conferência, a Carlos H. do C. Silva, Mário F. Lages, Marília dos Santos Lopes e Peter Hanenberg ((com nota introdutória de Jorge Fazenda Lourenço).

Retiro um excerto da nota introdutória assinada por José Miguel Sardica:

Poucos conceitos existirão tão polissémicos como o de "cidadania", tanto na sua dimensão histórica como na sua acepção estritamente política, nos seus pressupostos morais e na sua expressão de envolvimento social na comunidade em que é vivida. [...] A cidadania é assim não apenas um simples estatuto legal individual, mas também a expressão de um sentimento de vivência partilhada, patente nas mais diversas esferas da participação política, da actividade económica, dos laços sociais, da expressão cultural, em suma, da forma mentis e do modus operandi da Cidade (no sentido com que os Antigos utilizavam o termo).

Aqui, dei já indicação da edição dos anteriores números, o
1 e o 2.

13.12.07

BLOGUES NOVOS EM BRAGA


A partir do programa quinzenal da Rádio Clube–Braga intitulado Trio de Jornalistas, dedicado à reflexão sobre o mundo do jornalismo, surgiu o blogue Trio de Rachar, composto por Luísa Teresa Ribeiro (Diário do Minho), Pedro Antunes Pereira (Jornal de Notícias) e Pedro Costa (Rádio Clube).

Em complemento a esta reflexão, Luísa Teresa Ribeiro está ainda no blogue
A Culpa é Sempre dos Jornalistas.

Longo futuro para estes blogues bracarenses!

CONCURSO DE CANTIGÁRIOS DE LETRAS DE MÚSICA E TEXTOS DE MPB


A editora Guemanisse (Brasil) está a promover um concurso, procurando "incentivar a música e a literatura no país, dando ênfase na publicação de textos e na gravação de canções". O concurso envolve cantigários de letras de música e textos de MPB, composto por duas categorias distintas: a) letras de música, e b) textos de MPB.

Para conhecer o regulamento consultar o sítio acima indicado ou solicitar para o email
editora@guemanisse.com.br.

PEÇA DE TEATRO DE ANTON TCHÉKOV EM COIMBRA


Na estrada real, de Anton Tchékov, é a peça em representação na Escola da Noite - Grupo de Teatro de Coimbra (Rua Pedro Nunes, Oficina Municipal do Teatro), à Quinta da Nora, em Coimbra, de 13 a 23 deste mês. Para saber mais, procurar no sítio de A Escola da Noite.

ANTÓNIO JOSÉ TEIXEIRA - DIRECTOR DA SIC NOTÍCIAS


António José Teixeira assume o cargo de director da SIC Notícias, em substituição de Ricardo Costa, agora director-geral adjunto da SIC. Isto logo depois de Nuno Santos assumir o cargo de director de programas da SIC, abandonando a RTP.

António José Teixeira foi director do Diário de Notícias - onde não teve tempo para fazer as alterações que se impunham naquele jornal de referência - e era, desde há muito pouco tempo, director do curso de Comunicação e Jornalismo da Universidade Lusófona.

O blogueiro endereça votos de felicidades e muitos êxitos ao novo director da SIC Notícias!

A ARTE DO CINEMA


Lançamento do número especial da revista de cinema documental Docs.pt. Actividades no Museu do Chiado e no Instituto Franco-Português, dias 20 e 21 de Dezembro.

12.12.07

CAMPANHA DE INCLUSÃO SOCIAL


A parceria do Projecto Isto Inclui-me: da Participação à Inclusão foi criada por iniciativa dos membros do Secretariado Executivo do Fórum Não Governamental de Acção para a Inclusão (FNGIS) (
Forum Inclusão) . Actualmente, a parceria engloba as seguintes instituições: Animar – Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local, APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, Cruz Vermelha Portuguesa, FENACERCI – Federação Nacional de Cooperativas de Solidariedade Social, REAPN – Rede Europeia Anti-Pobreza Portugal e ISS – Instituto da Segurança Social, IP.

Das razões do Projecto Isto Inclui-me: da Participação à Inclusão destacam-se: "O desenvolvimento da investigação social e a disseminação desse conhecimento no universo das organizações públicas e particulares vocacionadas para a intervenção social tem permitido consolidar a noção de que a Pobreza e a Exclusão Social são fenómenos de natureza essencialmente colectiva. A pobreza e a exclusão social são, sobretudo, resultado de formas de organização social".

Para saber mais sobre esta instituição, clicar aqui.

Chamo a atenção para a actual campanha, nomeadamente os cartazes que a promovem, pelas suas leituras denotativa e conotativa.

11.12.07

INDÚSTRIAS CRIATIVAS E CULTURAIS EM JUSTIN O'CONNOR


The Cultural and Creative Industries: A Review of the Literature é um relatório escrito por Justin O'Connor (professor de Indústrias Culturais da Universidade de Leeds) e publicado muito recentemente (Novembro), com 68 páginas (
aqui já referenciado) [na imagem, uma das capas possíveis do texto, antes da sua edição].

Compõe-se de cinco capítulos: 1) conceito de indústria cultural em Theodor Adorno, 2) autores dos anos 70 que reflectiram sobre o conceito adorniano, 3) discurso do consumo cultural, 4) economia urbana e imagem cultural das cidades, e 5) indústrias criativas.

O capítulo 1 debruça-se sobre Adorno, a cultura moderna e a estética modernista, os produtos e bens culturais e a reprodução tecnológica, a produção de bens, os media e a comunicação, a separação da produção e consumo cultural, o mercado e as políticas culturais, a cultura de massa e industrial. O capítulo 2 parte de duas escolas com grande representatividade no Reino Unido - estudos culturais (designados frequentemente pela forma inglesa de cultural studies) e a economia política da cultura -, o valor de uso cultural, a multiplicidade de indústrias culturais, as condições do artista independente e a passagem da indústria cultural para a política das indústrias culturais.

Já o capítulo 3 observa a passagem das indústrias culturais para as indústrias criativas, incluindo a mudança de políticas culturais económicas locais, a variedade de mercados, a "mudança espacial" (em articulação com a "viragem cultural", onde se fala de especialização flexível), o nascimento e a expansão de pequenas e médias empresas (PME), bem como as novas culturas de trabalho, essenciais para o funcionamento das indústrias culturais e criativas. O capítulo 4 aborda as cidades criativas, através da redescoberta das cidades e o aparecimento de um novo urbanismo, com a criação de meios e espaços inovadores e de redes de contactos (trabalho independente, consumidores activos, proximidade, conhecimento).

Está, assim, preparado o caminho para o quinto e último capítulo, o das indústrias criativas, em que impera um novo espírito (cinema, moda, música, optimismo), com Justin O'Connor a fazer o inventário do trabalho do DCMS - abordado na mensagem anterior -, onde o conceito de indústrias culturais cede o lugar a indústrias criativas. Perde-se o lado conotativo da cultura (ligado à arte ou a actividades não económicas), mas recuperando o espírito de criatividade na nova economia liderada pelas tecnologias digitais, próximas da "sociedade da informação" e da "economia do conhecimento", conceitos que tiveram grande influência na década passada. Justin O'Connor fala mesmo de renovamento de marca.


O capítulo 5 conclui com o recurso a definições de vários autores, entre os quais David Throsby, David Hesmondhalgh e Alan Scott - alguns dos quais irei revisitar -, bem como trabalhos encomendados, caso da Work Foundation , que ontem trabalhei
aqui.

10.12.07

DIMENSÃO DAS INDÚSTRIAS CRIATIVAS


Desde 2001 que o DCMS (Department for Culture Media and Sport) - estrutura pertencente ao governo inglês - produz estimativas anuais quanto à dimensão das indústrias criativas na economia do Reino Unido. O DCMS usa dados do Instituto Nacional de Estatística do Reino Unido (ONS) para calcular o seu contributo em termos de emprego, valor acrescentado bruto (VAB) e exportações.

Em texto recente do
Programa de Economia Criativa (4 de Setembro de 2007) , o DCMS levantou um conjunto de sectores e concluiu que: 1) as grandes empresas são importantes nas indústrias criativas, constituindo as 200 maiores perto de 50% dos investimentos totais no sector, 2) o crescimento nas indústrias criativas é conduzido por empresas jovens e inovadoras, representando 48% no período de 1995-2005, 3) a taxa de sobrevivência das empresas criativas é semelhante à dos outros sectores, 4) as empresas maiores enquadram os especialistas mais criativos, 5) as indústrias criativas apresentam bons níveis de produtividade e inovação.

No presente ano, o Programa de Economia Criativa desenvolveu seis projectos que procuraram compreender o contributo directo (e indirecto) das indústrias criativas na economia britânica, quais as vantagens competitivas do Reino Unido face a outros países e que barreiras particulares elas estabelecem no desenvolvimento da produtividade geral do país.

A investigação usou uma classificação industrial (SIC na sigla inglesa, Standard Industrial Classification), a qual leva a uma cadeia de valor que permite um melhor conhecimento das partes mais criativas de cada indústria. Uma cadeia de valor decompõe-se em cinco patamares - como mostra a primeira figura abaixo, enquanto a segunda dá conta dos níveis de emprego em cada patamar. O primeiro patamar representa as actividades mais criativas, como a composição musical, a programação dos videojogos e a escrita na indústria editorial. Já o segundo patamar indica as actividades ligadas directamente ao patamar anterior, como a escolha de um elenco nas artes performativas.

Se o terceiro patamar inclui actividades como a produção de hardware que serve directamente o processo criativo (a construção de câmaras de televisão para os programas de televisão), o quarto patamar inclui a produção e venda de matérias-primas usadas no consumo dos produtos das indústrias criativas e o quinto patamar é potencialmente a actividade menos criativa, abrangendo produtos usados pelo consumidor como um leitor de DVD ou uma consola de videojogos.

INDÚSTRIAS CRIATIVAS SEGUNDO A WORK FOUNDATION


A Work Foundation publicou em Junho deste ano o documento Staying ahead: the economic performance of the UK’s creative industries.

Para Will Hutton, director executivo da Work Foundation, o programa de economia criativa, lançado em Novembro de 2005, procurou "criar o melhor quadro de apoio à inovação, crescimento e produtividade das indústrias criativas. Foi concebido como relação permanente entre Governo e indústrias criativas, com identificação de problemas e encontro de soluções num sector cada vez mais significativo da economia do Reino Unido".


Seguindo o modelo circular concêntrico de
Throsby [imagem da direita], a Work Foundation apresenta um centro criativo incluindo as formas de produtos originais, como a cultura popular (e os programas de computador) mas excluindo as artes. Segue-se um círculo exterior, o das indústrias culturais clássicas (filme, televisão, rádio, indústria fonográfica, jogos de computador), cujo objectivo é a sua comercialização. Depois, ainda mais externo, vem o círculo das indústrias criativas que incluem produtos originais associados com funcionalidades, como moda e publicidade.

O relatório fala de 13 indústrias criativas (que valem 7,3% da economia, comparável à indústria financeira, e empregam 1 milhão de pessoas e mais 800 mil em ocupações criativas) e da associação desta ideia com as de criatividade (ou talento), inovação, economia do conhecimento e valor expressivo (representado, por exemplo, em programas de software, videojogos e material cultural interactivo gerado pelo utilizador na internet). As 13 indústrias criativas são: antiguidades, arquitectura, artes performativas, design, edição, filme e vídeo, moda, música, ofícios, publicidade, serviços de software e de computadores, software interactivo de lazer, televisão e rádio.

Os motores de sucesso da economia criativa, ainda segundo o mesmo estudo, são: 1) procura, 2) grande diversidade, 3) território que encoraja a experimentação e a inovação, 4) formação e conhecimento, 5) redes, 6) sector público como garante institucional, 7) propriedade intelectual, e 8) grande capacidade de criar empresas de pequena e média dimensão.

O LIVRO E OS NOVOS DESAFIOS: CONCENTRAÇÃO EMPRESARIAL E DIGITALIZAÇÃO


Gloria Gómez-Escalonilla escreveu sobre políticas do livro (2007), partindo dos seguintes tópicos: 1) desenvolvimento da edição ligado ao sector privado, mas com apoio das entidades públicas, 2) desequilíbrio regional, nacional e de comunidade de países, com necessidade da excepcionalidade cultural, 3) altos índices de concentração empresarial e multinacional que prejudicam a pluralidade e diversidade nacionais e culturais.

No seu texto, Gómez-Escalonilla analisa a situação actual da indústria editorial (diversidade cultural, indústria e internet), as políticas culturais que afectam o livro (em especial o caso espanhol) e medidas concretas para corrigir os efeitos negativos do mercado.

A autora realça o livro impresso sob a dinâmica do best-seller, favorecida pela concentração empresarial no sector editorial. Esse maior peso dos grandes grupos editoriais implica selecção de obras, pois o critério cultural faz-se preceder de expectativas de vendas. Os livros vendem-se menos nas livrarias de bairro e mais em cadeias de livrarias e nas grandes superfícies que, por estratégia comercial, limitam os livros expostos aos best-sellers. A concentração nos mais vendidos prejudica livros e autores que vendem menos. Há muitos livros que não chegam às livrarias, idos directamente da impressão para os armazéns. Tal paradoxo, de fabricar livros para os não vender, é efeito da superprodução de títulos, estratégia de técnica de mercado que permite jogar com os efeitos novidade e catálogo. Esta dinâmica está a contribuir para uma mudança nas motivações da actividade leitora: se o objectivo principal da leitura era a instrução e o conhecimento, agora transforma-se em leitura de evasão e ócio.

Um outro elemento analisado por Gloria Gómez-Escalonilla respeita as mudanças no sector com a revolução digital, em que a primeira é a trazida pela internet para o mundo editorial: servir como novo canal de venda de livros. Diferentemente das livrarias virtuais, as editoras on-line são iniciativas sem vínculo ao sector tradicional. Mas a incerteza que existe em torno da digitalização, dado que a rede premeia a cultura da gratuitidade e da acessibilidade aos conteúdos, torna pouco rentável a venda dos livros virtuais. O medo da pirataria digital impede o desenvolvimento do mercado e da modalidade da edição on-line.

A investigadora deteve-se ainda nos principais desafios a enfrentar: direitos do autor, índices de leitura, preço fixo, livro digital, fomento da leitura (com difusão e acesso ao livro na biblioteca), dotação de fundos e criação de bibliotecas digitais, trabalhos sobre hábitos de leitura e campanhas de comunicação e publicitárias permanentes. Igualmente, defendeu a necessidade de apoio às PME que concorrem com os grandes grupos como garante da edição de textos minoritários e especializados. Se a edição de livros na internet chega a representar uma redução do custo em 30% (10% na distribuição e transporte, 20% de gestão e armazenamento), o reconhecimento do livro digital significará uma definição do livro face à realidade do livro multi-suporte, com implicações fiscais: em termos de IVA, o livro é taxado a 4% e o suporte digital a 21%.

Pontos fortes do texto: avalia o impacto do livro na sociedade e perante alterações tais como a concentração empresarial (produção e distribuição) e a digitalização e a internet.

Pontos fracos do texto: apresenta soluções muito estatistas no apoio às PME, quando no início do artigo ela referencia o sector, no seu todo, como estando economicamente muito forte; há autores que passam o umbral do desconhecimento e tornam-se muito vendidos, sem que o texto reflicta nesse fenómeno.

Leitura: Gloria Gómez-Escalonilla (2007). "Políticas del libro. Análisis y propuestas". Em J. M. Álvarez Monzoncillo, J. C. Calvi, C. Gay, G. Gómez-Escalonilla e J. López Villanueva Alternativas de política cultural. Las industrias culturales en las redes digitales (disco, cine, libro, derechos de autor). Barcelona: Gedisa