segunda-feira, 30 de maio de 2005

INDÚSTRIAS CULTURAIS - II

[continuação do texto de 29 de Maio]

Em análise, proponho a leitura de vários textos sobre indústrias culturais. Um deles, voltado para o mercado – embora mantendo uma vertente cultural – é a do Forum M (Roberto Carneiro e colegas, 2000), em que as indústrias de conteúdo cultural se distinguem com base nestas definições: 1) cultura – património de símbolos, de códigos interpretativos e de modelos de relacionamento que representam o modo de ser de um povo (nação) e que foram sendo cristalizados como expressão decantada do seu drama de vida e das vicissitudes da sua história; 2) conteúdos culturais – expressão organizada das diversas perspectivas em que se desdobra a cultura tendo por finalidade a sua transmissão experiencial ou comunicação sistematizadas; 3) indústria de conteúdos culturais (ICC) – actividade centrada sobre empresas, mercados e clientes de conteúdos culturais, tendo por fundamento a sua transformação/difusão permanentes de modo a acrescentar-lhes valor e a criar utilidade económica.

Ao aceitar-se tal ponto de partida, ressalta que a própria existência das ICC postula uma relação económica de mercado nas transacções de bens culturais. A prevalência de factores intangíveis numa economia desmaterializada faz sobressair a importância da manipulação de símbolos nas cadeias de valor: o marketing, o branding, a gestão das relações de lealdade, o conceito de produto extensivo que incorpora serviços e satisfação do cliente, a competição dos call centres, a inteligência comunicacional. Os agentes económicos intervenientes nessa relação buscam a sustentabilidade nas leis do mercado e na esfera dos interesses empresariais predominantes.

Indústrias culturais e interrelacionamento

Já para Maria de Lourdes Lima dos Santos (1999), ela parte do princípio da necessidade de relacionar os processos de produção, distribuição e consumo de bens e serviços culturais das indústrias culturais com o sector clássico ou tradicional e o sector de vanguarda ou experimental. Ela define assim as indústrias culturais: "Quando os bens ou serviços culturais são produzidos, reproduzidos e difundidos segundo critérios comerciais e industriais, ou seja, quando se trata de uma produção em série, destinada ao mercado e orientada por estratégias de natureza prioritariamente económica. E o que cabe, concretamente, neste sector das indústrias culturais? Em geral, refere-se o cinema, o disco, o rádio, a televisão, mas também se avança a informática, a publicidade e o turismo, ou ainda, a organização de espectáculos e o comércio da arte" ("Arte e media: indústrias ou cultura". Sociologia, Problemas e Práticas, 1990, 8: 163-166.



Consideram-se três ordens de relação: (1) relação das indústrias da cultura com as outras indústrias, em que se entendem as indústrias da cultura como as actividades industriais que integram trabalho cultural ou artístico directamente nos seus produtos; (2) relação das indústrias culturais entre si, pois não constituem um conjunto homogéneo; (3) relação das indústrias culturais com outras formas culturais.

Quanto à primeira relação, das indústrias culturais com as outras indústrias, coexistem, a nível do processo produtivo, estruturas produtivas variadas, que vão do assalariamento à profissão liberal e pequena produção independente. A concentração do grande capital permite a existência de bolsas de produção independente. É o caso dos produtores independentes de cinema face às majors, em que o sucesso das inovações daqueles é apropriado por estas. A nível do produto, distingue-se entre mercadoria industrial e mercadoria cultural. Mesmo quando os produtos culturais são de grande reprodutibilidade e admitem uma economia de escala e de gama (filmes no cinema e que passam para a TV e o vídeo), o valor de uso da mercadoria cultural apresenta-se com um grande grau de incerteza de sucesso. A nível do mercado, regista-se um grau elevado de imprevisibilidade. Daí o uso de estratégias de promoção (star-system, recurso a mediadores culturais).

Segundo, na relação das indústrias culturais entre si, há dois universos distintos. O primeiro é o da criação, que mesmo sendo cada vez menos a obra de um só, permanece como lugar da relação única entre os criadores. O segundo é o dos meios de reprodução e de difusão. Por exemplo, a integração do trabalho cultural e artístico no processo produtivo industrial pode ser maior ou menor conforme a indústria cultural e o grau de reprodutibilidade.

Finalmente, na terceira ordem de relações, entre o sector das indústrias culturais e outros sectores culturais (clássico e experimental), delineiam-se duas premissas: (1) qualquer um dos sectores é tomado como um sistema complexo que integra elementos diversificados; (2) há permeabilidade entre os vários sectores, quer no plano da produção, quer no plano da distribuição e do consumo. Um exemplo de interdependência é o da relação entre espectáculo gravado e espectáculo ao vivo.

[continua]

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