30.4.05

MEMÓRIA DAS PALAVRAS DE GOMES FERREIRA

Conhecido como poeta militante, escrevo aqui sobre esse livrinho de recordações autobiográficas, manancial de referências a uma época que gosto de estudar - as décadas de 1920 e 1930 -, A memória das palavras ou o gosto de falar de mim, editado pela Portugália (li a edição de 1972). Nascido na rua das Musas, no Porto, em 1900, José Gomes Ferreira quatro anos depois transferiu-se, com a família, para Lisboa, onde passou praticamente todo o resto da sua vida.

Gomes Ferreira treinou-se como jornalista em Democracia (1920-1921): "A categoria dos redactores e colaboradores excedia a cotação habitual dos quadros jornalísticos do Partido Democrático; mas os resultados obtidos roçavam pela mediocridade, devido à má organização técnica do periódico em que as gralhas tornavam irreconhecível o mínimo trecho" (p. 114). Apesar disso, ele experimentou tudo: crónicas, reportagens, «sueltos», artigos de fundo, críticas teatrais, "pilhas e pilhas de linguados, muitos deles improvisados de madrugada, à triga-triga". Foi a época de se familiarizar com a boémia nocturna dos trabalhadores dos jornais, acrescenta.

Logo depois, colaborou com Os Filisteus, jornal-panfleto editado em 6 de Janeiro de 1921, com o custo de dez centavos. Dele, nasceu uma luta entre republicanos e elementos do Integralismo Lusitano, de António Sardinha, com desordens no café Martinho da Arcada na noite seguinte, e que envolveu as forças da Guarda Republicana e a intervenção do governador civil obrigando o encerramento do café (p. 258). Avisa: "Nunca fui seareiro [da Seara Nova], como sabem. Mas nesse dia qualquer de Outubro de 1921 vadiei todo a tarde pelas ruas de Lisboa, a cantar sozinho, de mãos nas algibeiras" [há aqui uma diferença entre Janeiro e Outubro, que este animador do blogue não consegue explicar].

Da poesia de gaveta às actividades publicitárias

Mas já era jornalista desde há muito - ou pelos menos o tinha augurado um seu professor do secundário, o padre Fiadeiro, quando Gomes Ferreira escreveu uma redacção sobre Alexandre Herculano: "Hás-de ser jornalista" (p. 33). No recuado período de 1917-1918, tornara-se director da revista Ressurreição (revista de arte e vida mental), ainda adolescente, com a suplementar obrigação de pagar contas e solicitar originais, motivo que, aliás, serviria de tema para os seus próprios exames liceais.

E, desde cedo, Gomes Ferreira decobrira-se também como poeta - conciliando o interesse íntimo (a poesia) com as necessidades de ganhar dinheiro ou servir de ponte para outras actividades (o jornalismo). Editou Lírios do monte em 1918, com capa de Stuart Carvalhais, e Longe, em 1921. Depois, durante a estadia na Noruega como consul, a poesia era um pretexto para continuar a escrever português (poesia para a gaveta, enquanto ia tocando ao piano com um amigo norueguês).

Daquele país frio, passou a colaborar com a revista Imagem, ligada ao cinema. Estava-se em 1925. No regresso, perdeu um pouco o rasto aos amigos poetas e passou a incluir-se num círculo diferente, devido às suas actividades na publicidade cinematográfica - ou subliteratura, literatura-prostituição e literatura-ganha-escudos, escondido em pseudónimos. Para além da Imagem, escreveu na Ilustração da Bertrand, no Girassol, sob nomes como Caçador de imagens e Álvaro Gomes.

Em O senhor doutor, para o qual fora convidado por António Lopes Ribeiro, assinava Avô do cachimbo. As histórias do João sem medo eram criadas num improviso semanal, o que obrigava Ofélia Marques a procurar saber a acção do episódio seguinte para ter tempo de desenhar a ilustração adequada (p. 200). Também escreveu a Arte da verdadeira elegância, tratado sobre corpos e vestidos femininos, estabelecendo para a Pompadour a distinção entre cinta e espartilho. E fez "filmecos" de reclamos a móveis e sapatos para José Rocha (do E.T.P.) (p. 171). Isto num momento de aproximação ao neo-realismo, na altura em que conheceu Mário Dionísio, em 1937, tinha este ainda 20 anos (p. 212).

"Só se protegem as artes mortas. As vivas toleram-se. E as demasiado vivas perseguem-se"

Gomes Ferreira travou muita proximidade com pintores, desenhadores, arquitectos: Ofélia e Bernardo Marques, que seriam os padrinhos do seu primeiro filho, Carlos Botelho, o suíço Fred Kradolfer, Maria e Francisco Keil do Amaral, Diogo de Macedo e Cottinelli Telmo. Deste, acompanhou a produção e montagem do filme A canção de Lisboa. Conheceu Bento de Jesus Caraça e reencontrou José Rodrigues Miguéis (p. 167). Mas também Carlos Queiroz, Olavo de Eça Leal, António Lopes Ribeiro, Leitão de Barros e Bernardo Marques, todos colaboradores da revista Imagem, inventada por Chianca Garcia nos bastidores do São Luís para defender o cinema sonoro da saudade dos admiradores do mudo.

José Gomes Ferreira e Bernardo Marques foram muito amigos, como se realçou atrás. Em 1931-1932, Gomes Ferreira encontrou Bernardo Marques nas páginas do Girassol. Depois, Gomes Ferreira era o chefe de redacção e Bernardo o orientador artístico da Ilustração, durante o período da direcção de António Ferro. Bernardo e Ferro também eram amigos íntimos entre si, apesar de clivagens políticas evidentes.

Bernardo, conta Gomes Ferreira, tinha personalidade dupla: havia um sonhador, que queria fazer uma revista de sátira e crítica social, e um prático, que trabalhou para o SPN (Secretariado de Propaganda Nacional, de Ferro), onde desenhava o turístico e o pitoresco regional. Ele conseguiu ultrapassar essa época do decorativo (p. 305) e tornar-se um nome de referência na pintura e ilustração portuguesa.

29.4.05

PEQUENAS NOTAS

DNA, sempre!

Não sei se já escrevi neste espaço, mas só não guardo o suplemento do Diário de Notícias de sexta-feira porque a casa já não tem mais sítios para armazenar papel. Mas que dá muito gosto lê-lo sempre isso é verdade. Hoje o tema de capa - que eu amputei porque o scanner tem o tamanho do A4 - é E agora, Ricardo?. Refere-se a Ricardo Pais, o encenador do S. João (Porto), numa bela entrevista conduzida por Anabela Mota Ribeiro.

E o suplemento irmão DN:música também faz parte das minhas leituras obrigatórias, com os textos de Nuno Galopim. Na presente edição, ele escreve sobre os Tears for Fears - já passaram 16 anos desde o último álbum deles? O tempo voa, escoa, passa.

Blogue A Cidade Surpreendente

Entre nós (isto é, da minha parte), houve uma falha de comunicação. Contudo, não posso deixar de repetir o prazer de navegar nas páginas de A Cidade Surpreendente, de Carlos Romão, como o já fiz aqui. Numa das fotografias que colocou na última quarta-feira, os prédios a sul da praça do Infante (Porto) têm uma luz poente realmente surpreendente.

À esquerda, já fora do ângulo da fotografia, havia um pequeno restaurante chamado Standar Bar [esqueceram-se do último d de Standard]. Os pastéis de bacalhau [no Porto, a palavra é bolinhos], a açorda de mariscos e o polvo frito eram pitéus inesquecíveis.
DIA MUNDIAL DA LIBERDADE DE IMPRENSA

O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa decorrerá no próximo dia 3 de Maio, marcado por uma conferência em Londres, segundo a newsletter da European Jornalism Centre, que me chegou há minutos atrás.

A conferência, organizada pela WAN (World Association of Newspapers) e pela Open Society Foundation, terá a presença de familiares de jornalistas assassinados. Um dos painéis contará com especialistas dos media que discutirão o problema dos assassinos de jornalistas, evadidos da justiça. A WAN estima haver mais de 500 journalistas mortos na década passada, em que oito em cada dez assassinos se mantêm livres sem cumprimento de penas de prisão.
APANHADO NA CORRENTE

Foi a Soledade Santos, do blogue Nocturno com gatos -, com que partilho, através da comunicação electrónica, uma admiração por Salamanca, e a quem já desafiei a organizar uma tertúlia para ouvir a sua poesia - que me levou a entrar na corrente. Confesso que demorei uns dias a organizar a passagem da corrente. Mas aí vão as minhas respostas e as(o) blogueiras(o) a quem dou o testemunho.

1. Não podendo sair do "Fahrenheit 451", que livro quererias ser?
Desde há muito que digo: quando for grande quero ser Patrice Flichy. Não é inveja, mas aprecio o percurso dele, das telecomunicações à história das mesmas, passando pela sociologia da comunicação e pela direcção da revista Reseaux, uma das melhores do género no mundo. Assim, gostaria de ser o livro dele: Une histoire de la communication moderne - espace public et vie privée. Ou, na versão inglesa (que também comprei, pensando estar a adquirir outro livro): Dynamics of modern communication. The shaping and impact of new communication technologies.

2. Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?
Penso em dois personagens. No recente Yambo/Giambattista Bodoni, do livro de Umberto Eco, A misteriosa chama da rainha Loana, de que já fiz alusão neste blogue. No mais antigo Ryuji, de Yukio Mishima, em O marinheiro que perdeu as graças do mar. A perda da memória ou o receio de ser esquecido/rejeitado é um problema meu (o que me arranjou a corrente: vou já consultar um psicanalista).

3. Qual foi o último livro que compraste?
O último, em termos de trabalho, foi o de Gustavo Cardoso e colegas, ontem, chamado A sociedade em rede em Portugal. O último, em termos de prazer, foi um álbum-catálogo, El alma de Almada el impar, organizado pela Câmara Municipal de Lisboa, com textos de João Paulo Cotrim e Luís Miguel Gaspar, exposição de há um ano atrás aqui a cem metros, no palácio Galveias, que eu perdi. O último livro que encomendei (mas ainda não comprei e não fixei o nome) é um livro duplo sobre revistas masculinas americanas (ponho aqui, porque o livreiro me garantiu disponibilizar a obra esta semana).

4. Qual o último livro que leste?
É a pergunta mais difícil, pois não me lembro muito bem. Completos, completos, foram os livros de Umberto Eco acima referido e o segundo volume de Rui Estrela, A publicidade no Estado Novo. Mas li jornais e revistas entre a semana passada e esta: Algarbh (1922), Jornal de Portimão (1925-1926), Vibração (1931), Espectáculo (1936-1937), Brisa (1946-1948). Razão: um jornalista e a relação entre jornalismo e cinema.

5. Que livros estás a ler?
José Gomes Ferreira (A memória das palavras ou o gosto de falar de mim, edição de 1972) [já teria acabado se não fosse este inquérito], o livro de Gustavo Cardoso e colegas já apresentado atrás, John Hartley (2005, Creative industries, para preparar uma aula de seminário para dentro de duas semanas). Os outros estão perdidos no meio dos papéis aqui no escritório.

6. Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
A Bíblia, Marcel Proust (À procura do tempo perdido, agora numa tradução nova de Pedro Támen) e Walter Benjamin (as suas obras, agora em tradução de João Barrento). E esperava que me resgatassem rapidamente da ilha deserta.

7. A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
Ao amigo galego Brétemas, por uma grande similitude dos nossos blogues, a Sônia Bertocchi, de S. Paulo (Brasil), que lançou um muito recente blogue, o Lousa Digital [eu já conhecia a Sônia e o seu percurso académico - e também o Rubens -, através da sua filha mais velha, a qual está a trabalhar e estudar na Universidade do Minho], e Elsa de Sousa, do delírios2004, ainda uma jovem jornalista, do eixo Coimbra-Figueira da Foz, a que desejo muitos sucessos.
UMA MEMÓRIA CINEMATOGRÁFICA: COMO VIU A REVISTA ESPECTÁCULO A ESTREIA DO FILME BOCAGE (1937)

António Ferro procurava aplicar a sua política do espírito ao cinema, a estética do Estado Novo. Leitão de Barros, como cineasta, tivera um promissor começo.

A revista não gostou do filme, não por causa da nova estética mas pelo enredo. Armando de Miranda, director da publicação, aplicou os mesmos defeitos que encontrara no filme Os quatro trevos, de Chianca Garcia. À figura do do poeta, escreve o jornalista, a sua verdade psicológica foi sacrificada "ao desejo de «épater le bourgeois» com um filme de grande espectáculo, como se faz lá fora". Era uma crítica vista da perspectiva do nacionalismo.

28.4.05

LANÇADO LIVRO A SOCIEDADE EM REDE EM PORTUGAL

Hoje, de manhã e no ISCTE, foi lançado o livro A sociedade em rede em Portugal, de Gustavo Cardoso, António Firmino da Costa, Cristina Palma Conceição e Maria do Carmo Gomes, uma edição da editora Campo das Letras. Tmabém presente João Caraça, que prefaciou o livro e representou a Gulbenkian, patrocinadora do projecto agora convertido em obra.

redeemportugal.jpgPara o primeiro dos autores, Gustavo Cardoso - sobre quem eu escrevi recentemente, a propósito da sua tese de doutoramento -, a realização deste estudo deve-se a que a sociedade está em transição, caminhando para a sociedade em rede. Há uma ligação próxima com o conceito definido nos livros de Manuel Castells, que escreve, aliás, o primeiro capítulo. A sociedade em rede exprime-se através de quatro palavras-chave: informação, redes, criatividade, autonomia. A que Cardoso acrescentaria outra: língua (português, inglês, matemática, informática).

O estudo

Como metodologia do estudo foi feito um inquérito extensivo por questionário, num total de 2450 respondentes, amostra representativa da população portuguesa. O trabalho de campo decorreu entre Março e Junho de 2003.

No ano em que foi feito o estudo, 40% da população portuguesa era utilizadora da internet. 2/3 dos cibernautas tinham começado a navegar na net em 1998, o que dá conta da modernidade do fenómeno. Uma das autoras, Cristina Conceição, distingue dois factores no acesso: idade e escolaridade. Quanto mais jovens e escolarizados maior a propensão para a adesão à internet. Contudo, os mais velhos têm um consumo mais demorado de internet (fins práticos, profissionais e culturais), com os jovens a usarem mais ocasionalmente (lazer e conversação). No acesso à net, o contexto doméstico é o mais privilegiado.

Outra das autoras, Carmo Gomes, defende, a partir dos dados do inquérito, que não se confirma o receio de perda de sociabilidade devido ao uso das tecnologias electrónicas de informação. Conclui mesmo por uma maior sociabilidade, com criação de redes informais familiares e de amigos. Há, assim, novas práticas comunicativas, com um uso de múltiplas funções: lazer, informação e cultura. Apesar da expansão da utilização dos computadores e da internet, a televisão continua a hegemonizar as práticas mediáticas, mas articulando-se no consumo dos outros media.

O estudo foi feito no quadro das pesquisas do CIES (Centro de Investigação e Estudos de Sociologia), organismo do ISCTE liderado por António Firmino da Costa, outro dos autores do livro e também presente no seu lançamento.
UM NOVO BLOGUE

A seguir com atenção o novo blogue de Sônia Bertocchi, Lousa Digital. Desejo muitos posts e longa vida à blogueira de São Paulo, ali do outro lado do Atlântico.
2º ENCONTRO DE BLOGUES

O 2º Encontro de Blogues está em preparação (já com marca de imagem própria). Pode ser consultado o programa preliminar do encontro em 2º encontro de blogues. Realizar-se-á na Covilhã, em 14 e 15 de Outubro, uma sexta e um sábado.

Lê-se no blogue promotor do 2º encontro de blogues: "Pretende-se que cada grupo de trabalho elabore um relatório acerca da blogosfera ligada ao respectivo tema. No momento da inscrição, os blogues escolhem o grupo onde pretendem integrar-se (caso queiram participar na fase de trabalho), após o que receberão um pequeno guião destinado a uniformizar relatório final. A organização convidará dois blogues para coordenarem cada grupo de trabalho".

Assim, blogueiros(as), em Outubro, os caminhos dão todos para a Covilhã!

27.4.05

GIAMBATTISTA BODONI

No passado dia 22, quando analisei o último romance de Umberto Eco, A misteriosa chama da rainha Loana, chamara a atenção para o personagem-narrador da história, familiarmente conhecido como Yambo, mas com nome de baptismo de Giambattista Bodoni, igual ao de um tipógrafo italiano (1740-1813).

É, pois, sobre esse tipógrafo que pretendo falar na mensagem de hoje. Como base, tenho o livro organizado por João Bicker para a Almedina e com tradução de Rita Marnoto, o Manual tipográfico de Giambattista Bodoni.

Harmonia, proporção e mercado

Antes de partir para a apresentação do livro, quero destacar o modo como o livro é tratado, a exemplo de outro da mesma colecção e que já fiz referência aqui, o de Eric Gill. Na nota prévia do livro de hoje, escreve-se que a sua publicação "corresponde, mais do que uma intenção técnica ou didáctica, à satisfação de um desejo pessoal, determinado por uma admiração antiga pelo trabalho do grande tipógrafo".

O início da obra de Bodoni é o seguinte: "Eis o fruto da minha indústria e das fadigas que, com verdadeiro fervor, durante muitos anos consagrei a uma arte que é o resultado da mais bela, da mais engenhosa e da mais proveitosa invenção dos homens, quero dizer, a escrita, cuja melhor forma é a imprensa, pois reproduz as mesmas palavras para um vasto público, o que é particularmente importante quando se quer ter a certeza de que não há diferenças" (pp. 53-54).

Passo outra citação: "em que diremos nós que consiste o belo? Talvez, mais do que tudo, em duas coisas. Na harmonia, que satisfaz o espírito quando ele descobre que todas as partes de uma obra concorrem para um mesmo fim, e na proporção, que contenta o olhar, ou antes, a fantasia, entendida como reservatório de certas imagens e figuras, às quais mais agrada aquilo que com elas melhor se conforma" (p. 67). Harmonia e proporção, elementos que Giambattista Bodoni vai buscar às artes plásticas, como a pintura, associam-se à elaboração dos livros. Ou seja: o livro é, em simultâneo, um objecto de conhecimento e uma obra de arte. E liga-se à escrita e a uma forma superior da sua expressão: a imprensa. Pudera Bodoni ser lido hoje por editores mais apressados e que olham apenas o mercado como objectivo.

No começo da obra, a tradutora Rita Marnoto introduz Bodoni na sua época. Publicado em 1818, o livro remete para: 1) capacidades artísticas do autor, 2) ambiente editorial agitado, numa Itália ainda não reunificada e em que os direitos de autor variavam conforme as regiões. Na época, Bodoni, impressor em Parma, foi elogiado pelos maiores autores seus contemporâneos. Teve preocupações pedagógicas, concebendo folhetos informativos e volumes consagrados à arte do livro, sistematizando "preceitos e normas gráficas, regularmente enviadas a companheiros de profissão e a amigos" (p. 19). A edição original, que Bodoni deixou incompleta, continha dois volumes de mais de 600 páginas, com caracteres romanos e exóticos, vinhetas, ornamentos, algarismos e notas musicais (p. 41).

26.4.05

REALIZAÇÕES: INDÚSTRIAS CULTURAIS E CRIATIVAS E EXPOSIÇÃO

Até amanhã decorrem as inscrições para o curso de banda desenhada promovido pela Fundação Gulbenkian. O curso tem a duração de 150 horas.



Entretanto, anuncia-se o Festival de Curtas de Vila do Conde, que decorrerá naquela cidade de 2 a 10 de Julho. É já o 13º festival. Para saber mais, clicar em Curtas Metragens.

Um projecto distinto é o Pisa-Papéis, roteiro de artes do espectáculo, cuja tiragem se prevê para breve. Engloba teatro, dança, música, imagem e novas tecnologias, circo, animadores e muito mais. O sítio para obter informações suplementares é Pisa-Papéis.



Finalmente, chamo a atenção para a exposição que decorre na Biblioteca Nacional até dia 4 de Junho. O título é Discretos inimigos do livro, onde se mostram os efeitos dos insectos nos livros. Rendilhados, túneis e outras "maravilhas" na destruição desses bens preciosos que são os livros. A exposição chama a atenção para o trabalho incessante de recuperação de exemplares.
THUMBSUCKER

Thumbsucker (2004), filme de Mike Mills, teve ante-estreia no IndieLisboa 2005 (o filme já tem assegurado o circuito comercial, anunciado para Setembro deste ano). A história anda à volta de Justin Cobb, um adolescente de dezassete anos que ainda chucha no dedo. A família pretende que ele abandone o hábito, o mesmo acontecendo com o seu dentista e psicólogo amador, que aconselha a hipnose. Justin consegue superar o hábito, mas à custa de um medicamento de substituição.

Trata-se, pois, da observação de um adicto (outras formas de adicção incluem drogas, alimentação e roubo). A performance escolar de Justin sobe, sendo promovido ao grupo dos debates, concurso inter-escolas onde se torna quase profissional da argumentação. Mas o jovem regride, devido à pressão de ganhar. Volta-se para o consumo de drogas, enquanto tenta entrar na universidade.

O filme é, em simultâneo, terno e violento. A narrativa decorre com igual equilíbrio ao longo dos mais de 90 minutos de projecção, sem saltos bruscos. Os personagens surgem bem caracterizados, com a tensão em torno deles a crescer gradualmente. A América do interior (Oregon?) é mostrada num misto de urbanismo e ligação aos afectos antigos dados pela terra. Nova Iorque funciona como um sonho e uma distância entre Justin (que vai estudar para lá) e o resto da família e amigos. A banda sonora é um elemento preponderante no conjunto do filme.

Para além dos seus trabalhos no cinema, Mike Mills é realizador de videoclips e artista gráfico. Foi responsável pelas curtas metragens Paperboys e The Architecture of Reassurance, esta última apresentada no festival de cinema independente Sundance, em 2000. Dos vídeos musicais que dirigiu contam-se bandas como Everything But The Girl, Yoko Ono, Moby e Zoot Woman. Expôs obras suas nas galerias MU (Holanda), Alleged (Nova Iorque) e Colette (Paris).

25.4.05

GENTE QUE DÓI - LIVRO DE VÍTOR PINTO BASTO A LANÇAR

Gente que dói primeiro - o conflito basco por quem o vive é um livro de Vítor Pinto Basto, com o selo da Deriva Editores, sobre uma reportagem feita no País Basco. O autor põe em destaque o papel do jornalista ao elaborar uma reportagem. A obra tem 130 páginas e custa €10,5.

Com fotografia de Pedro Correia e prefácio de Rui Pereira, o livro será lançado no próximo dia 28 (quinta-feira), pelas 21:00, na Casa da Animação, à rua Júlio Dinis, 208-210, no Porto. Contará com as presenças de Júlio Magalhães e Frederico Martins Mendes.

Vítor Pinto Basto, licenciado em Filosofia, é jornalista desde 1982. No Jornal de Notícias trabalha na secção Internacional. Pertenceu também às redacções do Diário de Notícias, A Capital, Europeu e O Jornal. Foi dirigente do Círculo de Cultura Teatral/Teatro Experimental do Porto e da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Escreveu O segredo de Ana Caio (Campo das Letras).
UM BLOGUE NÃO É UM JORNAL MAS PODE SER MAIS UMA FONTE DE INFORMAÇÃO, POR ELSA DE SOUSA

O meu obrigado a Elsa de Sousa, jornalista do Campeão das Províncias (Grupo Media Centro), pela entrevista que me fez. Foi uma oportunidade de falar sobre os blogues e a blogosfera. Retiro uma parcela da entrevista:

CP – E poderão eles [os blogues], no futuro, vir a constituir uma concorrência aos jornais, uma vez que já são muitos os que não dispensam a leitura matinal de alguns blogues da sua preferência?
RS – Não me parece que haja concorrência entre um blogue e um jornal. Um blogue não é um jornal. Este tem uma estrutura organizacional, uma hierarquia, responsabilidades, necessidade de objectividade, verosimilhança e isenção. Para viver precisa de ter rendimentos, seja a sua venda ou assinatura ou publicidade. Quem trabalha num jornal está identificado. Um blogue pode ser dirigido de modo anónimo, e o que lá se encontra não segue os passos do jornalismo: a busca de fontes com pontos de vista diferentes, o distanciamento, a separação entre factualidade e comentário. Claro que o jornalista deve interpretar mas tem de procurar ser o menos subjectivo possível. O que não se exige ao blogue. Até porque ele não paga ou não recebe pelo que faz. Há duas perspectivas que quero aqui salientar. A primeira é que este movimento me faz lembrar o movimento de pioneiros da rádio no começo da década de 1920. Surgiram como cogumelos, tal como os blogues hoje. O que lhes importava era a comunicação uns com os outros, sem se preocuparem com questões éticas ou de respeito pela verdade das coisas. Era apenas comunicação. Outra perspectiva é para concordar consigo quando diz que há pessoas – os jornalistas – que fazem uma ronda por alguns blogues, como o fazem nos jornais ou nos telexes das agências noticiosas. Um blogue pode ser mais uma fonte de informação.


A Elsa de Sousa também possui um blogue - Delírios 2004. Muitas das suas mensagens são acolhedoras e ternas.
UMBERTO ECO (III)

[continuação do post de 22 de Abril]

O Radio-corriere

Explica o narrador do livro A misteriosa chama da rainha Loana, romance recente de Umberto Eco, que a Radio-corriere era uma publicação dedicada à programação de rádio por volta dos anos 1940. Yambo, o narrador, nas suas deambulações para recuperar o tempo esquecido, descobre o velho rádio que existia em sua casa por essa altura: "Era um lindo Telefunken cor de mogno [...], com o altifalante coberto por um tecido de trama grossa (que talvez servisse para repercutir melhor a voz)" (p. 157).

Mais à frente, reconhece: "O aparelho remontava, assim a olho, aos anos 30. Na época um rádio devia ser caro, e certamente só tinha entrado lá em casa a determinada altura, como símbolo de status" (p. 158). Então, uma vez por semana "transmitia o concerto de ópera Martini e Rossi, e noutro dia o teatro. [...] Como é que dizia aquele anúncio? A rádio, a voz que encanta". A revista trazia programas de ópera, comédias, um ou outro concerto sinfónico e notícias (p. 160). Yambo sublinharia alguns desses programas: um estudo, um nocturno, uma sonata (p. 259). Tudo o resto era música ligeira, "ou melódica, como se dizia na altura".

Mas o aparelho de rádio estava irremediavelmente perdido, mesmo mais do que a própria memória de Yambo; esta talvez pudesse regressar. Daí, Giambattista Bodoni usar o gramofone e os velhos discos ligados ao altifalante do rádio.umbertoeco3.JPG

O regresso do nevoeiro [leia-se: AVC] ou a história do livro perdido

Nas suas semanas de reconstituição da infância e da juventude, no sótão físico das memórias, em Solara, aldeia onde a família se refugiara, na altura da guerra, para fugir aos bombardeamentos, Bodoni/Yambo encontra, no fundo de uma caixa, uma encadernação gasta, acomodando um volume seiscentista. Foi logo ver o frontispício: Mr. William Shakespeare Comedies, Histories, & Tragedies. Retrato de Shakespeare, printed by Isaac Iaggard. Algumas páginas atrás (p. 242), Sibila - a sua colaboradora da loja de livros antigos que possuía - pusera num catálogo para venda um exemplar dessa obra de 1623. Era o verdadeiro terror: "Para vender o livro, teríamos de mobilizar as grandes casas de leilões, que nos comeriam sabe-se lá que fatia do espólio, e a outra metade iria para o fisco; gostaríamos de ficar com ele, mas não o poderíamos mostrar a ninguém porque, se o boato se espalhasse, teríamos os ladrões de meio mundo à porta de casa [...] Se pensarmos em pô-lo no seguro, ficaremos na miséria. Que fazer? Dá-lo em gestão ao Município, para o colocar, sei lá, numa sala do Castelo dos Sforza, numa vitrine blindada, com quatro gorilas armados a guardá-lo dia e noite".

O in-folio descoberto no sótão era o começo de um novo nevoeiro [certamente a tensão arterial subiu excessivamente, pois a emoção fez-lhe confundir as ideias, enquanto subiam baforadas de calor ao rosto, p. 277]. Mas, desta vez, Yambo parece não perder a memória embora não sinta o corpo e não consiga falar com minguém. Está ali, mas ninguém o ouve. Até que as cores se desvanecem e vem o preto ("Porque é que o Sol se está a tornar negro"?).

A obra, no seu conjunto, é um reflexo sobre labirintos, escadas e passagens secretas (em ambos os livros que analisei aqui no blogue: A misteriosa chama da rainha Loana, O nome da rosa), enquadrado em suspense. Em O nome da rosa, a narrativa decorre num espaço privilegiado da memória física: a biblioteca; no livro agora editado pela Difel, a narrativa decorre no espaço da memória: o cérebro. Em que as conexões do conhecimento - a procura do pensamento, o livro ligado a outro livro - são o centro das histórias: naquele um livro raro de Shakespeare, neste um livro de Aristóteles, quase desconhecido, sobre o riso. Se naquele, há uma relativa raridade de livros e um sentido sagrado dos livros (até porque a acção decorre dentro de um mosteiro), neste, a acção remete para a história recente de um país, a Itália, e para a produção das indústrias culturais, direi: produção profana dos meios de comunicação de massa - banda desenhada, literatura, cinema.

24.4.05

4º CONGRESSO DA SOPCOM

Título: Repensar os media: novos contextos da comunicação e da informação.
Local: Universidade de Aveiro.
Data: 20 e 21 de Outubro de 2003.
Call for papers: 30 de Abril.
Mais informações: SOPCOM.

Observação: o prazo para submissão de resumos das publicações parece-me muito apertado. Espero que a organização alargue a data para além do fim deste mês.

ACRESCENTO NO DIA 29, PELAS 14:00: o prazo foi alargado para 15 de Maio.
BLOGOSFERA: O FIM DA IDADE DA INOCÊNCIA

Já suspeitava que a idade da inocência da blogosfera estava a chegar ao fim. A leitura do Diário Económico de sexta-feira última foi um sinal preciso, em texto de Hugo Pinheiro. Agora, a BusinessWeek, de 2 de Maio (hoje distribuida), confirma isso, ao dedicar o tema de capa à importância dos blogues nos negócios.

Stephen Baker e Heather Green escrevem os textos que ocupam nove páginas da revista (uma apenas para o título e com uma imagem de um indivíduo - Steve Rubel, que apresento abaixo - envergando uma camiseta que diz "estou a blogar isto", pronto a mostrar os vestígios das ligações dos blogues). O título do dossiê da publicação é significativo - os blogues mudarão os seus negócios (uma indicação: o trabalho é construído como se fosse um blogue: posts por dia, data por ordem inversa à usada nos blogues, texto, links).

Que futuro para os blogues?

No texto de Baker e Green, há uma referência fundamental - a blogosfera é a erupção mais explosiva no mundo da informação desde que começou a internet. Isto porque a blogosfera está a entrar no mundo dos negócios, o que não se pode ignorar, adiar ou delegar. Apesar de um ponto negro - a obsessão, o despeito ou a "varanda" da fama -, que enforma muita da actividade dos blogueiros.

Existem cerca de nove milhões de blogues, 40 mil dos quais nascem diariamente. Muitos discutem poesia ou leis constitucionais, lê-se no artigo da BusinessWeek desta semana, mas também há lixo. Talvez não passe de uma estimativa sem qualquer relação com o mundo verdadeiro ao considerar-se haver 99,9% fora da realidade. O que deixa uns escassos 40 a poderem escrever sobre uma actividade empresarial, dos seus empregados e de fugas de informação sobre fusões ou extinções de postos de trabalho. É sobre estes que a história de capa da BusinessWeek fala.

Os dois jornalistas fazem remontar a história dos media à tipografia de Johannes Gutenberg, que tornou possível a revolução de informação. A imprensa, que se seguiu à invenção de Gutenberg, seria o modelo dos meios de comunicação de massa. Alguns proprietários detinham as máquinas de impressão e controlavam a informação; tornados gigantes dos jornais, passaram a ser os responsáveis por aquilo que as massas deviam aprender.

Para Baker e Green, os meios de massa, como nos habituamos a ver, estão a ser postos em causa. Ainda compramos jornais e pagamos programas e canais de televisão: os editores escolhem as fontes e citam-nas ou não, o mesmo acontecendo com as cartas ao director. Porém, com uma conta gratuita na Blogger ou outros serviços, o custo da edição caiu para praticamente zero. Um editor de blogues demora perto de dez minutos a publicar os seus textos, imagens paradas ou em movimento e sons. Por isso, está a desaparecer a fronteira entre editores e público. Os meios de comunicação de massa tendem a tornar-se meios individuais de comunicação. Ora, as empresas não querem perder poder. Logo: de que forma se apropriarão dos blogues?

Parte substancial do extenso texto relata como algumas pessoas desenvolveram os seus negócios através deste novo meio de distribuição que é o blogue. Um deles é Steve Rubel, que trabalhava numa empresa de relações públicas quando começou a editar o seu blogue Micro Persuasion e a colocar nele informações dos seus clientes. Um dia, um dos mais importantes blogueiros, Dan Gillmor (de cujo recente livro já aqui escrevi), fez um link do seu blogue para o de Rubel. O sítio deste passou a ser muito mais visitado. Além da informação sobre os seus clientes, Rubel monitoriza os blogues em busca do que dizem sobre a sua empresa. Duas razões para tal: 1) pode ajudar a vender serviços através de relacionamento pelo e-mail, 2) desenvolve estratégias de controlo de prejuízos, caso ataquem a empresa que ele representa. A mensagem colocada no cimo do blogue de Steve Rubel diz "como os blogues e o jornalismo cívico têm impacto nas relações públicas"!
PROCESSO DE BOLONHA - UMA REUNIÃO DA SOPCOM

Foi uma longa jornada a que ontem reuniu sócios da Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação (Sopcom) em torno do processo de Bolonha, entremeada pela assembleia-geral. Como convidados especiais: Fidel Corcuera Manso (director de relações externas da ANECA, Agencia Nacional de Evaluación de Calidad y Acreditación), Marcial Murciano Martínez (director dos directores dos cursos de comunicação social em Espanha e elemento actual da comissão de avaliação dos cursos portugueses de comunicação) e Veiga Simão (antigo ministro da Educação). Razão: o processo de convergência europeia do ensino universitário.

1) Sobre a realidade espanhola

Fidel Corcuera, para quem o importante é harmonizar sem homogeneizar, desenhou o trabalho de três actores fundamentais que intervêm em Espanha: 1) ministério, 2) universidades, 3) ANECA. Corcuera falou da legislação (introdução dos créditos obrigatórios, avaliação dos graus e pós-graduações), títulos (1º ciclo, de 180 a 240 créditos, que se destina a dar ao estudante um título com relevo para exercer uma profissão, para ter capacidade de ingressar no mercado; 2º ciclo, master; 3º ciclo, doutoramento). Até 2007, haverá, em Espanha, implantação dos títulos, mas decorrerão ainda mais três anos de adaptação. Corcuera falou ainda de conteúdos comuns às várias faculdades de comunicação. Porém, cerca de 35% serão conteúdos não comuns, estabelecidos de acordo com as universidades e a sua ligação e interesses ao meio social e empresarial.

Também quanto às pós-graduações, em especial o mestrado, a Espanha seguirá um modelo duplo: 1) teóricos ou de investigação, 2) profissionalizantes. As pós-graduações darão um protagonismo maior às universidades. Apesar da necessidade de homologação pelo ministério, as universidades têm competência para desenvolver planos de pós-graduação (ao invés das licenciaturas, em que a ANECA exerce uma função de controlo de qualidade e acreditação).

Até 2010, as universidades prestarão maior atenção à relação entre professores e alunos, significando uma diminuição do rácio de estudantes por professor e um maior controlo das actividades, o que implica necessariamente mais custos e um grande desafio, com a valorização do ensino. Às universidades exige-se também a aplicação do sistema ECTS (catálogo de créditos, graus, certificados de notas), conhecimento dos livros brancos e utilização do resultado dos créditos europeus.

Quanto à ANECA - estrutura que a Sopcom poderia copiar e preparar para aplicação a Portugal -, tem competência exclusiva para acreditar títulos e garantir qualidade e competitividade dos graus académicos. O seu objectivo é estar ao serviço das universidades para melhorar o ensino; daí estabelecer um conjunto de padrões para acreditação na avaliação externa. Fidel Corcuera destacou a importância de redes europeias de qualidade e acreditação: European Association for Quality Assurance in Higher Education e European Consortium for Accreditation in Higher Education.

Marcial Murciano, com uma informação muito sólida prestada aos sócios da Sopcom, falou de cursos do 1º ciclo de 4 anos (ou 3,5 mais estágio), em que se deve configurar um núcleo teórico com 60% de conteúdos comuns a todos os cursos, 20% optativos e 20% de livre configuração (mobilidade como o Erasmus e frequência de cadeiras de outros cursos). Afirmou que o Estado irá financiar todo o ciclo mas não os 2º e 3º.





2) Sobre a realidade nacional

O professor Veiga Simão recordou o começo do processo de Bolonha em 1998, já lá vão sete anos. E destacou a passagem de sete ministros ao longo desse período (mais três em que o ensino superior esteve articulado ao da educação) para dar conta da ineficência no tratamento desta questão. Salientou ainda a necessidade das universidades: 1) se ligarem ao mundo do trabalho e ao empreendedorismo, 2) saberem porque 1/3 dos alunos que ingressam no ensino superior não concluem o mesmo. E defendeu a existência de duração do 1º ciclo (licenciatura) com quatro anos. Isto porque em países como o Reino Unido, que defende a duração de três anos de licenciatura, o ensino secundário tem treze anos (em Portugal há 12 anos). E, conforme reiterou Marcial Murciano, o director dos directores dos cursos de comunicação em Espanha, o país vizinho inclina-se para aprovar a duração do 1º ciclo para quatro anos (e não três como até há pouco se dizia; até porque a duração do secundário é de doze anos como em Portugal). Veiga Simão informou ainda que os Estados Unidos não reconhecerão, provavelmente, os cursos de três anos existentes na Europa, caso sejam pedidas equivalências.

Bragança de Miranda, professor da Universidade Nova e elemento da direcção da Sopcom, anunciou que esta associação fará em breve uma apresentação pública da sua perspectiva. Consensuais são, no momento, as designações dos títulos: 1º ciclo, licenciatura; 2º ciclo, mestrado, 3º ciclo, doutoramento. A Sopcom inclina-se para um modelo 3+2 - mas que não é consensual, como a discussão da parte da tarde veio demonstrar. Para mim, um modelo de 4+1 parece-me mais adequado, seguindo as palavras de Veiga Simão, de Marcial Murciano e de Aníbal Alves (Universidade do Minho), para quem um primeiro ciclo de três anos é uma regressão cultural (voltar ao tempo dos bacharéis, além de que a formação em três anos é reduzida). Contudo, estou com Bragança de Miranda, para quem a fórmula 4+1 "achata" a pós-graduação.

A Sopcom defende a existência de quatro núcleos disciplinares (em que o jornalismo é um deles). Para isso, defende um grupo de cadeiras comuns a todos os cursos, incluindo teorias da comunicação, história, sociologia, economia (cerca de 10 cadeiras), um núcleo mais profissionalizante (constituído por 10 cadeiras; por exemplo: jornalismo; investigação), cinco cadeiras de ciências sociais e humanas e cinco cadeiras (de outros cursos, na perspectiva de minor). Quanto às pós-graduações, a Sopcom considera vantajosa, a exemplo do que se passa em Espanha, a existência de mestrados mais profissionalizantes (os masters ou MBA) ou destinados à investigação. Em termos de tese, considera-se como valor razoável, na nova fórmula, um tamanho de 50 a 60 páginas.

[post concluido às 18:21]

22.4.05

COISAS QUE FASCINAM

Espero que me desculpe o blogueiro João Paulo Meneses, do Blogouve-se, por lhe roubar o título. Mas apetece-me escrever desse modo ao comparar as edições de hoje do Diário de Notícias e do Público, apenas na secção dos media.

Enquanto o Diário de Notícias dedica cinco páginas a "Media & Televisão", o Público dá apenas página e meia à secção "Media". O primeiro jornal tem notícias frescas e desenvolvidas: a tese de Jacinto Godinho, o livro de Gustavo Cardoso e colegas (duas páginas escritas por Miguel Gaspar) [eu já fiz aqui alusão ao lançamento da obra, mas não posso competir em termos de notoriedade para receber um livro adiantado e comentar no blogue, apesar de alguns pontos serem relativamente conhecidos a quem assistiu à brilhante defesa da tese de doutoramento de Gustavo Cardoso]. E a página 53 merece análise de uma aula toda: 1) a peça de Miguel Gaspar sobre a repetição da mesma informação (texto e imagem) na televisão, noticiário após noticiário (como Dinis Alves defendeu a semana passada na Universidade de Coimbra, ao definir o mimetismo nas notícias); 2) a rubrica "Audiências", assinada por Nuno Azinheira. Ao invés, o Público, sobre a tese de Jacinto Godinho, dá-lhe uma breve (que é uma curta biografia do jornalista), refere o conflito da RTP, fala da renovação da imagem do Semanário Económico e tem mais quatro notícias de menor relevo (pelo menos para mim).

A razão do título do post - coisas que fascinam - é notar como o Público está a perder, quanto a mim, a competição com o Diário de Notícias. Não sei se ainda sairá alguma coisa mais desenvolvida sobre a tese de Jacinto Godinho - que merece (vi o jornalista Adelino Gomes, daquele diário, a acompanhar a defesa da tese com muita atenção). E o Diário de Notícias mantém um elemento imprescindível, o cargo de provedor de leitor (apesar de ter aqui já discordado dele, acho que José Carlos Abrantes está a desempenhar bem o seu papel). Se o Público tivesse provedor já havia escrito a chamar a atenção para o desempenho das múltiplas tarefas do director. Todos os dias, escreve um longo editorial sobre coisas distintas - o que o obriga a um saber enciclopédico -, mais os comentários nos canais públicos de rádio e televisão. Sei que é um dos jornalistas mais brilhantes da sua geração, mas talvez não lhe sobre tempo para ver como vai a secção dos media no seu jornal. Ou: onde está o editor da secção? É que, além de tudo, o tempo da Elizabete Vilar - e o da estagiária Cátia Candeias - já passou, para pena dos leitores do Público.
UMA REFLEXÃO SOBRE A BLOGOSFERA

Ficam aqui alguns apontamentos de reflexão sobre a blogosfera que eu desenvolvo a partir da peça publicada hoje pelo Diário Económico, assinada por Hugo Pinheiro. Nessa peça, noticia-se que a Audi, que vai lançar o modelo A3 no mercado norte-americano, criou uma inédita campanha publicitária e de marketing. Para além dos formatos clássicos, há imagens e pistas colocadas nos blogues, para além de blogueiros terem recebido 2400 dólares para, em três meses, escreverem sobre a marca, elogiando-a ou não. O importante é falarem sobre a marca! [ver correcção no final do post]

1) Blogues e produtores de informação

Os blogues são aceites porque, em primeiro lugar, representam a novidade. Em seguida, pela mobilidade, pois os blogueiros não tem estruturas hierárquicas como um jornal e decidem muito bem o que fazer. À mobilidade associa-se a rapidez de informar. O recente livro de Dan Gillmor (Nós, os media) aponta nesse sentido. A que se junta ainda a possibilidade de um blogueiro fazer imagens com uma pequena câmara digital.

Isto não quer dizer que o blogueiro substitua o jornalista, que tem referências fundamentais como a exactidão de escrever o que viu e contar bem uma história. Há blogueiros que não possuem essas qualidades e até se escondem no anonimato ou tomam nomes falsos. O fundamental é perceber a existência de uma onda de novos produtores de informação, com estratégias de acesso rápido e que juntam aquilo a que se chama o jornalismo de proximidade ou cívico. Os grandes media tratam de acontecimentos de grandes cidades e empresas, os blogues falam para comunidades, muitas delas de pequena dimensão. Nasce uma maior interacção com as comunidades. Isso aconteceu com os partidos políticos nas últimas eleições nos Estados Unidos, que viram nisto uma nova forma de chegar aos seus eleitores, desapontados com as mensagens laudatórias que lhes chegam dos grandes media, para além de uma grande distância entre a retórica e a resolução dos problemas reais que afectam uma população ou comunidade.

2) Blogues e empresas

Do mesmo modo que a política e os media, as empresas apostam nos blogues, por várias razões. A primeira é porque é fácil construir um blogue. Depois, quem constrói um blogue acaba por tecer ligações a outros blogueiros. Estamos no domínio da rede, como vem falando Manuel Castells. Estas redes não são hierárquicas e funcionam em qualquer momento. Um blogue é como um chat ou sala de diálogo - embora não em comunicação síncrona como o chat mas assíncrona que permite a quem escreve e lê alguma reflexão.

As empresas estão elas próprias a fomentar a criação de blogues junto dos seus empregados e colaboradores no sentido de recolha de informação sobre produtos concorrentes ou sobre reclamações e sugestões de clientes de um dado produto. A isto se chama trabalhar em código aberto (que vem da ideia de software partilhado, como propõe o sistema Linux). Apesar de não haver hierarquia entre os blogues, há motores de busca (tipo Google, Technorati ou Feedster RSS) que organizam informação colocada nos sítios e nos blogues segundo níveis de importância. Uma informação num blogue pode ser de extrema importância caso o seu autor seja um especialista numa dada matéria mas não tenha acesso habitual aos meios tradicionais de comunicação.

3) Interactividade

Num blogue, a interactividade é um risco e uma possibilidade. Por um lado, é um risco porque o blogue pode criar a mesma habituação de publicidade e persuasão que um meio de comunicação clássico. Aconteceu isso em sítios antes de rebentar a bolha das dotcom, em 2000-2001. Os analistas influenciaram, através de sítios da internet, o preço das acções dessas empresas tecnológicas, muitas vezes em proveito próprio. Isso quer dizer que um consumidor, antes de tomar uma decisão a partir do que lê num blogue, deve ter o mesmo tipo de cautela que perante um anúncio que diz que ele vai ficar jovem, magro ou rico. A notícia hoje no Diário Económico aponta nesse sentido. A partir de agora, o blogue perde a auréola de meio de comunicação desinteressado.

Por outro lado, é uma possibilidade, pois a interactividade permite trocar pontos de vista e obter informações suplementares do que se pretende. O livro de Dan Gillmor é muito optimista quanto a isto. Mas, apesar de tudo, devemos ter alguma precaução. Os níveis de resposta nem sempre são elevados. Só estabelecemos verdadeira interactividade quando conhecemos bem alguém (visível no MSN, por exemplo). A confiança é um bem difícil de se construir e fácil de destruição. A interactividade pode não ser permanente e, por isso, não ter resultados significativos.

4) O começo da mercantilização da blogosfera

Há blogues sérios - com informação pertinente - e blogues de entretenimento - má língua e crítica a determinados sectores (políticos, empresariais, sociais). Estes últimos, pela minha observação (mas não tenho dados empíricos que me dêem um sentido preciso), são os mais procurados. Ainda me parece cedo para responder a tal.

Contudo, alguns dos blogueiros mais destacados, que iniciaram os seus trabalhos publicistas na blogosfera, passaram-se já para os media tradicionais, criando colunas de opinião nos jornais e programas de televisão. O que quer dizer que o nicho de mercado da blogosfera tem potencialidades para criar postos de trabalho e pequenas empresas. A publicidade é uma forma de sustentar os blogues, alguns dos quais estão a fazer um trabalho precioso, no domínio da divulgação da cultura e do jornalismo de proximidade, para falar em áreas que conheço melhor. De novo, a notícia do Diário Económico de hoje, sobre o pagamento da Audi a blogueiros para escreverem sobre a marca, é um indicativo da mercantilização da blogosfera.

5) Para um código de ética

É fundamental haver um código de ética (ou um mínimo de regras de conduta). Um blogue, só porque tem muitos visitantes diários mas se esconde no anonimato, não merece tanta credibilidade como um que mostra a sua identidade. Já não estamos num tempo de panfletos a dizer bem ou mal mas escondidos atrás de pseudónimos ou nomes falsos. O mercado e o crescimento da consciência dos cidadãos faz com que não se aceite esse tipo de comportamento.

Claro que, num mundo de feroz concorrência, há empresas que não respeitam os códigos de ética, mas quem acaba por perder a médio prazo são essas mesmas empresas. No seu livro recente, Dan Gillmor refere que a Amazon.com aceitava críticas a livros editados, sem cuidar de saber de onde vinham esses comentários. Por vezes, eram os próprios autores que, camuflados em nomes falsos, teciam longos elogios à obra e desancavam nos livros concorrentes. A liberdade de um acaba quando começa a interferir na liberdade do vizinho. A blogosfera é livre mas tem de ser como conduzir um automóvel: não podemos andar em contra-mão.

6) Tecnologias e comunidades

Há muitos blogues a fazer jornalismo ou crítica literária ou cinematográfica, na assunção do espaço público moderno, à Habermas, não tanto no sentido colectivo e mais no individual. Os blogues, em grande maioria, são ferramentas usadas individualmente. Isto porque cada pessoa escolhe um grafismo, uma sequência temática, objectivos precisos.

A explicação que dou a isto tem a ver com a tecnologia. No começo da rádio (anos 1930 a 1950) e da televisão (anos 1950 a 1970), devido ao custo do aparelho, havia um só equipamento por lar, obrigando todo o agregado familiar a estar num mesmo espaço. Com o embaratecimento dos aparelhos e o aumento de canais (em especial a televisão), cada lar passou a ter vários aparelhos. Ora, o computador não é um instrumento familiar mas pessoal, o que condiciona a produção de conteúdos e a sua leitura.

Por isso, parece-me que o paradigma do blogue está associado ao individualismo. Por exemplo, um blogue político é uma espécie de varanda - ou tribuna - onde cada indivíduo diz da sua justiça. Claro que para ele ser ouvido há necessidade de criar uma rede de contactos - os links dos favoritos - onde os outros vão regularmente espreitar os novos posts. Nasce assim uma comunidade, já não espacialmente localizada mas abrangendo uma região ou um país. O blogue é uma ferramenta expansionista, geograficamente falando.

Correcção (introduzida em 24 de Abril às 18:24): não foi a Audi que pagou a blogueiros para falarem dos seus produtos, mas sim uma pequena empresa (Marquis), com publicidade dissimulada, o que a tornou polémica.
UMBERTO ECO (II)

[continuação do post de 19 de Abril]

A misteriosa chama da rainha Loana, romance de Eco, editado pela Difel, é um título que esconde uma admirável narrativa e que nos conduz ao mundo dos livros - como Em nome da rosa, referido em post anterior - e à banda desenhada.

umbertoeco1.jpgA história conta-nos o AVC de Arthur Gordon Pym (p. 14), perdão Giambattista Bodoni (nome de um célebre tipógrafo italiano, de que eu falarei num próximo post), ou melhor Yambo, e o seu lento acordar desse grave acidente.

Nasce uma memória de papel, pois Bodoni/Yambo perdeu a memória do passado e sua reconstrução dá-se a partir de relatos e registos dos que estão perto dele ("tens uma memória de papel. Não de neurónios, mas de páginas", p. 87). Ou seja, a partir do nevoeiro, que é voltar à vida ("O nevoeiro fascinava-te. Dizias que tinhas nascido dentro dele", p. 36).

É um tempo onde (re)descobre Paola, a mulher, a linda Sibilla, a sua braço-direito da loja de livros antigos, e a recordação de Lila, memória afundada na juventude, amor platónico (para quem representara no teatro, como se não houvesse mais ninguém que ela). Mas se Lila desaparece no limbo da distância e o papel de Paola é assumido de imediato, Yambo não se recorda se alguma vez foi para além da relação de trabalho com Sibilla. Pelo que gastaria o seu cérebro sem memória num exercício incessante; procurava a "misteriosa chama" (no singular mas também no plural) (ainda não sabe o que significa, isto é, é uma memória que surge descontextualizada, p. 69, p. 88, p. 221).

A ideia difusa que perpassa pelo livro e acaba no título vinha de um livrinho de capa policromática chamado A misteriosa chama da rainha Loana (p. 235). Era uma história tonta do princípio ao fim (apesar de nunca o ter desiludido): "Os protagonistas [...] vão parar a um reino misterioso onde uma rainha igualmente misteriosa guarda uma misteriosíssima chama que proporciona vida longa, ou até mesmo a imortalidade, visto que Loana, sempre belíssima, reina sobre uma tribo selvagem há dois mil anos". Uma expressão como misteriosa chama e o suavíssimo nome de Loana ficaram na memória gasta de Yambo, que no pós-AVC (acidente vascular-cerebral) procurava exercitar. A chama contra o nevoeiro do esquecimento. Mas a Loana da BD nunca lhe revelaria o rosto de Lila, apesar dele pedir: "Ó boa rainha Loana, em nome do teu amor desesperado, [peço-te] apenas que me devolvas um rosto" (p. 386).

Dos livros da escola primária à banda desenhada

O livro de Eco é também, como escrevi acima, sobre a banda desenhada. Mas também do cinema, como as evocações do Sargento York, Canção triunfal (p. 350), Casablanca ou Road to Zanzibar, com Bing Crosby, Bobe Hope e Dorothy Lamour, e das novidades tecnológicas, como a motoreta Vespa (p. 379).

Nascido em 1932, Umberto Eco coloca o seu herói como tendo nascido no ano anterior [apesar de não dito, parece-me que a fotografia de uma criança a ser beijada na face por outra, na p. 256 lhe pertence, com uma cara larga como a conhecemos em todos estes anos em que Eco edita livros]. É, pois, se quisermos, uma revisitação à sua infância e adolescência - na perspectiva política (o tempo do Duce) e cultural (os livros que lia, as descobertas que fazia e tudo o que mantinha em segredo). Logo à cabeça surgem os livros de Júlio Verne e Emilio Salgari, este com o seu Sandokan, o tigre da Malásia, a par dos postais de propaganda, cartazes e canções dos balilas (juventude fascista), a Paris misteriosa de Fantomas, os nevoeiros de Sherlock Holmes (p. 200), Búfalo Bill e o Super-Homem.

Era um tempo de descoberta de heróis que os livros da escola primária nunca tinham descrito, tão bem compreendido nas onomatopeias que ilustram o livro (a par das imagens dessas BDs): "Arf arf bang crack blam buzz caim spot tchaf tchaf clamp splash crackle [...]" (p. 222). Ao comparar os livros escolares e a banda desenhada, Yambo anotava que "provavelmente construía muito a custo a minha consciência cívica" (p. 226). E pergunta na página seguinte: "Crescido em idade e sabedoria, ter-me-ei mais tarde aproximado de Picasso estimulado por Dick Tracy"? Nessa busca incessante de reconstituir a memória, surgiria A misteriosa chama da rainha Loana (p. 235) [reprodução das páginas do livro autorizada pela Difel].

umbertoeco2.jpg

Yambo/Eco havia apanhado o ensino primário num tempo em que Mussolini estava no poder e participava na segunda guerra mundial ao lado da Alemanha, enquanto prosseguia o seu expansionismo na África em direcção à Etiópia. Escreve: "Folheei os livros das classes seguintes, mas não havia referências à guerra nem sequer no da quinta classe, apesar de ser de 1941 - quando a guerra já se tinha iniciado havia um ano. Tratava-se de uma edição dos anos anteriores, e nele só se falava de heróis da guerra de Espanha e da conquista da Etiópia. Não era bonito falar dos livros escolares sobre os incómodos da guerra, e fugia-se do presente celebrando as glórias do passado" (p. 176). Mas no livro da quinta classe havia "uma meditação sobre as diferenças raciais, com um pequeno capítulo sobre os judeus e sobre a atenção que se devia dedicar a esta estirpe pérfida" (p. 177). E também "fotos de aborígenes comparadas com as de um macaco, outras mostravam o resultado monstruoso do cruzamento entre uma chinesa e um europeu".

Com a entrada dos Estados Unidos na segunda guerra mundial, a favor dos aliados e contra o eixo Berlim-Roma, as bandas desenhadas em Itália sofreram uma curiosa alteração. Na colecção Corriere dei Piccoli, os heróis americanos italianizaram-se, com os balões a serem retirados e trocados por longas legendas (p. 214). Assim, o gato Felix transformou-se em Mio Mao, Hans e Fritz ficaram Bibì e Bibò, Jiggs e Maggie ficaram Arcibaldo e Petronilla e o rato Mickey adquiriu um nome sonoro: Topolino. Diz o narrador Yambo: "De uma semana para outra, sem qualquer aviso, a mesma aventura do Rato Mickey [que morrera no livro anterior] continuava como se nada se tivesse passado, mas o protagonista era agora um tal Toffolino, [...] e os seus amigos chamavam-se Mimma, em vez de Minnie, e Pippo (Pateta)" (p. 219). Os americanos passavam a ser os maus. Pergunta o mesmo narrador: "teria [eu] consciência, na altura, de que o Rato Mickey era americano"?

[continua]

21.4.05

MAIS SOBRE A CAMPANHA DA CERVEJA RUIVA DA SAGRES

O lançamento da marca em termos promocionais da cerveja Sagres Bohemia foi da responsabilidade criativa da Euro RSCG, lê-se na newsletter da Marktest.

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Com a assinatura Uma cerveja com muito bom gosto, foi projectada para mupis, outdoors e spots televisivos. A campanha analisada a partir do dia de estreia e até ao dia 10 de Abril em televisão e 20 de Abril nos outdoors teve um investimento de €1,145 milhões.
OS DIVERTIMENTOS ANTES DAS INDÚSTRIAS CULTURAIS

"Em época que já vai distante, o espectáculo das esperas de toiros constituía o mais agradável divertimento para os aficionados e não aficionados", escreveu José Pedro do Carmo, em 1943, no seu livro Evocações do passado (p. 19).

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Elas acabaram como desapareceram outras actividades, comemorações e festas: "as procissões; os círios do Cabo e da Atalaia, com as suas fogaças e os seus bentinhos; os festejos do Santo António, S. João e S. Pedro e as respectivas marchas aux-flambeaux, o mangerico, a alcachofra e o trono com a bandeja à espera dos cincorreizinhos para o Santo António; o Carnaval livre, para cada um brincar a seu modo" (pp. 22-23) [imagens: a da esquerda, interior da praça de touros do Campo de Santana (1831-1889); a da direita, exterior da mesma praça]. Lisboa "urbanizava-se" no final do século XIX, "civilizara-se", como escreveu Nogueira de Brito no prefácio ao livro acima referido.

Para este mesmo prefaciador, era a derrocada dos recantos simpáticos, o desaparecimento das paredes caiadas, dos "sugestivos registos de azulejos", das hortas e do arvoredo caseiro atirado para longe, erguendo-se "caixotes esburacados de janelas uniformes a fingir de grandeza arquitectural". Acrescento eu: quando o livro foi editado, vivia-se uma época de efeito dos centenários (1940) e da segunda guerra mundial, com o recrudescer de valores etnográficos antigos (as paredes caiadas, as hortas).

Ainda para Nogueira de Brito, nascia um período de "fácil celebrização de artistas, a aura de certos ídolos que o Tempo guindou a alturas que jamais antevira uma Lisboa aparentemente modesta". Os prédios da cidade monumentalizavam-se e o povo passava a frequentar bares e restaurantes. E, no dizer do autor do livro, José Pedro do Carmo: "Presentemente o povo diverte-se, e diverte-se bem, com estes dois géneros de espectáculos: o cinema, produto estrangeiro, de origem francesa, que arruinou o nosso teatro; e o futebol, também estrangeiro, de procedência inglesa, que arrasou o que nós portugueses tínhamos de mais tradicional: as toiradas".

O texto, como escrevi acima, é de 1943, mas é profundamente antigo nos seus conceitos e objectivos. O cinema português tinha um certo desenvolvimento, certamente apoiado pelo Estado Novo, e o futebol já enchia muito espaço nos jornais e os desafios eram relatados na rádio. As indústrias culturais estavam apenas à espera da televisão, que transformou o futebol num dos géneros (!) televisivos mais apreciados: nos dias de hoje, há sempre transmissão de jogos, pelo menos para quem tem televisão por cabo.

A edição do livro coube à Tipografia da Empresa Nacional de Publicidade.
DEFESA DA TESE DE JACINTO GODINHO

Como anunciara aqui no dia 18, defendeu hoje tese de doutoramento Jacinto Godinho, professor universitário e jornalista da RTP, com o título Genealogias da reportagem. Do conceito de reportagem ao caso Grande Reportagem, programa da RTP (1981-1984).

Observar sem ser observado, ou olhar escondido a realidade a partir do cimo de uma árvore, eis a metáfora com que Godinho iniciou a sua apresentação, ele que aplica este princípio quer nas centenas de reportagens que já efectuou quer na universidade onde ensina. O novo doutor - que recebeu a máxima classificação na prova a que se submeteu - operou num registo variado de saberes, como filosofia, sociologia, cultura, história e tecnologia, associando erudição e linguagem mais comum, além de responder às perspectivas dos diferentes arguentes com igual qualidade.

[interessante: foi notório, em cada arguente, a sua especialidade: a filosofia, a sociologia da cultura, a interligação entre teoria e prática do jornalismo, a história, a análise do discurso. Quem está na plateia e conhece os trabalhos mais importantes de cada um dos arguentes compreende com mais intensidade a discussão que se estabeleceu hoje de tarde no anfiteatro da Universidade Nova de Lisboa]

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Reportagem e literatura

Jacinto Godinho analisa a origem da reportagem como: 1) catálogo de casos, e 2) miniatura de tese académica com um painel (elementos jurídicos, históricos, económicos, políticos, entre outros). E chamou a atenção para os estereótipos da reportagem e do repórter: durante décadas, o repórter foi um profissional com estatuto abaixo do redactor: este escrevia, aquele ia à procura dos factos. Isto é, a sua aceitação, a sua reputação demorou muito tempo a fazer-se.

O novo doutor partiu do latim reportare, dando um duplo sentido ou movimento - "trazer a" e "levar a" - mas entende que é o segundo sentido o mais adequado ao trabalho do jornalista que faz reportagem. Mas, para ele, reportar adquire, modernamente, um duplo sentido, o primeiro dos quais é o relato. Daí, ter evocado a obra de Matilde Rosa Araújo (A reportagem como género : génese do jornalismo através da constante histórico-literária, tese de licenciatura em Filologia Românica apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1946. Infelizmente, só existe um exemplar naquela biblioteca; não há mais nenhum em outra biblioteca). Matilde Rosa Araújo olhou a reportagem como literatura escrita pelos viajantes que se deslocam pelo mundo. O segundo sentido de reportar é a imagem, em que se narra através da imagem, postura que ganha um cunho fundamental com a televisão.

O programa Grande Reportagem

Após a parte teórica - e o blogueiro (categoria diferente da de jornalista) não conhece a tese, apenas ouviu o que ocorreu na defesa da tese, com inerentes incorrecções resultantes de apontamentos eventualmente não bem tirados -, Jacinto Godinho destacou o trabalho do programa com o título Grande Reportagem. Os seus responsáveis tiveram uma evolução/alteração ao longo do período de existência do programa, primeiro olhando a realidade representada como um tese que pretendiam justificar ou concluir, a que se seguiu um período de modelo didáctico (tipo dossiê), acabando na reportagem como tradução da experiência.

Três últimas ideias que retive da apresentação inicial de Jacinto Godinho. A primeira diz respeito ao facto de, com o encerramento do programa, a televisão pública perdeu a oportunidade de criar uma escola de reportagem. Os directos que são feitos agora - e isso viu-se nos dias de greve na RTP, esta semana - não são reportagens mas uma maneira de preencher o tempo que é necessário preencher. A segunda ideia que fixei foi a crítica de Godinho aquilo a que chama de sujeito-espectador. A televisão está a ser feita para este, o que não passa de estereótipo e não leva a avançar-se na análise do fenómeno televisivo. A terceira ideia foi a da censura, que o autor relacionaria com a ideia anterior. Hoje não haverá uma censura política (pelo menos evidente) mas económica. O problema, concluiria Godinho, está na resposta. A censura reside em quem se coloca na posição de sujeito-espectador, que apenas pede mais "realidade" e o "sistema" dar-lhe cada vez mais essa realidade: as telecerimónias. Eu acrescentaria, sem ser apocalíptico, o telelixo dos reality-shows.

Observação: Jacinto Godinho fez parte da turma de mestrado da Universidade Nova dos anos 1990-1992, que eu destaquei aqui há dias, a propósito dos livros de Cristina Ponte. Na altura, esqueci-me de outro colega, o Edmundo Cordeiro, que fez tese de doutoramento na Universidade da Beira Interior, onde é aí professor. Cordeiro editou recentemente um livro sobre cinema, a sua grande paixão. Agora, segundo julgo saber, só falta a Ana Cabrera defender tese (sobre jornalismo no tempo do marcelismo). O doutoramento do António Pinto Ribeiro está mais atrasado.

20.4.05

LANÇAMENTO DO LIVRO A SOCIEDADE EM REDE EM PORTUGAL

No próximo dia 28 Abril, quinta-feira, pelas 11:30, no auditório Afonso de Barros, no ISCTE, em Lisboa. São autores do livro: Gustavo Cardoso, António Firmino da Costa, Cristina Palma Conceição e Maria do Carmo Gomes. O livro tem prefácio de João Caraça e o capítulo inicial pertence a Manuel Castells.

redeemportugal.jpgRetiro do press-release da editora Campo das Letras: "O nosso mundo e as nossa vidas estão a experimentar uma mudança profunda no âmbito da tecnologia, da economia, da cultura, da comunicação, da política e da relação entre as pessoas. A sociedade em rede, resultado dessa mudança, deixou de ser um futuro mais ou menos distante. Como sugere Manuel Castells, a sociedade em rede é já a sociedade em que estamos a entrar, desde há algum tempo, depois de mais de um século de sociedade industrial. Ao longo deste livro analisa-se a transição de Portugal para uma sociedade em rede, de base informacional, e procura-se captar as diferentes influências da Internet na vida quotidiana. Com base num estudo conduzido por uma equipa do CIES-ISCTE, inspirado pelos trabalhos de Manuel Castells, e apoiado pelo Fundação Calouste Gulbenkian, mostra-se como as pessoas usam a Internet, adaptando a tecnologia às suas necessidades, interesses e valores, e como a sociedade em rede se está a construir em Portugal".
AUDIÊNCIAS MÉDIAS DAS PUBLICAÇÕES

A Marktest acabou de disponibilizar os resultados da primeira vaga de 2005 do seu estudo Bareme Imprensa. Assim, as publicações de informação geral registam a maior audiência média (35,6%) seguindo-se os suplementos das publicações de informação geral (27,7%) e as publicações desportivas e sobre veículos (26,8%). Na quarta posição, estão os títulos femininos (audiência média de 17,8%), vindo depois as publicações de televisão e jogos (16,8%).

bimprensa.JPG

Segundo o Bareme Imprensa, o Jornal de Notícias é o jornal mais lido (11,8% de audiência média), seguindo-se a revista Proteste (9,7% de audiência média) e o Correio da Manhã (9,4% de audiência média).
A INDÚSTRIA CULTURAL EM EDGAR MORIN

morin.jpgA imprensa, a rádio, a televisão e o cinema são indústrias ultra-ligeiras, na perspectiva de Morin (1962: 30). Ligeiras porque usam ferramentas de produção, ultra-ligeiras pela mercadoria produzida: folha de papel, película cinematográfica, onda de rádio. No momento do consumo, a mercadoria torna-se não palpável, dado o consumo ser psíquico. Mas a indústria cultural ultra-ligeira organiza-se segundo o modelo da indústria mais concentrada técnica e economicamente.

A essa concentração técnica corresponde uma concentração burocrática. Um jornal, uma estação de rádio ou de televisão organizam-se burocraticamente. Ou seja: o "poder cultural", o do autor da canção, artigo, projecto de filme, ideia de emissão, encontra-se entre o poder burocrático e o poder técnico. Tendência que esbarra com a exigência do consumo cultural, que quer sempre um produto individualizado e sempre novo. Um filme pode conceber-se em função de algumas receitas standard (intriga amorosa, happy end) mas tem de possuir personalidade, originalidade e unicidade.

Como se consegue tal? A partir da estrutura do imaginário. A indústria cultural procura demonstrar a estandardização dos grandes temas romanescos tornando os arquétipos em estereótipos. Diz Morin que, praticamente, se fabricam os romances sentimentais em série, a partir de certos modelos tornados conscientes e racionalizados, embora sob a condição de tais produtos saídos da série serem individualizados.

O papel do autor no mundo industrializado

Existe outro aspecto que Morin procura ilustrar. A leitura de um jornal liga-se a hábitos fortes, ao passo que um filme precisa de cativar o seu público [está ainda longe do conceito de Flichy, o qual distingue as indústrias culturais de fluxo e de edição]. Por isso, o cinema precisa da vedeta, unindo o arquétipo e o indivíduo. Compreende-se, conclui o sociólogo francês, que a vedeta seja o melhor anti-risco da cultura de massa, em especial no cinema.

morin2.gifMorin destaca também o papel do autor, que a indústria cultural usa na tripla qualidade de artista, intelectual e criador (1962: 41). O criador afirmava-se exactamente no começo da era industrial, e tende a confundir-se com produção. Daí o exemplo dado por Morin: em 1934, o King Features Syndicate encarregou o desenhador Alex Raymond de pôr em imagens as aventuras de um herói, Flash Gordon. Após a morte acidental de Raymond, sucederam-lhe Austin Briggs (1942-1949) e Marc Raboy e Dan Barry [imagem retirada do sítio L'Encyclopédie de L'Agora].

O cinema, arte industrial nova, instituiria uma divisão rigorosa de trabalho análoga à que se opera numa fábrica, onde entram matérias-primas e saem produtos finais. No cinema, a matéria-prima é a sinopse ou o romance a adaptar. A série começa com os argumentistas, os cenógrafos, a que se seguem o realizador, o operador, o engenheiro de som, o músico, o aderecista. A produção televisiva obedece às mesmas regras e a linguagem de rewriting na imprensa denota igual divisão de trabalho.

Curta biografia: Edgar Morin nasceu em Paris em 1921. Filósofo e sociólogo foi, entre muitas outras actividades, director da revista Arguments (1956-1962) e da revista Communications, co-director do Centre d'Etudes Transdisciplinaires (sociologia, antropologia e política) da École des Hautes Études en Sciences Sociales (1973-1989) e presidente da Agência Europeia para a Cultura (UNESCO). Escreveu, entre muitos outros textos, O paradigma perdido (Pub. Europa-América, 1975) e O método (Pub. Europa-América, 1982).

Observação: o livro, onde Morin desenvolve o conceito indústria cultural, ainda no singular, não tem qualquer referência ao texto fundador de Adorno e Horkheimer. O único trabalho citado de Adorno é sobre música. Há ainda textos citados de Horkheimer (Art and mass-culture, 1941) e Benjamin (A arte na era da reprodutibilidade técnica).

Leitura: Morin, Edgar (1962). L'Esprit du temps I. Névrose. Paris: Grasset, 283 páginas

19.4.05

NOVOS LIVROS EM COMUNICAÇÃO E JORNALISMO

Retiro do sítio do CIMJ a seguinte informação sobre novos livros, divulgada por João Carlos Correia (professor da UBI, Covilhã):
1) A Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em conjunto com as Edições Colibri, editou O espaço público e os media: sobre a comunicação entre normatividade e facticidade, lição proferida por João Pisssarra Esteves, em provas de agregação realizadas naquela Faculdade em Março de 2003.
2) A Universidade dos Açores editou em Novembro Teorias e práticas do jornalismo: do telégrafo ao hipertexto, texto da lição inaugural do curso de licenciatura em Comunicação Social e Cultura e da Pós-graduação e Mestrado em Cultura e Comunicação, proferida no passado dia 2 de Novembro pelo professor Mário Mesquita.
UMBERTO ECO (I)

A recente edição, pela Difel, do romance de Umberto Eco, A misteriosa chama da rainha Loana, faz-me dar relevo a esta obra. Para além da narrativa ficcional, o texto trabalha memórias do cinema, da rádio e da banda desenhada num tempo preciso, o da infância e adolescência de Eco. Um propósito nobre a trazer aqui ao Indústrias Culturais.

Antes, porém, quero fazer um breve excurso sobre outro livro do semiólogo e romancista italiano, no caso o livro O nome da rosa, também editado pela Difel [a imagem da capa é retirada de edição anterior à actual]. Quero ainda aproveitar o ensejo para escrever sobre Giambattista Bodoni, famoso tipógrafo nascido em 1740 e que emprestou o nome ao narrador de A misteriosa chama da rainha Loana.

A teia narrativa

Durante três anos consecutivos, dei uma cadeira de Teoria da Informação a alunos de pós-graduação em Ciências Documentais na Universidade Lusófona. Na primeira aula de um desses anos lectivos, a 6 de Novembro de 2001, falei do livro de Umberto Eco, O nome da rosa. Trata-se de um livro sobre livros - e da biblioteca, elemento fundamental para alunos dessa matéria -, onde ao mesmo tempo se escreve sobre inquisição, intolerância e heresia. Para além da leitura do livro, obriguei-me a ver uma versão cinematográfica feita a partir daquele (confesso que gostei mais do livro que do filme, obrigado a representar a biblioteca - onde quase tudo se passa - como espaço sem o encanto proposto por Eco, com labirintos, passagens secretas e numeração de livros apenas acessíveis a iniciados).

eco1.jpgUm estudioso descobre a tradução francesa de um manuscrito do séc. XIV. O autor é um monge beneditino alemão, Adso de Melk, que relata acontecimentos passados numa abadia italiana, onde se reuniriam teólogos do papa João XXII e do imperador Luís de Baviera (1327). Adso, então noviço ao serviço do franciscano Guilherme de Baskerville, antigo inquisidor e amigo de Guilherme de Occan e Marsílio de Pádua (religiosos intelectuais importantes na época), escreve sobre as mortes ocorridas antes, durante e depois do encontro de teólogos. Guilherme de Baskerville, que iria ser representante do lado dos franciscanos, é encarregado pelo abade (responsável da abadia) de investigar as mortes. Dotado como perscrutador de sinais, descobre o culpado nos labirintos da Biblioteca.

Como disse atrás, o livro é uma história de livros (p. 11). Só o bibliotecário [por tradição, o que se tornará abade, como Eco escreve na p. 413] tem "o direito de se mover no labirinto dos livros. [...] Só o bibliotecário sabe, por colocação do volume, pelo grau da sua inacessibilidade" (p. 41). O bibliotecário é, pois, um guardião; não o que torna aberta a biblioteca, mas o que zela pelos seus segredos. No caso da ficção de Umberto Eco seria um livro perdido de Aristóteles sobre o riso e a comédia, destruído e perdido definitivamente no incêndio que se dá no sétimo dia de investigação de Guilherme. Este, na sua investigação, apreende a organização e o registo dos livros, junto de Malaquias, o bibliotecário (p. 77).

Detecta-se aqui uma oposição: a organização e o registo dos livros significa cosmos e ordem, o incêndio dos livros a destruição e o caos. Dito de outra maneira: "estamos a procurar compreender o que terá contecido entre homens que vivem entre os livros, com os livros, dos livros, e portanto também as suas palavras sobre os livros são importantes" (pp. 110-111), em desabafo após as mortes de Adelmo e Venâncio, os primeiros monges encontrados mortos em circunstâncias estranhas, e após conversa com Severino, o ervanário.

eco2.jpgHá uma constante descrição da biblioteca e do seu labirinto, de uma grande imaginação no livro mas que perde quase todo o relevo no filme, como escrevi acima [imagem de Eco retirada do sítio The Modern Word]. O labirinto desempenha um papel central: "os construtores da biblioteca tinham sido mais hábeis do que julgávamos" (p. 166). Isso depreende-se da entrada de Guilherme e Adso naquele labirinto: "Ao longo das paredes fechadas encostavam-se enormes armários, carregados de livros dispostos com regularidade. Os armários tinham uma etiqueta numerada, assim como cada uma das prateleiras: claramente, os mesmos números que tínhamos visto no catálogo" (p. 165).

A interligação de um livro aos outros livros

A narrativa de Eco elabora uma permanente ligação dos livros entre si, como se nota no diálogo entre Guilherme de Baskerville e Adso de Melk (p. 282): "-... para saber o que diz um livro tendes de ler outros?" "-... Muitas vezes os livros falam de outros livros. Muitas vezes um livro inócuo é como uma semente, que florescerá num livro perigoso, ou inversamente, é o fruto doce de uma raiz amarga." "-... Os livros falam dos livros... é como se falassem entre si. À luz desta reflexão, a biblioteca pareceu-me ainda mais inquietante. Era portanto o lugar de um longo e secular sussurro, de um diálogo imperceptível entre pergaminhos e pergaminhos, uma coisa viva, um receptáculo de poderes...".

Ou, apresentado de outro modo, "Diante de um livro não devemos perguntar-nos que coisa diz, mas que coisa quer dizer, ideia que foi muito clara para os velhos comentadores dos livros sagrados" (p. 312). E ainda: "um livro é feito de signos que falam de outros signos, os quais por sua vez falam das coisas" (p. 390). O velho semiólogo aparece na melhor das formas: "...eram puros sinais, como eram sinais da ideia de cavalo as pegadas sobre a neve: e usam-se sinais e sinais de sinais apenas quando nos faltam as coisas" (p. 32). Apenas mais duas citações: "o homem não pode chamar ao cão uma vez cão e outra gato nem pronunciar sons aos quais o consenso de pessoas não tenha atribuido um sentido definido" (p. 49). E: a Jorge de Burgos [mais tarde descoberto como o assassino] "bastava dizer peixe para nomear o peixe, sem lhe ocultar o conceito sob sons mentirosos" (p. 111).

O livro ligado a outro livro, mesmo numa ligação silenciosa pelo facto de estarem juntos numa estante, remete para a ligação entre pessoas, que, mesmo desconhecendo-se entre si, podem cruzar-se e estabelecer laços. Em que a memória dessas pessoas funciona, com frequência, através de leituras e de relatos de outros - um dos temas de A misteriosa chama da rainha Loana.

[continua]

18.4.05

JACINTO GODINHO DEFENDE TESE DE DOUTORAMENTO

Jacinto Godinho, jornalista da RTP e professor universitário (Universidade Nova de Lisboa) defende tese de doutoramento na próxima quinta-feira, dia 21, pelas 14:30, no auditório 1 da sua universidade.

Tema: Genealogias da Reportagem. Do conceito de reportagem ao caso Grande Reportagem, programa da RTP (1981-1984). A tese foi orientada por José Bragança de Miranda.
BLOGUES VERSUS FÓRUNS PÚBLICOS DE DISCUSSÃO

Entrevista de Paulo Querido (PQ) (responsável pelo Weblog em Portugal) dada ao jornalista Pedro Fonseca (PF), hoje no caderno "Computadores" do jornal Público:

PF: "Existe uma diferença entre blogues e fóruns públicos de discussão?"
PQ: "As diferenças técnicas de edição e estruturação das mensagens publicadas não devem ser tomadas em conta por [serem] irrelevantes para a discussão. Em geral, mas nem sempre, um blogue é obra de um autor ou de um grupo pequeno de autores, enquanto um fórum pode ter milhares de autores; mas, mesmo aqui, é complicado estabelecer diferenças porque os leitores de um blogue podem participar nos respectivos conteúdos através das caixas de mensagens. Relevante é a diferenciação na forma como os meios são encarados pela sociedade. Os fóruns e os grupos de discussão são minimizados por historicamente virem do «underground» da Internet, enquanto os blogues são maximizados por estarem na agenda mediática, por serem recentes, por serem moda. Em termos objectivos, são, porém, indistintos: páginas com opiniões e raramente factos, disponíveis em endereços próprios na Web".

Para além da entrevista, Pedro Fonseca trabalha a questão da responsabilidade civil pelo conteúdo dos blogues.

Ainda no Público, António Granado dá um link para quem queira conhecer a bibliografia sobre blogues: Blog Research and References.
A COMPRA DO BIG BROTHER À ENDEMOL

Segundo a newsletter de hoje da Meios & Publicidade, a Endemol vende o Big Brother ao seu criador. Diz a notícia: "John De Mol, criador do Big Brother, chegou a acordo com a Endemol e comprou de volta o formato, noticia o Media Guardian. O objectivo é fazer um Big Brother 5, a ser transmitido na Talpa TV, a estação que John De Mol vai lançar na Holanda em Agosto deste ano. Paul Romer, o produtor responsável pelo lançamento do formato em 1999, será o responsável pelo Big Brother 5. A Endemol holandesa e a Talpa TV estão agora a discutir os contornos em que o formato será lançado".

Saliente-se que John de Mol vendeu a Endemol à Telefonica, empresa espanhola de telecomunicações, em 2000, por €5,5 biliões. Será que a Telefonica, ao vender uma parcela da Endemol, se vai desfazer da empresa dos reality shows e recentrar-se no seu negócio central?
LITERATURA SOBRE JORNAIS E REVISTAS FEMININAS

No mercado, estão a aparecer vários livros sobre a imprensa feminina, um vasto campo a estudar. Para referir os mais recentes, menciono: 1) Alice Marques (2004). Mulheres de papel. Representações do corpo nas revistas femininas. Lisboa: Livros Horizonte, 2) Maria Helena Vilas-Boas e Alvim (2005). Do tempo e da moda. A moda e a beleza feminina através das páginas de um jornal (Modas & Bordados - 1912-1926). Lisboa: Livros Horizonte, 3) Ana Maria Costa Lopes (2005). Imagens da mulher na imprensa feminista de oitocentos. Percursos de modernidade. Lisboa: Quimera. Todos estes trabalhos têm origem académica (mestrado e doutoramento), o que mostra uma interessante dinâmica na investigação e posterior publicação.

Apesar de ainda não ter tido tempo para ler as três obras na sua totalidade, deixo aqui alguns apontamentos sobre um assunto que me parece importante: âmbito dos temas abordados e metodologias empregues.

livroshorizonte1.jpglivroshorizonte2.jpg

anacostalopes1.jpgO trabalho de Alice Marques analisou 24 números em 2000 das revistas Cosmopolitan e Máxima, em que a autora procura ver a "situação empresarial das revistas, a permanência, na escola, na família e nos meios de comunicação social, de concepções do senso comum da feminilidade" (p. 11). Tese de mestrado defendida na Universidade Aberta em 2002, Alice Marques procura entender a "compreensão global das representações das mulheres como o corpo e da beleza idealizada como obsessão que corrói as suas mentes e lhes suga uma boa parte dos salários".

Já Maria Helena Vilas-Boas e Alvim, mestre pela Universidade do Porto, pesquisou Modas & Bordados, o suplemento de O Século, entre 1912 e 1926. Ela optou, "em certos entrechos, por um carácter descritivo, que após sérias cogitações [lhe] surgiu como o mais adequado aos [seus] interesses: tentar perceber como a pequena burguesia ia absorvendo os ensinamentos veiculados pelo periódico" (p. 9). Vestuário e beleza foram os grandes conjuntos que procurou na publicação, desde elementos como calçado, tailleur e sombrinhas até à confecção caseira e ao pronto-a-vestir, sem esquecer os cuidados com a beleza e a emergência de um novo ideário - a esbelteza.

Quanto a Ana Maria Costa Lopes, a sua tese de doutoramento defendida na Universidade Católica tem "como fontes [...] os materiais existentes nas publicações femininas de 1820 a 1890" (p. 27). O objectivo é "entender quais as ideias e as formas de a mulher se compreender a si própria e nas suas relações com o outro sexo" (p. 23). Nas conclusões, a autora considera que "deu conta das mudanças e continuidades no estatuto e imagens da mulher na sociedade oitocentista portuguesa, e tentou captar os inícios da sua emancipação e das ideologias que justificavam a manutenção das estruturas de dominação existentes" (p. 597).

Em todos os trabalhos há a predominância quanto a análise do discurso e menos de análise de conteúdo, aflorando num ou noutro caso elementos de biografias pessoais e de publicações. São trabalhos com diferenciações de qualidade final mas de igual importância para a compreensão de um fenómeno ainda pouco estudado: os periódicos e as revistas orientadas para a mulher. Se o texto de Ana Lopes aborda a questão fulcral da emancipação da mulher e do seu reconhecimento cívico e intelectual, sem sair da esfera privada, nos outros dois trabalhos estão em análise publicações com objectivos diferentes: o de Helena Alvim debruça-se sobre um tempo de conselhos e entrada da mulher nos assuntos da esfera pública, embora sob a capa de um título de revista mais conservador; o de Alice Marques, cujo âmbito se aproxima de nós, dá conta da mulher que consome e se preocupa com o corpo, ao mesmo tempo que procura conciliar uma vida profissional e familiar. Três tempos, três tipos de literatura, três modos da mulher se relacionar com a vida fora do lar.

17.4.05

DIÁRIOS DE BORDO ELECTRÓNICOS

São muitos os que contribuem para o blogue Pedagogia dos Media, resultado da conjugação do esforço de alunos(as) para a disciplina com o mesmo nome no curso de Ciências de Comunicação da Universidade do Algarve. Li uma referência a este IC; obrigado por isso. Entre os contribuintes vejo o nome de Vítor Reia-Baptista, o professor que trabalha o cinema e a blogosfera. Bons posts!
MÚSICA

1) Sítio Música Total: "finalmente «cresce e aparece» na forma nobre de Portal de Música! Num país onde os sites de música são ainda poucos e ainda por cima não muito arrojados, o MT resolveu arriscar e partir na “cura da ressaca”, que nos assola desde o primeiro dia. Assim, acreditando investimos até reunir condições para passar a Portal de música feito nos Açores…para o mundo da net!". Nascia deste modo o editorial do referido Música Total, estava-se a 22 de Novembro do ano passado.

Na newsletter hoje distribuida, dá-se conta do concerto dos Bed Noise, no dia 23 de Abril, no Paleão - Soure - Coimbra (6ª Mostra de Música Moderna), da edição do álbum "Segundo" dos Toranja para Maio e dos concertos de Pat Metheny para 25 de Junho (Coliseu do Porto) e dia seguinte (Coliseu de Lisboa), entre variada informação.

2) Nuno Galopim: no último DN: Música, o seu editor informa a criação de prémios, pela Associação Fonográfica Portuguesa, para os melhores da produção discográfica nacional. Segundo Galopim, haverá o prémio Carreira e o prémio Revelação. Escreve: "A ter lugar em inícios de 2006, com Gala com músicos portugueses e visitantes em cena, e com transmissão televisiva [...], a primeira edição dos novos prémios da AFP vai escolher os melhores de um ano que não está a começar nada mal".

Destaque ainda para o próprio Nuno Galopim, agora animador da Rádio Radar com os seus Discos voadores, ao sábado e domingo. Um seu fiel ouvinte.

3) O pós-punk em livro de Simon Reynolds: Escreve Kitty Empire no Observer de hoje sobre o novo livro de Reynolds, Rip it again and start again: post-punk, 1978-1984.

Se o punk se tornou uma marca na cena inglesa, por boas ou por más razões, o certo é que os anos seguintes foram de ressaca. Talvez ainda esteja na memória a música dos Joy Division, em torno da mitologia de Ian Curtis, que acabaria por se suicidar, ou mesmo dos Public Image Limited, cujo cantor, John Lydon, nunca ultrapassou a infâmia dos Sex Pistols. Reynolds faz a ponte para bandas mais recentes como Franz Ferdinand e Bloc Party, Interpol e Rapture.

Os intervenientes do pós-punk vinham de escolas de arte, influenciados por teorias literárias, pela arte e pela teoria crítica. Os poemas desvendam uma decadência da época industrial e os mecanismos de poder, lê-se no Observer.

Simon Reynolds, no seu livro, revisita as bandas que ouvia na juventude, e coloca o pós-punk num mundo de mercado mais amplo. Ele ocupa muitas páginas a fornecer dados sobre bandas agora quase esquecidas. Alguns materiais podem ser encontrados no seu blogue Blissblog, como uma discussão sobre o pós-punk no próximo dia 27, em Londres. Esta conta com a presença do próprio Simon Reynolds, bem como de Howard Devoto, Paul Morley, Gina Birch e Richard Boon, a que se segue um vídeo de 60 minutos sobre várias bandas: New Order, Fall, Cabaret Voltaire, Pop Group, Magazine, PIL e Orange Juice.
CICLO DE CINEMA NA UNIVERSIDADE CATÓLICA

Começou no dia 14, com o filme The Doors, mas continua no dia 21 com Belarmino, no dia 28 com Velvet goldmine, e no dia 5 de Maio com On connâit la chanson.

Sempre às 15:30, no anfiteatro 1, na UCP, à rua Palma de Cima, em Lisboa. Um projecto de Kino.