Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência mantida desde 2003.

31.5.04

AS NOTÍCIAS EM MAIO DE 1974 - I

As notícias publicadas durante Maio de 1974 – há 30 anos – por um conjunto de seis jornais lisboetas (Diário de Notícias, O Século, Diário Popular, Diário de Lisboa, A Capital e República) foram a base do livro Maio’74 dia-a-dia, publicado em 2001 pela editora Teorema e pela associação cultural Abril em Maio - os créditos dos autores surgirão na última mensagem desta série. O texto aqui presente foi o resultado da minha leitura desse livro, que fiz em 20 de Maio de 2001 naquela associação e, mais tarde, editado na revista JJ – Jornalismo e Jornalistas, nº 10, Abril-Junho de 2002.

O que aqui se mostra vale pela análise de uma época de grande transformação e profunda controvérsia social e política, de que os jornais são fiéis depositários. A sensação que tenho ao revisitar situações e simples vocábulos de há 30 anos lembra-me a leitura de jornais ainda mais antigos, mormente os das décadas de 1920 e 1930, que estudei afincadamente. A História não se pode debruçar apenas nos factos e nas interpretações que são feitas na época, mas também estudar em profundidade a linguagem dos textos. As imagens de jornais que acompanham o texto, apesar de escassas, servem para contextualizar o período.

Como a obra que sigo não existia sob a forma de história com enredo e personagens principais, tive de entrelaçar episódios onde convivem agentes sociais de nome impresso (políticos e artistas, que demarcam territórios políticos, sociais e culturais), e agentes sociais anónimos (autores de comunicados, cartas dos leitores e palavras de ordem, vozes populares cujos movimentos expressam vontades recalcadas ao longo do tempo e que explodem em simultâneo), formando pequenas histórias inteligíveis.

Três questões prévias

Primeiro, o livro não refere directamente os títulos, leads e fontes de informação nas notícias, mas as ideias, movimentos e frases-chave. É um registo de centenas de factos e de discursos, desconstruídos como se fizéssemos uma leitura diária, a que falta o enquadramento experiencial e de fundo. Cada acontecimento noticiado não parece ter articulação com os enunciados acima, abaixo, antes ou depois escritos, no espaço e no tempo. Não podemos comparar tamanhos, ver as secções dos jornais, perceber a contaminação dos textos próximos aos analisados. De qualquer maneira, qualquer mérito da leitura é totalmente devedor do livro sobre o qual escrevemos.

Segundo, as notícias giram em torno de acontecimentos, mas, com frequência,foto.jpg também anunciam intenções, projectos ou expectativas, mobilizáveis pelos agentes sociais. No período em análise, verificamos que os jornais se constituíram em enormes recipientes de comunicados e de outras estratégias de comunicação produzidas por diversificados promotores de factos, numa afirmação de significados. Em 1974, como hoje, cada agente social via os meios noticiosos como alvos privilegiados para passar mensagens. Embora verifiquemos grandes mudanças estruturais no decurso de um mês, não nos foi possível concluir se os jornais formaram a opinião pública, com a criação de uma agenda jornalística específica, ou se foram simples transmissores de factos e opiniões [imagem da revista JJ - Jornalismo e Jornalistas, onde publiquei o texto].

Terceiro, do livro preferimos estudar mais as páginas do lado direito – palavras, declarações orais, comunicados escritos – do que as páginas dos factos. Optamos pelo domínio do dizível, que se aproxima dos valores criados ou anunciados, do fabuloso, do imaginário, de um mundo sem barreiras. Maio de 1974, na apreciação às notícias editadas, foi um período de imensa utopia. Para trabalhar a informação incluída no livro seria preciso estender a duração do objecto de análise a mais meses de recolha de notícias e alargar a discussão a mais pessoas, para obter uma perspectiva científica das estruturas sociais e mentais. Contudo, pela amostra do mês recolhido, detectam-se a errância, a contradição, a rapidez e a dinâmica, a ultrapassagem de uns acontecimentos e agentes sociais pelos outros, nas opiniões e nas opções políticas delineadas, próprias de um momento crucial na vida do país. Por um lado, foi um tempo de ruptura com normas sociais e linguagens. Por outro lado, as movimentações e reivindicações sociais e políticas, apesar da grande produção factual e discursiva proveniente de Lisboa, espalharam-se pelo país.

A partir da leitura atenta do livro, incidimos o interesse, nomeadamente, nos valores-notícia, nas histórias de continuidade, em alguns personagens ou situações. Deixamos de fora, por exemplo, os enunciados sobre a situação política internacional, das colónias e dos partidos.

Palavras

A nossa análise começou no uso de novos vocábulos, que adquiriam um lugar importante na comunicação quotidiana. Em polarização simples e dicotómica definem-se fascistas e democratas – “democratas de Portalegre denunciam reuniões de fascistas notórios na cidade”, “grupo de fascistas interrompe uma marcha que atravessava Murça, vinda de um comício de Mirandela, e apedreja carros de democratas”, “sessão promovida por democratas em Cinfães”, trabalhadores do Benfica em protesto “contra fascista na direcção”. Trata-se de quadro facilitador para uma melhor compreensão pedagógica do tempo revolucionário. No campo jornalístico não se detectam intervenientes com interesses múltiplos, contraditórios, fazendo o jogo de outras forças ou procurando hegemonizar uma situação.

O medo de muitos levou-os a fugir do país, nomeadamente os identificados como pertencentes ao governo e às forças repressivas do anterior regime, ao mesmo tempo que se proclamava a necessidade da tomada de medidas económicas e financeiras estruturais. A fuga de dinheiro ou objectos foi notícia. De uma vez, foram apreendidos 13700 contos no aeroporto; de outra vez, um passageiro era detido no aeroporto com 7000 contos. Um responsável militar assegurava estar “controlada a saída de pessoas com capacidade financeira”, mas os bancários mantinham piquetes no BPA para evitar saídas de valores. O sindicato dos ourives pedia o controlo do fabrico e da venda de ouro e jóias. Os economistas defendiam a nacionalização da banca, enquanto a actividade da bolsa de valores era suspensa, informando-se, depois, a sua eminente reabertura. A nacionalização da banca e de outros sectores de actividade concretizou-se em 1975, marcando a agenda pública por longos anos.Maio 1974 - cartoon 2.bmp

Da leitura do livro, extraímos algumas expressões significativas da linguagem e da acção: quadros superiores da Soda Póvoa “não toleram infiltrações no seu seio de aventureiros, oportunistas e provocadores”, “provocadores ligados ao fascismo a infiltrarem-se na universidade”, “provocadores actuam na Faculdade de Letras do Porto”, “panfleto apelando à destruição de equipamentos fabris era de provocador ligado à antiga Legião”, “estão a ser elaboradas listas de bufos assalariados”, “o perigo da contra-revolução”, “Maria José Mauperrin reintegrada na EN”, “representantes dos TLP: saneamento a todos os níveis”, “destituição de fantoche”, “2000 trabalhadores da Timex continuam em greve até saírem seis indesejáveis”, os “realizadores-produtores apresentam um programa divisionista”, suspensão da greve na Renault “para evitar confusões com capitalistas e reaccionários que minam o actual movimento grevista”, saneamento de elementos da direcção e do corpo docente da Escola Superior de Meios de Comunicação Social.

Empregam-se termos como apoios, demissões, comissões provisórias. Registam-se simples mudanças de nomes, como o de grémio por associação. As alterações atingem a toponímica: Alpiarça, Guarda, Coimbra. Escritores arrancaram a placa da rua Agostinho Lourenço e substituiram-na por Soeiro Pereira Gomes, confundindo o nome de elemento da Pide com o de um químico do séc. XIX. A Junta de Salvação Nacional (JSN) aceitou o comunicado aprovado em reunião dos trabalhadores da TAP, para eleição de representantes na administração, mas com a alteração da palavra “exigem” por “requerem”.

[continua]

30.5.04

MEDIA DE PROXIMIDADE - II

Na sua tese de mestrado, Pedro Coelho (conhecido jornalista do canal televisivo SIC) escreve sobre media de proximidade, em especial a televisão. Próximo da definição de Carlos Camponez, que apresentei aqui ontem, os media de proximidade são aqueles que ligam uma comunidade humana de tamanho médio ou pequeno, com uma delimitação territorial e produzindo conteúdos relacionados com uma dada experiência quotidiana, um património linguístico, artístico e cultural, bem como uma memória histórica. Aos media de proximidade compete a denúncia dos problemas que afectam a comunidade e a promoção do debate e discussão com vista à sua solução.

Pedro Coelho fala das rádios locais e da televisão de proximidade. Abandonemos aquelas - espero retomá-la num dos próximos dias - e entremos na apreciação desta. A televisão de proximidade é colocada ao serviço da comunidade, "cúmplice do processo de desenvolvimento dessa comunidade" (p. 134) O autor dá exemplos de experiências de canais de televisão para condomínios, televisão universitária na Covilhã, televisão municipal de Évora e desdobramento das emissões da RTP em sete regiões, tudo já desaparecido.

Apesar de haver escassa informação, Pedro Coelho refere diversas experiências ocorridas na década de 80. Por exemplo, a TVAA, do Algarve (1980), as emissões que iam para o ar após o fecho dos programas da RTP, em 1983, em Évora, Espinho e Porto. Em 1984, no Porto, surgiu a TV Maravilha, chegando a ser captada durante alguns minutos. No ano seguinte, e ainda no Porto, a TVN (Televisão Regional do Norte) utilizou a frequência do canal 1 da RTP e na emissão participaram autoridades locais e eclesiásticas. Ainda em 1985, a partir da Cova da Piedade, e durante cinco meses, a Sul TV chegou a uma audiência de 20 mil telespectadores de Almada, Seixal e Barreiro. Mas houve também experiências a partir de Guimarães, Loures e Braga.

E Pedro Coelho destaca um homem - António Colaço, que já estivera por detrás do movimento das rádios locais, e hoje assessor de imprensa do partido Socialista. Associado a um movimento de cidadãos de Abrantes, colocou no ar a primeira emissão da TVA (Televisão de Abrantes). O tema central da primeira emissão foi a instalação polémica de uma central termoeléctrica na região (p. 154). O mesmo António Colaço apareceria ligado, em Abril de 1995, à TRP (Televisão Regional Portuguesa), a emitir a partir de um estúdio em Campo de Ourique, Lisboa. A emissão fôra anunciada quatro dias antes! O apresentador, de rosto semi-coberto, questionava a existência da liberdade de expressão audiovisual das regiões. No programa participariam ainda o actor Mário Viegas, o coronel Vasco Lourenço e o presidente da câmara de Constância, António Mendes.

Título da tese: A TV de proximidade e os novos desafios do espaço público (tese orientada por João Pissarra Esteves, professor da Universidade Nova de Lisboa, e escrita em 2003)

[este post deve ser lido em complemento e/ou associação ao que escrevi no passado dia 26]

29.5.04

MEDIA DE PROXIMIDADE - I

No seu livro editado em 2002, Carlos Camponez (Jornalismo de proximidade) obtém por empréstimo a definição de informação local como sendo aquela que cobre a vida de bairros urbanos, associações e cidades de menor dimensão (p. 109). A informação local constitui-se por notícias que dizem respeito a uma área geográfica delimitada e restrita. Camponez promove outros critérios para delimitar a formação de conteúdos da imprensa local e regional: 1) sede territorial da publicação, 2) âmbito de difusão e cobertura, 3) vocação e intenção da publicação, 4) tratamento dado aos conteúdos, 5) percepção do que é o leitor, 6) relação com as fontes de informação institucional.

O jornalista e professor da Universidade de Coimbra dá o exemplo do lançamento do Notícias de Leiria, em Julho de 1999. O folheto de divulgação e angariação de assinantes apresenta o jornal como construtor da sua identidade. Melhor dizendo, faz-se coincidir o espaço de difusão do jornal com um espaço natural de identidade regional que substancia a identidade do projecto de informação. Nesse jornal, uma das principais secções surge com a denominação de Metrópole, dedicado ao tratamento noticioso dos concelhos vizinhos de Leiria.

A redescoberta do conceito de proximidade é garantido por dois vectores: a) estratégia para recuperar franjas de públicos alheados dos grandes media, b) tomada de consciência, pelas elites locais (económicas, sociais, culturais, políticas), do peso da comunicação regional e local, traduzida em investimentos e renovação de projectos editoriais já existentes.

Livro: Carlos Camponez (2002). Jornalismo de proximidade. Coimbra: MinervaCoimbra

28.5.04

CARTA DA RTP

Recebi uma carta da Rádio e Televisão de Portugal, que agradeço, a propósito do Museu da Rádio. Nela se lê: "o actual Museu da Rádio não será «desmantelado». Pelo contrário, a instituição dará oportunamente lugar ao futuro Museu da Rádio e Televisão, passando a incorporar também o espólio do núcleo museológico da RTP". A mesma carta adianta que o museu da Rádio e da Televisão será instalado "em local adequado quer à boa conservação das peças como à sua efectiva disponibilidade". Mas ainda não terão sido tomadas decisões; quando isso acontecer elas terão divulgação pública.

UMA MEMÓRIA DA RÁDIO

"Seria fastidiosa a enumeração dos programas literários, científicos e musicais que a E. N. transmite em cumprimento dos objectivos de ordem cultural, formativa e recreativa que prossegue. Lembro, muito genericamente, a rádio escolar, os programas de teatro, as palestras sobre literatura e língua portuguesa, sobre temas científicos da actualidade e sobre os problemas fundamentais da Nação Portuguesa, designadamente os de Defesa Nacional. Lembro, ainda, as séries sinfónicas, realizadas em salas de espectáculo, os serões para trabalhadores realizados nas fábricas, os serões para soldados, marinheiros e forças de segurança realizados nos quartéis ou em grandes salas de espectáculo".

Trata-se de uma conferência proferida por Clemente Rogeiro, em 1971, então director da Emissora, e incluida no livro de Moreira Baptista, Geraldes Cardoso, Clemente Rogeiro e Ramiro Valadão (1971). Opinião pública - imprensa, rádio, televisão - problemática nacional da informação. Lisboa: Gratelo, p. 52. Nessa altura, estava-se nos anos finais do regime, com o livro a reunir escritos das figuras centrais ligadas ao aparelho ideológico da informação, rádio e televisão.

Curiosa a definição de panorama da radiodifusão sonora em Portugal, segundo Clemente Rogeiro: "Como se sabe, em Portugal vigora um regime a que chamarei de pluralismo radiofónico, para empregar um termo tão do agrado desta nossa época singular que em tudo pretende ser plural (1971: 49). Rogeiro referia-se à existência mútua de estações públicas (oficiais) e privadas (particulares), conquanto nesse momento não estivesse ainda consignado o pluralismo de opinião e manifestação. A definição do director da Emissora tinha como contraponto a situação do monopólio da radiodifusão no Reino Unido, onde a BBC se opusera recentemente a prerrogativas concedidas às estações particulares. Contudo, naquelas ilhas existia, há já muito, televisão para além do serviço público da BBC, mas o texto de Clemente Rogeiro é omisso quanto a essa forma de pluralismo.

A MORTE DE JOSÉ AUGUSTO SEABRA

Recebi com pena a notícia. Apesar de nunca ter sido aluno dele - muito embora palmilhasse os mesmos corredores da Faculdade de Letras do Porto, nesses idos anos 70 - lembro-me das suas posições intelectuais e políticas, às vezes bastante polémicas. E dos textos que produziu, nomeadamente no Jornal das Letras. A minha singela homenagem.

JOHN HARTLEY EM PORTUGUÊS

Recebi ontem da Quimera um exemplar do livro de John Hartley, Comunicação, Estudos Culturais e Media. Trata-se da tradução de um já clássico dicionário de entradas, inicialmente publicado em 1982 com o título Key concepts in Communication Studies.

Prometendo voltar mais tarde ao texto, deixo aqui uma definição de indústrias criativas (a que eu aqui no blogue chamo indústrias culturais): "são aquelas que tomam talentos criativos tradicionais nas áreas de design, da representação, da produção e da escrita, e os combinam com técnicas de produção e distribuição dos media (para escala) e com novas tecnologias interactivas (para personalização), de forma a criar e distribuir conteúdo criativo pelo sector de serviços da nova economia. O modo de produção é «Hollywood», não «Detroit» - baseado em projectos e inovador, em vez de industrial e normalizado. É caracterizado por redes e parcerias" (p. 143).

27.5.04

MEDIA, IMIGRAÇÃO E MINORIAS ÉTNICAS - UMA ANÁLISE DE IMPRENSA E TELEVISÃO

Saíu, no último número da revista MediaXXI, uma entrevista com a Prof. Isabel Ferin sobre "Media, Imigração e Minorias Étnicas", cujo trabalho foi apresentado recentemente e que dei aqui conta. [Observação: declaro que tenho uma forte ligação à revista].

Isabel Ferin gostaria que os media repensassem o seu papel a partir do tratamento científico da problemática. Por exemplo, ela nota que, relativamente à imigração, "já há uma sensibilidade de parte da imprensa para a necessidade de tratar o tema com delicadeza e os próprios jornalistas conseguiram impor nas redacções formas de tratamento mais cuidadas".

Isabel Ferin tem a autoridade de 12 anos de análise de imprensa no tocante a questões de imigração. Mas, na televisão, a discussão sobre a imigração é rara e, se aparece no prime time, é "sob as vestes de crime, prostituição ou agenda". Ela nota uma diferenciação no tratamento das notícias sobre o tema, nomeadamente a partir da aprovação e entrada de Portugal no espaço Schenguen (abolição de fronteiras nos Estados membros da UE).

Diz a professora da Universidade de Coimbra à jornalista Raquel Louçã Silva: "Em 89/90 começam a aparecer as elites intelectuais brasileiras, os dentistas, professores, publicitários, jornalistas. E, como são uma imigração de elite, acabam por não ser considerados imigrantes, porque o senso comum relaciona imigrante com alguém pobre e sem qualificação. A imigração brasileira começa depois a crescer em número, ao mesmo tempo que baixa o nível de escolaridade, a partir de 98/99. E é a mesma altura em que surgem os imigrantes de leste. A partir daqui a atenção dos media dispersa-se e deixa de estar centrada nos imigrantes dos PALOP e nas segundas gerações".

A equipa de Coimbra, liderada por Isabel Ferin, continuará a trabalhar o tema por mais um ano para o Observatório da Imigração, liderado pelo engº Roberto Carneiro. Entre outras peças, a revista MediaXXI traz a cobertura do recente congresso de Ciências da Comunicação, realizado na Universidade da Covilhã.

26.5.04

PARABÉNS, F. C. PORTO
A QUEM INTERESSA A RTPN?

Os jornais de ontem, dia 25, fizeram referência ao canal que substitui a NTV. Chama-se RTPN [o N quer dizer Nacional! Também existe a Orquestra Nacional do Porto!], e vai começar a emitir a partir da próxima segunda-feira. Segundo o Público, o director de programas José Rodrigues dos Santos terá afirmado: “Mais do que uma mudança de nome, imagem e de grelha, o que vai nascer na próxima segunda-feira é um novo canal da RTP”. À frente, a notícia diz que haverá uma “exportação” de programas entre os canais (RTP1, 2: e RTPi). Já o Diário de Notícias realça a aposta do novo canal a emitir do Porto na informação (que ocupará mais de 50% de espaço na grelha). Irónico, contudo, é o que diz o Público: “a administração está a convidar pivots a transferirem-se para a capital”.

Os dois jornais fazem alusão a programas âncora: o 4 X Ciência (uma das jóias da coroa, escreve o jornalista do Diário de Notícias) e a Hora de Baco. Mas também música, culinária, roteiro cultural, moda, desportos radicais. E o Público dá conta do orçamento: cerca de três milhões de euros. Barato, porque a maior parte dos conteúdos é de produtoras externas.

Confesso que fico sem saber a verdade: um novo canal? Mas de quê, se até os jornalistas e animadores (presumo que pivot seja a palavra que queira dizer isto) estão a ser convidados a trocarem o Porto por Lisboa? Também não percebi a história das negociações difíceis com a TV Cabo: será para dizer à SIC Notícias, por terceiros, que chegou a concorrência no cabo? Provavelmente, andamos todos a enganarmo-nos uns aos outros, como o conto de Hans Christian Andersen, que narrava a história do rei nu, mas que ninguém ousava dizê-lo. Não se passa de uma situação de ruptura eminente (e do anunciado desmantelamento da RTP, de há dois anos) para a de uma grande fartura de canais e com intenções de crescimentos de quase 100%, como a subida do share de 0,9% para os 1,7% da RTPN, presente nos discursos da cerimónia passados aos jornais. Por exemplo, o projecto da 2: ainda não encontrou o caminho ideal. Pelo menos, foi o que depreendi da notícia sobre um debate ocorrido na última quinta-feira, organizado pelo CIMJ, a que não pude assistir.

Há dias, li um notável editorial no jornal Público. Partindo de um outro exemplo (lamentável pelo seu enquadramento no tecido empresarial e empregador do Porto), o jornalista Manuel Carvalho comentava a aquisição total do canal NTV pela RTP. E concluía que este negócio fora uma grande perda para o Porto. A cidade viu desvanecer-se a hipótese de criar a fileira das indústrias culturais (audiovisual, escrevia o jornalista). Isto é: criar empregos para jornalistas, artistas, produtoras, argumentistas, catering, carpintaria, sonoplastia, marcas e nova imagem da cidade, ligações à Câmara do Porto e outras autarquias, aos capitais financeiros de empresas e empresários da região, ao cinema, ao vídeo, à rádio, às universidades, sei lá que mais. O Porto até tem várias e boas escolas de arte e de teatro, por exemplo. E paisagens exteriores de inolvidável beleza. Claro que seria difícil a equivalência, mas poderia aproximar-se da relação entre Madrid e Barcelona (cultura) ou entre Rio de Janeiro e S. Paulo (telenovelas). Por haver concentração geográfica empresarial, por oposição a descentralização, isso não quer dizer maiores ganhos de produtividade nem maiores projectos.

[razão sentimental grande: vivo em Lisboa, perto da praça de touros do Campo Pequeno, cujo restauro a está a pôr lindíssima, até parece ter minaretes como as igrejas de Moscovo, venham admirar, se fazem favor, mas vi as primeiras e inesquecíveis imagens de televisão no Porto, com as Lassies, os Rintintim, os Bonanzas e... as touradas do Campo Pequeno. Provavelmente Paz dos Reis, o primeiro cineasta do país, se ainda fosse vivo, partilharia igual mágoa face à desconsideração pela sua cidade]

25.5.04

ROMANCES POR TELEMÓVEL

[Recupero uma notícia editada no jornal Público de 8 de Abril deste ano]

Yoshi, antigo instrutor numa escola japonesa que prepara alunos para o ensino superior, é o centro de um novo fenómeno: jovens a ler romances no telemóvel.

Em 2000, começou a escrever um livro num sítio da internet que disponibiliza conteúdos para telemóveis. Com um pouco mais de €750 de publicidade, espalhou panfletos pelos jovens do liceu, em frente ao centro cultural juvenil de Tóquio. Em três anos, teria mais de 20 milhões de visitantes ao seu sítio. O livro, Deep love, é uma obra escrita em fragmentos de 1600 caracteres enviados periodicamente por e-mail para o telemóvel. De linguagem acessível, directa e coloquial - diz a notícia assinada por Nelson Marques, que estou a seguir -, Yoshi angariou leitores mais habituados a lerem manuais de instrução dos jogos vídeo.

Uma editora atenta publicou as estórias fragmentadas num livro em papel, o qual já vendeu mais de 1,3 milhões de cópias. E, em breve, a estória do Deep love passará ao cinema. Curiosamente, o êxito de Yoshi terá levado sítios de internet a disponibilizarem, por preços reduzidos, o download de livros, incluindo clássicos da literatura. E o mercado de romances dos telemóveis poderá crescer dos actuais €750 mil para os €75 milhões!

Impressionante como se formam nichos de mercado tão rentáveis, a partir de ideias aparentemente estranhas. E interessante o modo como uma narrativa atravessa várias indústrias culturais e cria valor na cadeia de calor dessas mesmas indústrias culturais. Um caso a acompanhar.

SOBRE A REGULAÇÃO DO SECTOR DOS MEDIA

Em Portugal, há uma tradição das leis de imprensa precederem as constituições políticas (1822, 1910, 1975). Por exemplo, na implantação da Primeira República, a lei foi aprovada em 29 de Outubro de 1910, escassa vintena de dias após a queda da monarquia. Depois, em 1975, a lei da imprensa seria publicada em 26 de Fevereiro, enquanto se aprovaria a constituição somente no ano seguinte.

Leis da imprensa

João Palmeiro, presidente da Associação Portuguesa de Imprensa – em notas que tirei da conferência por ele dada, no passado dia 13, no meu módulo do mestrado, Media, Públicos e Audiências, da Universidade Católica –, recordou elementos da lei de 1971 que carecem ainda de estudo. Referiu nomeadamente o relatório sobre a lei da imprensa de 1971, feito à Câmara Corporativa pelos então procuradores Maria Lourdes Pintasilgo e Diogo Freitas do Amaral. Este relatório falava de direitos e deveres dos jornalistas, matéria já então muito sensível. Para Palmeiro, o que ocorreu entre 1933 (constituição do Estado Novo) e 1971 (período do marcelismo) foi a aprovação de leis avulsas.

Por exemplo, nunca terá havido uma regulamentação específica da censura. Todos os censores eram militares. Curiosamente, a imprensa regional não tinha censura, no sentido do exame prévio. Por isso, pode falar-se (embora de modo restrito) de liberdade. Do mesmo modo, o exame prévio não incidia sobre a imprensa desportiva, o que levou bons jornalistas a escreverem neste tipo de imprensa, caso de A Bola e O Record.

Sobre aquele período do crepúsculo do Estado Novo, João Palmeiro – filho de um reputado jornalista com o mesmo nome, cujo período áureo se deu a partir de meados dos anos de 1920 – referiu as tentativas de implantação do ensino do jornalismo. Destacou o nome de Mário Quina, proprietário do Diário Popular e do Instituto das Novas Profissões, onde se preparava um curso de jornalismo no começo dos anos de 1970.

Organismos de regulação

Não há uma forte tradição da regulação do sector dos meios de comunicação em Portugal. Os conselhos de informação (lei de 1975) tinham uma função de controlo dos media do Estado (rádio, televisão e imprensa de âmbito nacional, estatizados nessa época). Excepto o Primeiro de Janeiro, todos os jornais tinham sido estatizados. No campo da rádio, a Rádio Comercial era o resultado da junção do Rádio Clube Português, Emissores Associados de Lisboa e Emissores do Norte Reunidos. Só a Rádio Altitude (Guarda) e a Rádio Clube do Centro - Emissora das Beiras não foram estatizadas [a Rádio Clube do Centro, que encerrou por falência em 1986, tinha estúdios em Aveiro, Guarda e Viseu e emissores (OM e FM) no Caramulo. Dica de A Rádio em Portugal, que ajudou a corrigir a informação que eu colocara inicialmente].


Os conselhos de informação eram, segundo João Palmeiro, watchdogs. Depois, em 1979, nascia o Correio da Manhã, jornal que ainda se mantém (e é líder de vendas), após várias experiências de jornais que desapareceriam mais ou menos rapidamente. Claro que houve experiências que tiveram algum sucesso momentâneo, caso do Jornal Novo, que terá atingido vendas na ordem dos 120-130 mil exemplares diários).

Um pormenor curioso: a publicidade da televisão estava adjudicada à Movierecord, uma empresa espanhola de discos (e que disputava com a Triunfo a produção discográfica no nosso país). Quando se dá a nacionalização da RTP (que apesar de ser considerada do Estado desde o início, em 1957, tinha capitais privados), a Movierecord vende os seus interesses – pelo que nasce a RTC – parte comercial da RTP. A RTC só desapareceria com o governo que tomou posse há dois anos, passando a RTP a ter um meio de publicidade.

Com a abertura do espectro radioeléctrico e a revisão da Constituição (1982) desapareceriam os conselhos de informação. Reprivatizavam-se o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias e promovia-se uma lei da rádio. Nascia o Conselho de Imprensa, presidido por um magistrado. De acordo com João Palmeiro, este Conselho era uma entidade de co-regulação, com patrões, jornalistas e partidos envolvidos. O organismo verificava o direito de resposta, mas só tinha o poder de fazer recomendações. Quando o Estado atribuía licenças, o Conselho não tinha poder jurídico de actuação.

Concentração

Da estrutura do Conselho de Imprensa passou-se o Conselho de Comunicação Social, com poderes executivos, criando-se as comissões de atribuição de alvarás. Em 1994-1995, adoptou-se o modelo francês – a Alta Autoridade para a Comunicação Social (AACS) assemelhava-se à Autoridade do Audiovisual francesa. Conclusão de João Palmeiro – a regulação em Portugal esteve sempre ligada aos conteúdos e nunca ao lado comercial e industrial.

Entretanto, discute-se a futura entidade que substitui a AACS, que terá uma composição distinta mas onde o peso do Parlamento é substancial. Se a administração da nova entidade tiver cinco elementos e se quatro forem indicados pelo Parlamento, a quinta será cooptada por aqueles. A administração será assessorada por dois colégios de interesse (1º, publicidade e vendas; 2º, conteúdos). A nova entidade assegurará algumas das competências na posse do actual Instituto da Comunicação Social (atribuição de licenças) e preocupar-se-á com questões como a concentração (pluralismo). Contudo, e no entender de João Palmeiro, o tema da concentração é delicado, pois ainda não há uma definição adequada à realidade portuguesa.

[A partir de uma conferência do dr. João Palmeiro, presidente da Associação Portuguesa de Imprensa, no dia 13 do presente mês. Qualquer engano ou omissão em datas e análise de instituições deve ser atribuida ao relator deste blogue. Desafiei o dr. Palmeiro a concretizar melhor em papel o que exprimiu na conferência; ele disse que gostaria de o fazer se houvesse uma equipa de investigação]

24.5.04

EDITAR UM BLOGUE

Uma das palavras que melhor retive no almoço de bloguistas, ocorrido no começo do mês, foi editar. Vários bloguistas têm a questão da edição em mente quando se trata de fazer uma nova mensagem.

Tal propósito encaixa na definição de novo jornalismo dada por John V. Pavlik, em Journalism and new media (2001). Ou melhor, de jornalismo contextualizado, que incorpora as capacidades multimedia das plataformas digitais, as qualidades fluidas interactivas e hipermedia da comunicação em linha (on-line) e a adaptação dos media aos interesses do cliente (leitor, espectador) (2001: 216). Se o jornalista, no mundo analógico, olhava o mundo e relatava os factos como eles tinham ocorrido, interpretava-os em termos do impacto da comunidade local ou da sociedade em geral e fornecia a opinião ou linhas editoriais, no mundo digital esperam-se outros papéis do jornalista. E quais são?

Primeiro, dado que há uma natureza ubíqua das notícias e da informação, o jornalista precisa de ser muito mais do que um simples contador de factos, pois tem de articular factos e contextualizá-los com as suas circunstâncias. Para além de observar directamente os acontecimentos, o jornalista precisa de confrontar a sua perspectiva com a fornecida por outros produtores de informação, em especial os ligados à net. O trabalho que produz tem de ser objectivo, preciso e curto, que a atenda audiências que querem informação actual mas não dispõem de muito tempo.

Segundo, é preciso ampliar o papel de intérprete desempenhado pelo jornalista. Este torna-se um “fazedor” de análises nos acontecimentos e processos, apoiado pelo uso de conteúdo hipermedia e orientado para os sujeitos da notícia. Tal implica novos modelos de formação e treino do jornalista. Terceiro, o jornalista desempenha um papel central no religar as comunidades. Pavlik chama-lhe jornalismo cívico em linha, capaz de encorajar a participação dos cidadãos na vida pública. Além disso, a nova postura do jornalismo significa interesse em tornar-se mais responsável para com as suas audiências.

Estas propostas de Pavlik, que se encontram nas páginas de conclusões do seu livro, precisam de ser discutidas [podendo, tenciono voltar ao livro]. Eu tenho dúvida da eficácia de algumas das perspectivas do jornalismo contextualizado. Mas não esqueço o papel dos blogues. Nestes dias, vários blogues questionaram o rumo do Museu da Rádio. E, por iniciativa de António Silva, há já 74 pessoas que preencheram uma petição de apoio ao Museu em A Minha Rádio , o que é um pequeno grande sucesso. Os meus cumprimentos ao António [que ainda não conheço pessoalmente, mas irei visitá-lo, quando for ao Porto, à sua (nossa) Faculdade de Letras].

Livro: John V. Pavlik (2001). Journalism and new media. Nova Iorque: Columbia University Press

ROQUE SANTEIRO NO CINEMA

Os direitos da telenovela Roque Santeiro, de Dias Gomes, foram comprados pela “Master Shot Filmes” para a sua passagem ao cinema. O filme será rodado em 2005, com a possibilidade da Globo Filmes entrar como co-produtora. O acordo de aquisição de direitos pode incluir a contratação dos actores que fizeram a novela: Regina Duarte (viúva Porcina), Lima Duarte (sinhôzinho Malta) e José Wilker (Santeiro).

O texto, de título original O berço do herói, fora criado para o teatro (1965), mas a ditadura militar censurou-o. Feita a adaptação para telenovela pela Globo (1975), também teve a proibição governamental. Só seria vista no Brasil em 1985. Aqui, em Portugal, passou nos anos de 1993-1994. E ainda está na memória de todos o gesto do tilintar das pulseiras de Malta e a expressão usual dele: "estou certo ou estou errado"? (dica de Daniela Bertocchi).

23.5.04

JOGOS DE SIMULAÇÃO: NO JARDIM INFANTIL A VIDA INTEIRA

É este o título de um texto de Patrícia Gouveia saído no número 4 (segundo semestre de 2003) da revista Caleidoscópio, da Universidade Lusófona (Lisboa). Pergunta a investigadora: “Quando estamos a fazer de conta que somos o presidente da Câmara numa cidade imaginária do Sim City, brincamos, tal como Alice no país das maravilhas, simulamos uma realidade, construímos uma personagem que interage com um espaço, mas estaremos a jogar?” (p. 57).

[imagem retirada do sítio SimCity]

O jogo e a indústria de jogos

Todos temos a percepção da importância dos jogos hoje, pois tem uma componente comercial e um mercado que já ultrapassa os números do cinema, conclui um dos estudos editados na revista, e pertencente a Filipe Roque do Vale, docente da Universidade Lusófona. Produzidos por uma parafernália plataformas, indo de computadores pessoais a consolas, telemóveis e televisão interactiva, observa-se uma enorme popularidade e expansão em número de utilizadores e em investimentos tecnológicos (p. 75). Escreve ainda Filipe Roque do Vale: “Os jogos actuais são peças de software produzidas na vanguarda do desenvolvimento tecnológico em que técnicos e criativos exploram os limites da tecnologia”. Os jogos combinam sistemas abstractos e matemáticos com sistemas estéticos e materiais e sistemas sociais, linguísticos e semióticos. Outro tema associado com o jogo é o da dimensão áudio, com os seus efeitos (sonoplastia) e a música (criação de sons, com melodia, harmonia e ritmo), conforme lembra Rui Pereira Jorge, outro docente daquela universidade.

Na apresentação deste número, o seu director, Luís Filipe Teixeira, defende ser esta “a primeira revista científica em Portugal, não só nas áreas das Ciências da Comunicação, que ocupa todo um número sobre este tema” (p. 6), a cultura dos jogos. Jogo e “jogar” são objecto de estudo que ocupa diversas disciplinas, como nota Espen Aarseth, no artigo de abertura e, talvez, o mais densamente teórico. Aareth, da universidade de Bergen, elenca, entre outras, a inteligência artificial, a ciência computacional, a sociologia, as ciências da crítica, análise e história do jogo, a narração, escrita e guionismo interactivos, os sistemas de jogo e sua concepção, o comércio de jogos e a gestão de pessoal.

O jogo pós-vídeo

Para Aarseth, o jogo virou “objecto de estudo humanístico somente depois dos jogos de computador e de vídeo se terem tornado populares”. Até aí, o jogo era visto com alguma condescendência pelas elites estéticas e teóricas, ocupadas com a análise dos campos artísticos da comunicação, caso da literatura, artes visuais, teatro e música (p. 9). Os jogos, no caso em estudo os digitais e de computador, são simulações e estas contêm outros fenómenos como máquinas ou media mais antigos. Aarseth refere outro autor, Konzac, que vê sete camadas diferentes no jogo de computador: hardware, código do programa, funcionalidade, jogabilidade, sentido, referencialidade e sócio-cultura (p. 12). Mas o nosso autor discorda de Konzac, para quem as diferentes camadas aparentavam ter todas a mesma importância. O acto de jogar é mais importante que o hardware.

Por isso, enuncia três dimensões gerais: 1) jogabilidade (acções, estratégias, motivos dos jogadores), 2) estrutura do jogo (regras), e 3) cenário do jogo (conteúdo ficcional, concepção topológica da estrutura do jogo, texturas). E considera que em jogos de estratégia e jogos baseados em reacção, casos de Command&Conquer, Tetris ou Quake, são as regras que dominam o jogo, ao passo que o cenário do jogo prepondera em jogos de aventura como Half-Life e Myst. [imagem retirada do sítio MYSTIII]

Aarseth compara a leitura de um livro ou o visionamento de um filme com o jogar um jogo. Se a interpretação de uma obra literária ou cinematográfica exige capacidades analíticas (p. 19), o jogo é uma actividade performativa, com uma hermenêutica dinâmica. Podemos avaliar um ensaio ou uma interpretação desempenhados por outros, mas, para demonstrarmos “a compreensão de um jogo, apenas temos que o jogar bem”.

22.5.04

A ESCRITA PARA O ECRÃ DE TELEVISÃO

Neste pequeno mas muito curioso livro, disponível ao público desde a presente semana, Laura Fernanda Bauder estuda a passagem do texto literário para o ecrã. Melhor dizendo, relaciona o mundo ilusório da ficção com o mundo virtual do audiovisual. O que implica o conhecimento das relações entre palavra escrita e imagem sonora, entre sistema sígnico verbal e conceptualizante e sistema sígnico (visual, sonoro, verbal e icónico).

A autora opõe dois autores, Marshall McLuhan e Raymond Williams, apesar de fazer uma igual apreciação. O primeiro ganharia nas suas profecias, quando anunciou uma nova época – a idade mágica da implosão eléctrica e da utopia tecnológica, marcada por sincronizações perfeitas, oportunidades educativas e autonomia artística. Além de analisar os dois autores, Laura Bulger juntou a mini-série televisiva portuguesa O Conde de Abranhos (de Eça de Queirós), com argumento de Francisco Moita Flores. Apesar do pouco espaço, trata-se de uma das partes mais significativas do texto, em que se identifica a novela claramente com os traços do género: brevidade, simplicidade, acção centrada numa figura primordial, referencialidade histórico-social. Na sequência, a professora da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro defende haver dimensão estética - semelhante às grandes obras literárias - em séries, mini-séries e telefilmes produzidos directamente para o pequeno ecrã.

Apesar de defender que a imagem da escrita no pequeno ecrã é prova da convivência feliz da literatura com o meio electrónico mais popular e manipulador (p. 45), Laura Bulger aponta diversas dificuldades que surgem nessa transposição, em especial as relacionadas com sumários espácio-temporais, intrusões narratoriais ou representações dos estados mentais da personagem.

Uma crítica ao livro apenas: as notas de rodapé, excelentes numa tese, não têm justificação aqui, num texto de perto de 50 páginas. Algumas ocupam mais de meia página, o que dificulta obviamente a leitura.

Livro: Laura Fernanda Bulger (2004). A imagem da escrita no pequeno ecrã. Coimbra: MinervaCoimbra

21.5.04

A INDÚSTRIA DAS TELENOVELAS NA AMÉRICA LATINA, SEGUNDO NORA MAZZIOTTI (1996) (continuação da mensagem de ontem)

Da actualidade ao papel do produtor independente

Outra zona que caracterizou estas novelas foi a inclusão de motivos de actualidade. A novela mostra-se como um texto poroso que permite a incorporação de temas considerados de conhecimento necessário das audiências. Os temas abordados são os que compõem a agenda dos meios para “a mulher informada”. Têm o lado didáctico característico das revistas femininas. Falou-se de zapping para sintetizar o cruzamento de situações absurdas, enredos, conselhos médicos explícitos, personagens ridículas, intrigas empresariais, discursos de tom feminista, agenda de actualidade.

Desde o começo da década dos anos 1980 assegura-se a presença do produtor independente. Claro que, devido aos esforços de produção e reconhecendo os acertos, sobressai ainda mais a desatenção à qualidade da história. Os guiões navegam entre o anacronismo e a inverosimilhança, ligados ao exagero do protagonista e ao tom sério e solene. Em ambos os modelos apresentados põem-se em evidência os dispositivos industriais para fabricar produtos que circulam no mercado de exportação.

Finalmente, e segundo Nora Mazziotti, apesar de um maior investimento na sua produção, maiores possibilidades técnicas de realização e com actores de reconhecido profissionalismo, as histórias narradas carecem de densidade e rigor na construção como em décadas anteriores.

O livro tem ainda capítulos sobre os principais mercados produtores de novelas (Brasil, México e Venezuela) e analisa a produção de telenovelas no seu país em contextos sociais e políticos distintos, como a fase de ditadura militar e a internacionalização do género televisivo.

Livro: Nora Mazziotti (1996). La industria de la telenovela. La producción de ficción en América latina. Buenos Aires, Barcelona e México: Paidós

CONGRESSOS

III Congresso Luso-Galego (4 e 5 de Novembro de 2004), em Santiago de Compostela. Altura em que serão apresentadas as actas do primeiro congresso (que decorreu em Santiago de Compostela, em Novembro de 2002) [o IV Congresso Luso-Galego decorrerá no Porto, na Universidade Fernando Pessoa, em Março de 2005].

XIX Congreso Internacional de Comunicación (Pamplona, 11 e 12 de Novembro de 2004) - tema: A comunicação em tempos de crise: do 11-S ao 11-M). Aceitação de comunicações até 14 de Junho. Para mais informações ver XIX Congreso Internacional de Comunicación.

20.5.04

A INDÚSTRIA DAS TELENOVELAS NA AMÉRICA LATINA, SEGUNDO NORA MAZZIOTTI (1996)

Nora Mazziotti estuda em especial as telenovelas argentinas no começo dos anos 1990, relativamente fora do mainstream das novelas brasileiras da Rede Globo de Televisão (pelo menos para nós portugueses). Para Mazziotti, importa realçar as heroínas como dispositivos da indústria cultural (capítulo 8, pp. 141-165], atendendo a que a grande característica do melodrama - que é a telenovela, ou culebrón como se diz em castelhano - é produzir emoção, o que não acontecia com as telenovelas de começos de 1990.

A autora, docente de Ciências da Comunicação da Universidade de Buenos Aires, distingue dois modelos principais na fórmula da telenovela. O primeiro é o das novelas de produtor. São super-produções que se destacam pelo cuidado técnico, a grandeza dos cenários, a incorporação de elencos numerosos, a espectacularidade do vestuário, uma grande quantidade de exteriores. O segundo conjunto é o modelo de telenovelas de actriz, porque estas sobressaem e porque acompanham os objectivos da protagonista em fazer carreira. Enquanto o primeiro modelo assenta na inovação, no segundo não há: as diferenças entre telenovelas são variações na estrutura narrativa e incorporação de temáticas próprias da agenda jornalística ou ritmos de narrativa correspondentes a outros géneros.

A autora elenca, contudo, um terceiro modelo, o das telenovelas da época, relatos que representam o passado e o tematizam. Nestas, o tratamento do passado não é a busca da verosimilhança das etapas históricas abordadas. Não se pretende que a ficção histórica seja fiel na representação dos factos narrados. As telenovelas podem produzir a sua versão da história com igual liberdade que qualquer outro produto ficcional, como na literatura ou no cinema. Ainda sobre as telenovelas de época, Mazziotti considera que as fontes que alimentam estes produtos não estão no passado histórico mas nas imposições dos sócios estrangeiros, que controlam a produção, caso do cinema americano. Estas imposições tornam-se evidentes na criação de personagens como na do clima de uma época, que procuram dar um glamour de Hollywood.

Sobre as heroínas e os galãs

Mazziotti descreve as heroínas progressistas que surgem em algumas telenovelas, ou a invenção do feminismo. São heroínas que se opõem às normas sociais e se aventuram em âmbitos vedados anteriormente à mulher. Qualquer que seja a profissão exercida, estão orientadas para a esfera pública. São heroínas que se afastam dos estereótipos do “feminismo” construído pelo melodrama, o da protagonista doce, sofrida, dócil. O novo comportamento radica no discurso verbal combativo e no estilo assumido pela atitude progressista face a questões sociais. A proposta de figuras femininas fortes pode resultar atraente, mas, diz Mazziotti, a luta pelos direitos das mulheres que desempenham estes papéis pouco tem a ver com os discursos das mulheres das épocas retratadas. Estes papéis acabaram sendo construídos por filmes, séries, mini-séries e telenovelas estrangeiras, com discursos audiovisuais e literários que enformam a “história mediática”. O recurso ao cinema apenas corresponde ao tratamento cinematográfico, de vestuário, e desaparece na zona em que devia ter sido construída com maior rigor: o desenvolvimento de personagens. As heroínas conseguem ultrapassar as dificuldades, mas a sua rebeldia é uma atitude verbal: não corresponde à totalidade das suas acções nem ao desenvolvimento da trama. São declarações feministas não incorporadas na história, nem implicam uma transformação cabal do papel tradicional da heroína.

No conjunto das telenovelas argentinas, Mazziotti analisa Celeste, onde se salientou a incorporação da sida, uma temática própria dos anos 1990. Inclusive, apresentavam-se uma jornalista e um doente de sida verdadeiros junto à personagem doente. Era a televisão dentro da televisão. A inclusão da sida no guião representou uma marca tão forte que a opinião pública argentina a ela se referiu em notas, entrevistas e comentários sobre as telenovelas. Claro que os motivos sociais caracterizaram sempre o melodrama, a sua permanente denúncia, e o que fazem o guionista e a sua equipa é aggiornar a temática e não incorporá-la. Por outro lado, a relação heroína/vilã tornou-se mais complexa ao incorporar, para além das polaridades morais do melodrama, densidades psicológicas.

Noutras telenovelas analisadas pela autora – e que também não vimos em Portugal –, construía-se um novo tipo de heroína feminista: com independência económica e de pensamento, com incursões no mundo do trabalho e com tomada de atitudes. Na construção do novo estereótipo, permite-se à heroína a sedução, um recurso tradicionalmente usado pela vilã. Ao invés, o galã surge mais sensível, mais vulnerável e disponível a enamorar-se. Com o avanço da heroína em papéis activos, em situações de humor, na sua responsabilidade de urdir a trama ou verbalizar frases de um “feminismo” agressivo, perde-se o clima romântico ou sentimental que caracterizou a telenovela em grande medida.

[continua]

19.5.04

PRÉMIO DE JORNALISMO PARA A PROMOÇÃO DA INTEGRAÇÃO, COMBATE AO RACISMO E OUTRAS FORMAS DE DISCRIMINAÇÃO

Foi feita a entrega de prémios de jornalismo atribuida pelo ACIME (Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas), nas modalidades de imprensa, rádio, televisão e estudos universitários, além de um grande prémio para a área dos media. O júri decidiu não atribuir o prémio de televisão.

O grande prémio foi para o jornalista Paulo Moura (Público), pelas peças noticiosas Missnana, o sonho leve da morte e Um bebé é um passaporte para o céu. Nestes dois trabalhos, Paulo Moura descreve a situação de imigrantes ilegais no norte de África, na região subsaariana, vindos nomeadamente da Nigéria.

O prémio de imprensa (escrita) distinguiu a jornalista da Visão, Alexandra Correia, com uma peça intitulada Rejeitados, sobre a nova lei da imigração e o modo como os imigrantes se adequam a ela. Ao microfone, a jornalista agradeceu - é que se trata do primeiro prémio da sua ainda jovem carreira.

No campo da rádio, o prémio foi entregue à equipa da RDP constituida por Helena Figueiras, Mário Antunes e António Pires, intitulada Nas asas de Sergio Démian - um farol em Portugal. Para mim, que gosto muito de rádio, asseguro que se trata de uma estória comovente, a de um moldavo que chegou a Portugal, apaixonou-se pelo país (e pela música dos Madre de Deus), saiu do país à procura de elementos de legalização e sempre ansioso de regressar. Começou na construção civil mas hoje já é jornalista - o seu velho sonho. A peça dos jornalistas da RDP narra ainda outras estórias de imigrantes de leste no Algarve.

O júri ainda deu uma menção honrosa ao trabalho radiofónico de Manuel Vilas-Boas (TSF), pela peça A cor dos dias, sobre a comunidade cigana.

Dos trabalhos académicos a concurso, seriam premiados ex-aequo duas teses de doutoramento, de Maria Rosa Cabecinhas (Racismo e etnicidade em Portugal) e de Manuel Augusto Abrantes da Costa, professor do ensino básico e animador das comunidades ciganas (Representações sociais da comunidade cigana).

Foi uma excelente noite, proporcionada pela comunidade hindu em Portugal, que acolheu esta cerimónia nas suas instalações. Uma visita ao seu templo, no Lumiar, e um jantar vegetariano típico da Índia proporcionaram uma muito boa impressão.

Como membro do júri (presidente) não deixei de referir publicamente que "a avaliação [dos trabalhos] foi, como compreendem, difícil, mas ela compensou-nos intelectual e civicamente. Com uma referência especial para as peças jornalísticas, dado que os media são, cada vez mais, veiculadores e formadores da opinião pública. E, em época de menor desafogo económico, é fácil apontar o Outro, o estrangeiro, como um dos males da situação. O papel fundamental dos media é informar, mas pode (e deve) exercer a função de formar, anotando os preconceitos e os estereótipos que surgem na opinião pública sobre imigrantes e minorias étnicas. As estórias jornalísticas, ao mostrarem casos de sucesso (alguns) ou de fracasso (mais), alertam os poderes públicos instituídos no sentido de uma melhor formulação de políticas. Muitas dessas estórias operam num registo comovente de esperança. Há peças jornalísticas que são quase hinos à capacidade de sobrevivência de homens e mulheres marcados pelas dificuldades. São peças com nomes, heróis e heroínas anónimos que lutam para conseguir objectivos básicos da condição humana: o emprego, o reagrupar da família, o respeito dos outros – “à procura de uma vida melhor”, como se editou numa das peças jornalísticas".

18.5.04

TARANTINO VISTO POR AUGUSTO M. SEABRA

No seu texto ontem editado no jornal Público, Augusto M. Seabra nomeia Quentin Tarantino como sendo um cineasta exponencialmente pós-moderno, a propósito da segunda parte de Kill Bill. Desde sempre tive alguma dificuldade em compreender a designação de pós-moderno [claro, a falta é minha. Em especial, desde o congresso sobre pós-modernismo, ocorrido nos longínquos anos de 1980, à volta do papa Eduardo Prado Coelho, nas Belas-Artes ao Chiado, e quando o jornal Expresso saído no sábado do evento o designava por "pós de modernismo"]. Mas Augusto M. Seabra ajuda a compreender o pós-modernismo, quando escreve que Tarantino pratica uma nova cinefilia, "aprendida e praticada já não nas cinematecas, como na geração da «nouvelle vague», não nas escolas de cinema, como os «movie brats» dos anos 70, mas nas lojas de vídeo". O que pode ser uma paródia, escreve o mesmo crítico, dada a escolha prévia de bocados de cada filme, agravados com a técnica do rewind e do fast forward. É como se fosse o sampling na música de hoje.

Assim, Kill Bill vol. 1 seria uma colagem de referências: Jean-Luc Godard, Sérgio Leone, cinema de animação, jogos vídeo. Já o vol. 2 se apresenta como o das personagens falantes. Na realidade, não há as matanças da primeira parte, como as cenas do restaurante, e o vol. 2 explica-nos a essência assassina de Beatrix a noiva, quem é Bill, qual o papel do mestre de artes marciais - isto é, quase tudo o que ficou em suspense na parte 1 - , embora ainda passe pelas mortes de Budd e Elle Driver (e também do mestre de artes marciais). O final, o da recuperação da filha julgada inexistente, é feliz. Para Augusto M. Seabra, a noiva ultrapassa a fase do luto e consuma o seu gesto de vingança não através da luta com a espada feita por Hattori Hanzo mas tão só por um duelo "falante".

Um pormenor interessante é o piscar de olhos à assistência do cinema por parte da noiva Beatrix (interpretada por Uma Thurman, 34 anos), quando ela conduzia o seu automóvel, presumo que em direcção ao México. Isto no meio dos infindáveis créditos no final do filme, dado que se passou em sítios como Los Angeles, Beijing e México, e houve diferentes equipas de trabalho. Uma mostra, embora discreta, de que o controlo final do filme pode ter escapado a Tarantino, mas em que ele deixa uma marca.

17.5.04

LIVROS E PRÉMIOS

Está a ser lançado neste momento o livro de Laura Fernanda Bulger, A imagem da escrita no pequeno ecrã, na colecção Cadernos Minerva, na livraria Barata, aqui em Lisboa (a vantagem é que moro a 150 metros). Da contracapa, retiro a seguinte informação: "A imagem da escrita no pequeno ecrã é prova da convivência feliz da Literatura com o meio electrónico mais popular e manipulador que, entrando-nos pela sala dentro e servindo-se do rectângulo luminoso colocado em qualquer lado da sala, mostra as acções de gente melhor, pior ou igual a nós". Laura Bulger pertence à Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. McLuhan, Raymond Williams, a série americana Hill Streets Blues e a série portuguesa O Conde de Abranhos, com argumento de Francisco Moita Flores, fazem parte do menu. Comprem o livro (48 páginas e custo de €7) e divirtam-se.

Depois, amanhã, será mostrado o livro de Isabel Ferin Cunha, Clara Almeida Santos, Maria João Silveirinha e Ana Teresa Peixinho, Media, imigração e minorias étnicas, do ACIME (Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas), durante a entrega de prémios de jornalismo do mesmo ACIME [procurarei dar aqui relevo na mensagem de 4ª feira]. Trata-se de um estudo apresentado recentemente sobre a representação social dos media quanto às questões da imigração e minorias.

Voltando à editora Minerva. O caderno agora apresentado é o nº 5. Os cadernos anteriores têm textos de Jenny Kitzinger+Jacquie Reilly, com prefácio e tradução de Cristina Ponte, Eduardo Cintra Torres, Elihu Katz+Daniel Dayan e Rogério Santos (Jornalistas e fontes de informação - a sua relação na perspectiva da sociologia do jornalismo). A Minerva tem ainda a colecção Comunicação, lançando o nº 31 na próxima 4ª feira, um texto de Joaquim Trigo de Negreiros, Fantasmas ao espelho - modos de auto-representação dos jornalistas. Trigo de Negreiros foi um dos fundadores do jornal Público, ensina na Escola Superior de Comunicação Social e prepara a sua tese de doutoramento na universidade de Leeds (Reino Unido).

16.5.04

A MINHA LEITURA DO EL PAIS DE HOJE

Extraio informação de duas notícias ou artigos:

Paul Kennedy e a degeneração da guerra

Paul Kennedy esteve presente, três fins-de-semana atrás, num congresso internacional na universidade de Yale, onde é professor, e intitulado A degeneração da guerra, 1914-1945. Os académicos presentes analisaram casos práticos ocorridos nas duas Guerras Mundiais, nas quais as lutas se tornaram muito mortíferas e a disciplina militar se deteriorou à medida que cada uma das guerras se prolongava. Mas a análise aplica-se, que nem uma luva, à História contemporânea.

Conclui-se pela existência de dois tipos de degenerescência em tempos de guerra. O primeiro relaciona-se com o aumento físico do número letal das armas empregues. Cada arma nova produz uma maior mortandade face a armas anteriores. O segundo tipo de degeneração é a perda de referência dos princípios das convenções de Haia e Genebra relativamente aos prisioneiros de guerra. Kennedy nota com preocupação o crescendo do primeiro tipo de degenerescência, mas a sua apreensão volta-se para o segundo tipo. E salienta, claro está, as fotografias e os vídeos feitos na prisão de Abu Ghraib.

No caso da guerra do Iraque, escreve Kennedy, à medida que se alarga a primeira degeneração, com aumento de perda de vidas, cresce também a segunda. Os soldados americanos, desfeita a possibilidade de regresso rápido a casa e perante a morte de muitos dos seus companheiros, passariam a tratar duramente os prisioneiros. E o mau tratamento a esses prisioneiros poderá ter vindo de unidades compostas de soldados com menos qualificações e menos disciplinados.

Prossegue o artigo do académico de Yale: pedir agora ajuda à ONU para que apoie os americanos, quando ano passado o vice-presidente americano classificou a organização como irrelevante, parece condenar-se ao fracasso. E Paul Kennedy, mais à frente, cita um livro recentemente aparecido, de Niall Ferguson, para quem o ter poder militar e material pode querer dizer pouco se as opiniões públicas dos Estados Unidos e de todo o mundo se opuserem a esse poderio. E as imagens passadas na televisão, na internet e nos jornais tornaram essas opiniões públicas muito pouco apoiantes do lodaçal desta guerra, como conclui Kennedy.

Paul Kennedy é titular da cátedra Dilworth de História e director do Centro de Estudos de Segurança Internacional da Universidade de Yale. Escreveu Ascensão e queda das grandes potências (Publicações Europa-América, 1997).

SOCIABILIDADE ATRAVÉS DA INTERNET

Félix Moral, professor de Psicologia Social da Universidade de Málaga, elaborou um estudo sobre o tipo de relações sociais que se formam através da internet. Ao contrário do que se afirma comummente, em que os internautas são apresentados como isolados socialmente, o professor malaguenho considera que 80% dos internautas têm grupos de amigos em que a relação estabelecida é muito boa. Isso estende-se às pessoas extrovertidas [creio que o almoço que quase 40 bloguistas no primeiro de Maio em Vila Nova de Gaia demonstrou isso].

Conhecer pessoas é cada vez mais fácil na internet. Primeiro há um contacto intelectual, depois o físico. E o correio electrónico tem a concorrência de grupos de discussão. São as designadas redes sociais, em que se acrescentam novos contactos. Há também contactos profissionais propiciados por sítios como Linkedin e eConozco ou mesmo participar com amigos, procurar novos amigos e colocar fotografias, como em Orkut e Friendster.

15.5.04

DECLARAÇÃO DE BOLONHA

Os jornais diários trazem hoje informação sobre a Declaração de Bolonha (DB) e o que vai mudar no ensino superior. Os títulos de dois jornais de Lisboa - os que eu li - são distintos. Enquanto o Público enfatiza a duração mais curta das licenciaturas, a partir de 2005, o Diário de Notícias dá relevo aos créditos na universidade a partir da experiência da vida.

O Público refere, no primeiro parágrafo, a nomeação de coordenadores que irão propor, até final do ano, a nova duração das licenciaturas. Dos nomes mais conhecidos para as áreas das ciências sociais e humanas, destaque para Manuel Braga da Cruz, reitor da Universidade Católica Portuguesa. E se o Público considera que os coordenadores apontarão uma duração, nas licenciaturas, de três a quatro anos, o Diário de Notícias descreve duas hipóteses - envolvendo licenciatura e mestrado. Muitos dos países que assinaram a DB optaram por um esquema de 3+2 (licenciatura + mestrado), mas Portugal poderá decidir por um sistema flexível que envolva o 3+2, mas também o 4+1. Isto é, até ao final do ano não se saberá muito bem como ficarão as coisas. E Portugal terá de prestar atenção ao que se passa em Espanha, que ainda não definiu a duração dos seus cursos. No país vizinho, salta-se da licenciatura para o doutoramento sem passagem pelo mestrado, atractivo, hoje, em Portugal, para quem pretenda não perder tempo com o grau de mestrado.

Um objectivo comum às duas notícias - com origem na apresentação, ontem, do plano de implementação da DB pela ministra Graça Carvalho - é o encurtamento das licenciaturas, de modo a colocar mais cedo os jovens no mercado de trabalho, com competências para a empregabilidade. Outro elemento comum nas notícias é o estabelecimento das unidades de crédito (ECTS), com equivalências entre um mesmo curso em três dezenas de países que aderiram à DB, gerando maiores facilidades na mobilidade de estudantes (e também professores) nos países europeus. O sistema inserido na DB abrange 12 milhões de estudantes. Outra informação prestada pela ministra, e que o Diário de Notícias pormenoriza mais, é "o reconhecimento e certificação de competências informais e experiências profissionais adquiridas ao longo da vida e fora do percurso normal de ensino", validado pela atribuição de créditos.

Estaremos aqui atentos ao desenrolar do sistema baseado na DB.
DO QUE OBSERVEI E AINDA NÃO PUDERA ESCREVER

Os dias passam velozes e as solicitações são muitas, deixando no caderno apontamentos que carecem de ser organizados. Deixo aqui três deles: I) colóquio na UAL; II) Comcast versus Disney; III) a rainha dos patrões do cinema (Mayer).

I) Colóquio na UAL sobre "Comunicação social, segurança e defesa - os media em situações de crise, conflito e guerra"

Decorreu na UAL (Universidade Autónoma de Lisboa) um encontro subordinado a esse tema, no passado dia 11. Tomei algumas notas - estive presente, a moderar uma mesa, na qualidade de director da revista MediaXXI, para onde escreverei um artigo. Contudo, deixo aqui duas ideias:

1) tipos de relações entre jornalistas e militares, segundo a professora Paula Monge Tomé (UAL): diferentes em situações de paz ou guerra, consoante se trate de um país com regime democrático ou autocrático e entre cobrir a guerra do lado dos americanos (embeded) e do lado dos iraquianos, no caso da actual conflito no Iraque.

2) os níveis do jornalista no terreno da guerra, segundo o general Abel Cabral Couto (antigo presidente do Instituto de Defesa Nacional): o profissional na frente da batalha não tem a percepção da totalidade, pois vive demasiado perto de uma realidade local. É o repórter, por oposição ao que está presente em conferências de imprensa, o correspondente, com contactos suplementares. Finalmente, o comentador, que no estúdio de televisão interpreta a informação que lhe chega. É já do domínio da intelligence, pois tem uma visão mais alargada dos fenómenos em questão.

Jornalistas como Carlos Fino (RTP), Pedro Pinto e Henrique Garcia (ambos da TVI), Marta Atalaya (SIC Notícias) e Cândida Pinto (SIC) também deram a sua perspectiva nesta jornada da UAL, organizada pelos departamentos de Relações Internacionais e Ciências da Comunicação.

II) COMCAST RENUNCIA AO CONTROLO DA DISNEY

Já fiz referência neste sítio ao pretendido controlo da Disney por parte da Comcast (e que pode ter estado na dividida reunião da Disney, que retirou poderes a Michael Eisner). Mas agora é a vez de Brian Roberts, da Comcast, se retirar do sonho de ter em mãos a maior operadora de telecomunicações e de conteúdos a par da News Corp, de Rupert Murdoch (que se mudou recentemente para Nova Iorque).

Desde o primeiro momento que os investidores e os executivos da Disney tinham deixado claro o seguinte: ou a Comcast aumentava a oferta de 66 mil milhões de dólares, incluindo a dívida, ou não havia negócio. E o jornalista Sandro Pozzi (El Pais, 9 de Maio último) - que eu sigo nesta mensagem - diz que Roberts cometeu um erro, por excesso de confiança e falta de estratégia para se aproveitar da rebelião interna da Disney contra Eisner. É que ele queria fazer um takeover nada amigável, o que levou a Disney a cerrar fileiras.

A Comcast teve um aumento de lucros no primeiro trimestre de 9,8%, chegando aos 4,6 mil milhões de dólares. Mas a concorrência também saiu beneficiada: a Time Warner subiu 11%, arrecadando 2,04 mil milhões de euros. O que entusiasmara a indústria do entretenimento americana, há três meses atrás, foi o anúncio da Comcast, ao ir além do seu negócio tradicional - televisão por cabo - e implantar-se nos conteúdos e na distribuição. Mas os analistas financeiros de Wall Street nunca acreditaram nesta ligação.

E, curioso, quando a Comcast manifestou a intenção de comprar a Disney, o patrão daquela (Brian Roberts) ridicularizou o homem forte desta (Michael Eisner). Eisner perdeu poder, mas as acções da Comcast baixaram de cotação em 10%, até Roberts anunciar que renunciava à compra. E Eisner, que se dizia que chegara ao fim, pode respirar de alívio e tratar de fazer os seus combates no interior da Disney. O "príncipe" Comcast deixou sem par de baile a "princesa" Disney. Seguiremos atentamente estas histórias.

III) A RAINHA DOS PATRÕES DOS FILMES

Ela dá pelo nome de Amy Pascal. Para a Mayer (o último nome da Metro Goldwyn Mayer, onde pontifica um leãozinho a rugir como marca), a senhora Pascal fez sair cinco filmes muito lucrativos – vão os nomes em inglês (como estão escritos no Sunday Times de 9 de Maio último, em artigo assinado por Dominic Rushe, e que eu sigo de muito perto): Gothika, Hellboy, 13 going on 30, Secret window, 50 first dates. O que também foi responsável por ela se tornar presidente do grupo de cinema da Sony, a Columbia Tristar. E Amy Pascal prepara-se para lançar um novo sucesso, o Homem-aranha 2.

Há uma ironia em tudo isto: a Sony espera ver-se livre do velho estúdio da Mayer, onde se filmaram as aventuras de James Bond. É que os bons velhos dias já passaram e o catálogo de filmes da MGM vale muito mais do que a produção de novos filmes. E Pascal tem um responsável acima de si, o londrino de nascimento Michael Lynton, anteriormente presidente-executivo da AOL Time Warner da Europa. A unidade de Amy Pascal é a estrela cadente de uma companhia em apuros. A Sony tem uma dívida de 12,8 biliões de dólares e está a meio de um processo de reestruturação. Se a divisão de produtos electrónicos ainda não dá lucros, a sua unidade musical luta com a concorrência e a ameaça da pirataria, diante da apatia dos consumidores.

Como a história das empresas tem narrativas dignas de um romance, filme ou telenovela, a Mayer tem um terceiro personagem, chamado Kirk Kerkorian, nascido em 1917, seis anos antes do primeiro filme da MGM. Kerkorian, californiano de origem arménia, é o 33º homem mais rico da América (seis biliões de dólares), e já comprou a MGM e a vendeu por duas vezes (tem 75% da MGM). Parece que se prepara para sair, mas a Sony e a MGM não comentam. A MGM é o último estúdio independente de Hollywood. Todos os rivais estão nas mãos das multinacionais. A Warner Brothers é proprietária da Time Warner e a 20th Century Fox pertence à News Corporation (que detém o próprio Sunday Times). Do lucro de 1,9 biliões de dólares de rendimento o ano passado, 1 bilião veio da divisão de entretenimento do lar. A MGM tem um catálogo de quatro mil filmes, como West Side Story, os Rockys, Terminator, 19 filmes de Woody Allen, e uma mão cheia de filmes de Ingmar Bergman.

14.5.04

OS ANOS DO MUSEU DA RÁDIO

Faz hoje doze (12) anos que abriu as portas o Museu da Rádio. Escreve Matos Maia no seu livro Telefonia (Círculo de Leitores, 1995, p. 296): "O Museu foi uma ideia do Rádio Clube Português, na década de 60 [...]. [Ela] partiu de José do Nascimento, quadro superior do Rádio Clube Português [...]. Desde a primeira hora, colaboraram com José do Nascimento, no projecto, outros dois colegas do RCP: Manuel Bravo e Armando Leston Martins". Depois, seguiram-se várias vicissitudes, acabando o Museu por ser inaugurado em 14 de Maio de 1992. O museu tem cerca de cinco mil peças e recebe anualmente à volta de doze mil visitantes.

Na hora em que se comemora o 12º aniversário, há nuvens muito toldadas quanto ao seu futuro. A notícias editada no jornal Público, do passado dia 1, não foi ainda desmentida pela administração da RTP, proprietária do museu. Para além da possível transferência do património para o Museu das Comunicações, a notícia informa que uma parte do acervo pode ir para a sucata, o que seria lamentável.

Apelo ao bom senso de quem manda nestas coisas para que repense o futuro de tão importante museu. Peço a todos os internautas que consultem o blogue A Minha Rádio e assinem a petição. Por favor, visitem ainda o sítio Rádio no Sapo.

MEMÓRIAS DA RÁDIO NO PROGRAMA JARDIM DA MÚSICA

Na última segunda-feira, no programa de Judite Lima, Jardim da Música (Antena 2), Eduardo Street continuou a falar das memórias da rádio. Ele referiu-se a um programa de 1955, Viagens da Terra à Lua, de Pedro Moutinho, o qual ganharia o segundo lugar no Prémio Itália para a radiodifusão. Dois anos antes do lançamento do primeiro Sputnik e a uns anos largos da primeira viagem a sério até à Lua, a Emissora Nacional usava seis gravadores para criarem o efeito dos sons dos propulsores dos foguetões espaciais. Era um tempo magnífico para a ficção científica.

Para a próxima semana, Eduardo Street falará dos 60 anos da RDP. Foi no ano de 1934 que a então Emissora Nacional começou a emitir ainda em fase de experiências.

FERNANDO CORREIA EDITA LIVRO SOBRE A RÁDIO

O conhecido radialista Fernando Correia acaba de lançar um livro intitulado A rádio não acontece...faz-se. Nomeadamente na antiga Emissora Nacional, depois Antena 1, conservo ainda no ouvido os seus relatos desportivos, de uma rara beleza [por vezes, eu confundia a sua voz com a de Artur Agostinho, outro grande relator desportivo da rádio portuguesa]. Ainda hoje, Fernando Correia anima o programa Bancada central na TSF, um fórum à noite sobre desporto, mas em especial sobre futebol. Fernando Correia é ainda professor do Instituto Piaget, em Almada, na área das Ciências da Comunicação.

Ora, o que diz este livro? Ele é "uma tentativa de difusão do conhecimento adquirido ao longo dos anos, de muitos anos, na rádio, nos programas, nas reportagens, nos espectáculos, no jornalismo radiofónico e no contacto com as pessoas e é, também, a forma de contar algumas histórias" (p. 7).

Para a rádio entrou em 1958: "Regressei [de Londres] para ingressar no SNI - Secretariado Nacional de Informação, como locutor, e para fazer concurso de admissão à Emissora Nacional de Radiodifusão" (p. 13). No concurso ficaria em primeiro lugar. Mais tarde, percorreria, como repórter da guerra colonial, Angola, Moçambique e S. Tomé e Príncipe.

Sobre a rádio dos anos 60, Fernando Correia destaca a Emissora Nacional, que "tinha a vantagem de contar com as melhores vozes (locutores), vindos de uma cuidada selecção e de concursos sobre concursos, com proveniência, em muitos casos, da Rádio Universidade (que emitia em horários próprios numa frequência da E. N.) ou do Secretariado Nacional de Informação (SNI)" (p. 51). E o autor evoca nomes como os de Maria Leonor, Etelvina Lopes de Almeida (desaparecida a semana passada), Artur Agostinho, Pedro Moutinho, Amadeu José de Freitas, Domingos Lança Moreira, Nuno Brás, Carlos Cruz e Romeu Correia, nomes que também guardo na minha já longa memória.

Por oposição, escreve sobre a rádio gira-discos: "contrapontos inevitáveis, numa situação de comodismo, facilitismo e refúgio [...]. Foram as rádios gira-discos que quiseram concorrer apoiadas no consumo de adolescentes e jovens. Os exemplos estão aí: RFM, Rádio Comercial, Antena 3 e uma nova versão do saudoso Rádio Clube Português que substituiu a Rádio Nostalgia" (p. 95). E Fernando Correia defende a reportagem radiofónica, o sector mais atractivo do meio, "por corresponder a um acto jornalístico completo", pois "encerra escrita, observação, análise, procura, poder de descrição, fluência e bom senso" (p. 83). Entre outras, recorda as reportagens da visita da rainha da Inglaterra, Isabel II, ainda nos anos de 1950, a partida dos primeiros contingentes para Angola, onde deflagrara a guerra em 1961, e os incêndios do Teatro Nacional D. Maria II e da Igreja de São Domingos.

Tenho uma grande admiração por este profissional da rádio. Mas, como em tudo na vida, há coisas que enjeitamos. Comigo, acontece com o que Fernando Correia escreve sobre o ensino (pp. 14-15). Ele considera que a Escola (presumo que a Universidade) tem "pessoas cheias de boa vontade que empinaram uma montanha de teoria que, na prática do ensino, não lhes serve de nada. O que acontece a seguir? Na maioria dos casos, a rejeição dos alunos, ou a formação de alunos que não vão conseguir arranjar emprego em parte alguma". E escreve ainda: "quase todos os professores não estão à altura das necessidades do ensino, porque não têm prática". Não podemos confundir a Universidade - espaço de saber e de especulação - com escolas profissionais, de ensino vocacionados para a "resolução de problemas de ordem técnica", como se lê no seu livro. É provavelmente a grande mistificação do nosso tempo.

Livro: Fernando Correia (2004). A rádio não acontece... faz-se. Lisboa: SeteCaminhos. Preço: €14,50.

13.5.04

TELENOVELAS E PROGRAMAÇÃO – O QUE ALTEROU COM O FORMATO VINDO DO BRASIL [Texto inicialmente publicado na revista MediaXXI, nº 74, de Fevereiro/Março de 2004. Continuação da mensagem de ontem]

Entretanto, assistira-se a um novo estilo de televisão protagonizado pelos directores dos canais (Emídio Rangel, José Eduardo Moniz), com SIC e TVI a disputarem as audiências no final dos anos 1990. A TVI alargava o seu prime-time, com o noticiário a funcionar como âncora de programas, caso das telenovelas e do Big Brother, reality-show da Endemol, que se distinguiu por possuir um fio narrativo, em que os concorrentes representavam como se fossem actores e actrizes, embora sem qualquer formação, como escreveu a antropóloga Alexandra Laranjeira (Mediatização da vida privada, 2003). O Big Brother foi cunhado de “novela da vida real” ou novela do “povo soberano”. Eduardo Cintra Torres, responsável por esta última designação (Reality shows, ritos de passagem da sociedade do espectáculo, 2002), descreveu o Big Brother como o programa das self-made stars, apenas com nome próprio, triunfo do cidadão comum sobre as estrelas do cinema ou das elites sociais e culturais.

O noticiário da noite da TVI deixava de ter horário rigoroso, oscilando o seu começo vários minutos antes das 20 horas. A mesma estação apostaria na produção de ficção portuguesa (novelas, séries e reality-shows), anulando a hegemonia da programação da SIC baseada em telenovelas do Brasil. Como diz Isabel Ferin no seu estudo, a estratégia de lançamento do Big Brother (Setembro de 2000) assentou em infotainment, com o noticiário a servir de suporte de informação leve sobre o programa, e product placement, com referência a produtos comerciais de grande consumo. E, se o Big Brother funcionou como motor de crescimento da TVI, outros programas ajudaram, como séries (Jardins proibidos, Super pai) e telenovelas (Olhos de água, Anjo selvagem e Filhos do mar), sempre acompanhados por publicidade em meios estáticos (mupies e outdoors) e dinâmicos (autocarros). A SIC começaria a recuperar a liderança de audiências a partir do programa Masterplan, outro reality-show ficcionado, chegando ao final de 2003 com vantagem sobre a TVI, logo seguida pela RTP1. Embora diferente no enredo face ao Big Brother, o Masterplan, também da produtora Endemol, permitia aos concorrentes continuarem a participar no programa mesmo após a expulsão. E se o Big Brother deu a conhecer o dócil e simplista Zé Maria, o Masterplan mostrou-nos uma Gisela ávida de publicidade em entrevistas não controladas pela organização.

Uma análise das telenovelas implica também o estudo das audiências, como fez Verónica Policarpo na sua tese de mestrado, ainda inédita (Telenovela brasileira: apropriação, género e trajectória familiar, 2001). Para esta professora da Universidade Católica, uma telenovela é um produto ou formato de indústria cultural dotado de uma narrativa dramatizada e marcas próprias em termos de duração e estrutura (série). Ela procurou saber como é que as pessoas “lêem” as propostas da telenovela, quais os significados a ela atribuídos e que factores sociais entram para essa apropriação. Analisando a telenovela Terra Nostra (2000) e o seu impacto na recepção, partiu da hipótese que as formas de apropriação da telenovela brasileira variam em função do género e da trajectória familiar. Para tal, considerou a audiência como social (composta por indivíduos inseridos em complexas relações sociais) e activa (explicação para as diferenças de recepção, com possibilidade de leituras de resistência ou usos alternativos que as mulheres fazem das telenovelas). A telenovela, explicaria, constitui um interlocutor privilegiado de certo tipo de sentimentos e experiências. Por exemplo, ao verem a telenovela, as mulheres podem avaliar a sua vida e reflectir a sua situação, numa proximidade de identidade entre ficção e vida pessoal dos receptores.

Com a sua introdução no imaginário das indústrias culturais de finais do séc. XX, e género televisivo habitualmente considerado com orientado para audiências femininas, a telenovela ganhou relevo também na produção nacional. No seu trabalho, Isabel Ferin destacou os investimentos no domínio das técnicas e nas performances dos profissionais, faltando, contudo, a densidade antropológica e sociológica das personagens construídas pelas telenovelas brasileiras. No cômputo geral, a programação de telenovelas, primeiro brasileiras e depois portuguesas, esteve na origem da fixação de audiências dos canais televisivos, percorrendo sucessivamente a RTP, a SIC e a TVI, prova da popularidade do género. Mas, por outro lado, surgia um movimento de oposição ou complementaridade às telenovelas, dando-se importância aos reality-shows. Conquanto parecessem resultar de cenas não representadas ou, na linguagem dos repórteres, não editadas, a produção criou um roteiro de enredo, com picos de interesse, para prender a atenção do telespectador, como se fosse uma telenovela. Antes, com anúncio no interior do noticiário, durante a transmissão em compacto (os chamados melhores momentos do dia) e depois (comentários e entrevistas a antigos residentes da casa, no exemplo do Big Brother). E com custos mais baixos, sem pagamento de cachet a artistas famosos ou recurso a montagem de cenários, criação de guarda-roupa ou necessidade de dezenas ou centenas de figurantes.

12.5.04

TELENOVELAS E PROGRAMAÇÃO – O QUE ALTEROU COM O FORMATO VINDO DO BRASIL

[Texto inicialmente publicado na revista MediaXXI, nº 74, de Fevereiro/Março de 2004]

Foi em 1977 que passou na RTP a primeira telenovela brasileira, Gabriela, cravo e canela, a partir do livro de Jorge Amado, com a actriz Sónia Braga no principal papel. Os jornais de então deram conta de como os portugueses se renderam ao novo género televisivo. Então, a cor ainda não chegara aos receptores e a televisão era vista apenas à hora do almoço e entre as 18 e as 23 horas.

O presente artigo resulta da leitura de seis trabalhos de investigadores nacionais, um dos quais de Isabel Ferin (As telenovelas brasileiras em Portugal: indicadores de aceitação e mudança, 2003), que retém como fundamentais na telenovela as relações entre literatura, teatro, cinema e música popular brasileira. Para a professora da Universidade de Coimbra, a opção pela telenovela como estratégia de fidelizar audiências não foi pacífica, dado o receio da influência de vivências culturais e linguísticas brasileiras. Mas as suas histórias de encontros e desencontros amorosos, a par da definição de tipos populares de personagens, permitiram a fácil identificação e adesão do público.

Com a abertura à televisão privada, a partir de 1992, alterou-se rapidamente o panorama dos media e das indústrias culturais. Três anos depois, a primazia das audiências deslocava-se da RTP para a SIC, seguindo a publicidade o mesmo caminho. O sucesso da SIC deveu-se à existência de uma grelha diversificada em informação, reportagem, documentários, séries, comédias, programas infantis e juvenis, cinema e entretenimento geral. Gente nova e profissional a fazer televisão, outra maneira de trabalhar a informação e uma orientação para programação de agrado a públicos mais populares – a televisão do povo, como escreveu o crítico de televisão Eduardo Cintra Torres (Ler televisão, 1998) –, estiveram na origem dessas alterações. Como pano de fundo, o optimismo e a fé na iniciativa privada vividas na sociedade portuguesa, no princípio da década de 1990. A par da RTP, a SIC passou a transmitir telenovelas brasileiras, acabando por ficar com o monopólio das produzidas pela rede Globo. Mas esses anos também se abriram a produtoras, actores e outros profissionais portugueses. Isto fez com que empresas como a NBP, de Nicolau Breyner, tivessem uma boa aceitação, com adaptação de formatos estrangeiros (séries e telenovelas) à realidade portuguesa e desenvolvimento de projectos originais.

A concorrência inicial entre canais de televisão deu-se através de uma programação mimética. Depois, e segundo a socióloga Ana Paula Fernandes, em tese de mestrado (Televisão do público, 2001), a contra-programação passou a fazer parte dos objectivos dos vários canais, com uma atenção específica aos diversos públicos de televisão, além do efeito de herança (percentagem da audiência que se mantém na passagem de um programa para outro). Já na segunda metade dos anos 1990 a programação passou ao patamar da intimidade, a nível da informação, da ficção e dos reality-shows. No final dessa mesma década, e do ponto de vista político, incidindo sobre os canais públicos e as indústrias culturais, surgia a holding Portugal Global, envolvendo RTP, RDP e Lusa, e a criação da Comissão Interministerial para o Audiovisual e da Plataforma para o Audiovisual, com medidas para o desenvolvimento da produção nacional. Em termos financeiros, o ICAM apoiou mais projectos ligados ao cinema e à televisão, nomeadamente telefilmes. Já em 2002, o Governo preparou novas mudanças, com a criação do canal Dois, a substituir a RTP2 (transformação concretizada no começo deste ano, com a 2:).

[continua]

11.5.04

DEZ ANOS DE HISTÓRIA DA SIC (1992-2002). O QUE MUDOU NO PANORAMA AUDIOVISUAL PORTUGUÊS [CONCLUSÃO]
[Texto inicialmente publicado na revista Observatório, nº 6, de Novembro de 2002, e aqui reproduzido com pequenas alterações em mensagens já colocadas (29 de Abril, 3, 6 e 10 de Maio)]

Tecnologias e novas empresas e departamentos

O período de novos projectos e parcerias, que localizamos entre 1999 e 2001, tinha raízes anteriores. Aliás, um projecto antes da sua concretização, passa por fases, longas por vezes, de estudo e implementação. Assim, em 1996, iniciou-se o estudo da introdução de novas tecnologias, designadamente a redacção “sem fita”, mas que continuou nos anos seguintes. Já a cenografia virtual, pensada em 1996, foi empregue na emissão das eleições autárquicas, em 1997, atendendo a todas as peças associadas a séries e programas de entretenimento. Nesse mesmo ano, era criado o departamento de merchandising da SIC: a venda de programas, merchandising, audiotexto, telenovelas e discos rendeu mais de dois milhões de euros, enquanto que, em 1999, ultrapassava os 3,4 milhões de euros. Por seu lado, a aquisição de câmaras portáteis digitais destinadas a operações de vídeo móvel ligeiro e de equipamento de edição não linear estiveram entre os objectivos desencadeados pela estação em 1998.

Em 1997, a SIC criava duas empresas em Londres, centro mundial da produção de conteúdos televisivos. Já em 1999, participava em duas sociedades: a SIC Filmes e a Morena Films (espanhola). O objectivo da SIC Filmes, em associação com o ICAM, é produzir dez filmes por ano, no sentido de dinamizar a criação audiovisual em Portugal. Assim, em Janeiro de 2000, cerca de 2,4 milhões de telespectadores viram o filme Amo-te Teresa. Nesse ano, a empresa lançava dez filmes e criava uma estrutura de pesquisa e leitura de argumentos e a figura de argumentista residente.

Também as instalações foram alvo do interesse da estação. Ainda em 1995, foi inaugurada a delegação da SIC no Porto, concretizando a estratégia de estar mais perto dos principais centros de decisão do país. Já em 1998, a estação negociava a aquisição do imóvel contíguo à sua sede em Carnaxide (antiga FNAC), o que permitiu uma expansão sem mudar de instalações (em especial após o lançamento da SIC Notícias).

No âmbito da criação de estruturas, deve realçar-se, durante 1999, o importante contributo da SIC, além de outras empresas, na fundação do Observatório da Comunicação (Obercom), instituição que visa conhecer melhor o que se faz em Portugal na área da comunicação.

Bibliografia
Andringa, Diana (2002). “Televisão: e não se pode regulá-la?”. Trajectos, 1: 91-127
Bastos, José Gabriel Pereira, Eduardo Cintra Torres e Maria Alzira Seixo (2001). O sintoma Big Brother. Lisboa: Graal
Brandão, Nuno Goulart (2002). O espectáculo das notícias. Lisboa: Notícias Editorial
Cádima, Francisco Rui (1996). O fenómeno televisivo. Lisboa; Círculo de Leitores
Carvalho, Alberto Arons de (2002). Valerá a pena desmenti-los? Coimbra: MinervaCoimbra
Geca (2002). El anuario de la televisión 2002. Gabinete de Estudios de la Comunicación Audiovisual: Madrid
Küng-Shankleman, Lucy (2000). Inside the BBC and CNN - Managing media organisations. Londres e Nova Iorque: Routledge
Lopes, Felisbela (1999). O telejornal e o serviço público. Coimbra: Minerva
Lopes, João (1995). Teleditadura. Diário de um espectador. Lisboa: Quetzal
Miranda, Mónica (2000). “Dragon Ball, Pokémon e as crianças-ciborgues”. Observatório, 2 (67-84)
Obercom (2002). Anuário Comunicação (2001-2002). Lisboa. Obercom
Serrano, Estrela (2002). As presidências abertas de Mário Soares. Coimbra: MinervaCoimbra
SIC (1995 a 2000). Anuários SIC Televisão. Carnaxide: SIC
SIC (1995 a 1999). Relatórios de Gestão Referentes aos Exercícios. Publicados em jornais ou em caderno especial do canal
Torres, Eduardo Cintra (1998). Ler televisão. Oeiras: Celta
Traquina, Nelson (1997) Big Show Media. Lisboa: Notícias Editorial

10.5.04

DEZ ANOS DE HISTÓRIA DA SIC (1992-2002). O QUE MUDOU NO PANORAMA AUDIOVISUAL PORTUGUÊS - IV

[Texto inicialmente publicado na revista Observatório, nº 6, de Novembro de 2002, e aqui reproduzido com pequenas alterações em mensagens já colocadas (29 de Abril, 3 e 6 de Maio)]

Televisão por cabo, expansão dos canais temáticos e relação com o Estado

A televisão por cabo foi um elemento estruturante da actividade televisiva nos últimos anos. O seu arranque no país deu-se em 1995, com destaque especial para a TV Cabo, do grupo Portugal Telecom, com quem a SIC estabeleceu um contrato e que permitiu transmitir a sua programação aos assinantes na Madeira e Açores.

Dois anos depois, com o objectivo de concorrer ao convite feito pela TV Cabo portuguesa, a SIC associou-se com a Globo para a organização e difusão de canais a oferecer aos assinantes daquele distribuidor de televisão por cabo. A parceria envolveu a SIC, a Globo, a TV Cabo e a Lusomundo, com a criação da Premium TV Portugal (a SIC e a Globo controlam 46% do capital social). Nessa sequência, o lançamento dos canais Telecine 1 e Telecine 2 ocorria em 1998 e o Canal Playboy arrancava em 1999.

No âmbito internacional, a partir de 1997, a SIC começou a emitir quatro horas diárias de programação autónoma para França, através da plataforma digital TPS, e no ano seguinte, também pela Lyonnaise Cable de França, enquanto se estabelecia um acordo com a RTP-USA, uma televisão da comunidade portuguesa com sede nos Estados Unidos, para transmitir programação da SIC por cabo a mais de sessenta cidades daquele país com grandes comunidades portuguesas. Em 20000, o horário de transmissão de programas para o estrangeiro passava para as vinte e quatro horas de programação em 2000, ano em que a SIC obtinha uma licença para distribuição da SIC Internacional no Canadá. Ainda em 1999, a SIC preparava um projecto ambicioso na internet, denominado SIC-Online.

A 28 de Junho de 2000, lançou-se o primeiro canal temático, a SIC Gold, com Henrique Mendes como cara do canal. Ainda em 2000, era autorizada a licença do canal SIC Internacional. Ao mesmo tempo, a estação comprava 60% do capital da empresa proprietária do Canal de Notícias de Lisboa, transformado em SIC Notícias, e que arrancou em 8 de Janeiro de 2001. A SIC Notícias tinha estúdio próprio e a redacção estava equipada com tecnologia totalmente digital e um novo sistema informático. Também em 2001 começou a emitir a SIC Radical. A SIC adquiriu outras participações, em 2000, nomeadamente na Lusa (5,2% do capital social) e em consórcio espanhol para um canal generalista, e passou a estar cotada na Bolsa de Valores, através da Impresa.

Um tema fundamental seria a da relação entre a SIC e o Estado. No final de 1996, o governo e as três empresas televisivas haviam chegado a um acordo, o que permitiu eliminar a publicidade do Canal 2 e limitar a publicidade do Canal 1 para 7,5 minutos por cada hora de emissão. Em 1997, o Estado e a RTP assinavam um novo contrato de concessão, o qual recebeu críticas por parte da estação privada, acompanhando críticas de outros anos, visíveis nos seus Relatórios de Gestão. Em 1998, a revisão da lei da televisão trouxe alterações positivas, caso da eliminação dos limites máximos das participações accionistas e à previsão de canais temáticos e codificados, que poderiam ser produzidos em Portugal. O relacionamento entre a SIC e a estação pública manteve-se bom, apesar da concorrência, verificável no apoio que ambas deram, além do Estado, à concretização do IX Fórum Europeu da Televisão e do Cinema, em 1997.

O ano de 1998 foi ainda marcado pela consulta pública sobre a introdução em Portugal da televisão hertziana digital (DVB-T) e o lançamento do anúncio público da televisão digital terrestre decorreria em 2001, de cujo consórcio vencedor fazia parte a SIC. Ainda no final do século, a SIC tomou iniciativas no âmbito do comércio electrónico, no sentido de alargar as suas actividades empresariais.

9.5.04

TARSO GENRO AO EL PAIS

Entrevistado hoje pelo jornal El Pais, o ministro da educação brasileiro Tarso Genro defende que a cultura gera a inclusão social: "Com a ampliação do tempo de ócio, o sector lúdico-cultural passa a ter não apenas uma importância social agregadora, mas também uma importância económica fundamental. Hoje há espaços concretos para que se desenvolva um terceiro sector do ócio, da cultura, da educação..., como elementos vitais do desenvolvimento económico, como oferta de emprego e como elemento de integração social e política em volta de um projecto de cidade e de região".

Mais à frente na entrevista, define política cultural: "Em sentido estrito, refere-se às promoções culturais. Num sentido estratégico, significa uma nova proposta de coesão social, com laços educativos, culturais e intelectuais, que promovam um sentido de vida aberto e completamente democrático". E vê a cultura nos países não dominantes como "uma cultura dual, de resistência e de reconstrução universalista. A resistência com os valores tipicamente locais é importante; por exemplo, resgatar as origens da nossa música". Ainda na entrevista e a uma pergunta sobre o debate, no Brasil, acerca das quotas de entrada de negros e índios nos centros de ensino e nas universidades, o titular da educação naquele país responderia do seguinte modo: "No Brasil, esta política afirmativa é positiva porque parte de uma constatação histórica, de uma dívida histórica do Estado brasileiro, que como condutor da escravatura tem que proporcionar condições objectivas para que o princípio jurídico da igualdade formal seja efectivamente desenvolvido. Significa reconhecer esta dívida histórica e proporcionar uma política de quotas que não seja contra os brancos nem contra outra raça".

Tarso, contactado no final da assembleia Agenda 21 da Cultura em Porto Alegre (Brasil), estará em Barcelona (Espanha) em finais deste mês, para participar no Fórum 2004, que junta três eixos temáticos: paz, diversidade e sustentabilidade. O Fórum de Barcelona foi inaugurado ontem.

PÁGINAS CENTRAIS DO CADERNO DESPORTO DO SUNDAY TIMES DEDICADAS A JOSÉ MOURINHO E F. C. PORTO

Com chamada de capa e foto de José Mourinho e duas páginas centrais do caderno de desporto do Sunday Times de hoje, vem a história de sucesso do treinador e do clube que estará no final da Taça dos Campeões de futebol. Nestas duas páginas, há imagens do treinador e do presidente do clube do Porto.

NOTÍCIAS CULTURAIS E TELEVISÃO

Ainda no El Pais de hoje, vem uma peça sobre as notícias culturais que passam na televisão. Entrevistado Francisco Rodríguez Pastoriza, jornalista da TVE (Televisão de Espanha), professor da Universidade Complutense e autor de Cultura y televisón. Una relación de conflicto (editado pela Gedisa), ele considera que as notícias culturais são uma espécie de adorno nos noticiários de televisão. E entende que há uma relação de conflito entre cultura e televisão, "em primeiro lugar, pelas exigências da audiência, e em segundo lugar, pela escassa repercussão da actividade cultural. Se uma pessoa visse apenas a televisão, pensaria que em Espanha não há actividade cultural".

Para Rodríguez, há uma obrigação de emitir programas culturais, na Europa como nos Estados Unidos: "Quando nasceu a televisão, obrigaram-se os operadores a dedicar determinados espaços à informação de serviço público. Assim surgiram os noticiários televisivos. Gostaria que em Espanha os noticiários da televisão estivessem obrigados a oferecer informações culturais e seguissem o exemplo do jornal Le Monde, que tem o compromisso de publicar diariamente uma notícia cultural na primeira página. [...] As televisões privadas deveriam ter a mesma obrigação de emitir programas culturais como as públicas".

Pode aplicar-se totalmente o exemplo a Portugal, agora que o Acontece já desapareceu.

A ORELHA DE VAN GOGH

Ainda no Sunday Times de hoje, vem um artigo de Waldemar Januszczak sobre Vincent Van Gogh e a sua verdadeira história, a passar no Channel 4 (inglês) a partir de 16 de Maio [que pena, não temos no nosso cabo; esperemos que a 2: esteja atenta].

Januszczak produziu uma série em três partes sobre o tão considerado pintor dos girassóis. Mas Van Gogh não gostaria de se ver na televisão. É que o autor da série encontra hera em vez de girassóis na obra do autor que cortou a orelha. Explicando melhor: Van Gogh dava-se constantemente com prostitutas, a ponto de ser expulso de casa dos seus pais, em Haia, quando ali entrou com uma delas. Januszczak vê uma só cara nas mulheres pintadas por Van Gogh: madame Ginoux. E aponta-a num quadro representando um bordel agora divulgado e pertencente à misteriosa colecção Barnes, de Filadélfia. A mulher de amarelo, à esquerda, é provavelmente a Ginoux.

E o autor da série a passar na televisão britânica tem uma versão peculiar da história da orelha cortada do pintor. Do mesmo modo que um toureiro corta a orelha do touro que mata na arena e a entrega a uma senhora na assistência, Van Gogh cortou a sua própria orelha, embrulhou-a numa folha de jornal e enviou-a a uma prostituta do seu bordel preferido. Daí Januszczak escrever que Van Gogh era um pintor de heras e não de girassóis. Estas eram mais da especialidade de Gauguin - a quem Van Gogh se juntou em Arles. Gauguin crescera no Peru, país de girassóis (o nome botânico é Chrysanthemun Peruvianum, crisântemo do Peru), e os girassóis de Van Gogh são um tributo a Gauguin.