No Porto, dia 24 de maio de 2018, pelas 18:00, apresentação de livro "A Emissora Nacional e as Mudanças Políticas (1968-1975)"

quinta-feira, 17 de maio de 2018

O cinema na rádio



A Rádio Condes, em 1934, emitia sábados, domingos e terças-feiras. Tinha o indicativo CT1EB e ficava na avenida da Liberdade, 12, em Lisboa. De entre outras, tinha secções dedicadas ao cinema, teatro e literatura (O Filme, 3 de junho de 1934. Semanário editado em Setúbal, com Miguel Manjuá como diretor e Jacques T. da Silva como editor).

A Rádio Restauração, em 1951, tinha um programa de atualidades cinematográficas com o patrocínio da secção de cinema da revista Flama. José Marques Vidal e Costa Pereira apresentavam, com notícias, concursos e entrevistas (Flama, 12 de outubro de 1951, diretor e editor: Mário Simas).

Feira dell'Arte

Feira dell'Arte é a peça em cena no Teatro Meridional. De Mário Botequilha, com encenação e luzes de Miguel Seabra e interpretação de Emanuel Aranda e Rosinda Costa. O texto, originalmente estreado em 2001, então um espetáculo importante na vida da companhia de teatro, foi adequado à realidade social de hoje. Compõe-se de cinco personagens: Columbina e Zanni, namorados há dez anos mais ainda indecisos quanto ao casamento, criados de Pantalone, um homem que fez fortuna moedinha atrás de moedinha, ou melhor, o representante do egoísmo e do dinheiro, Isabela e Otávio, namorados, ela filha de Pantalone, e regressada de Veneza onde estudou, e ele filho do Dottore. o inimigo de Pantalone.

Pantalone é uma das principais personagens da comédia dell'arte. Como apenas são dois os intérpretes, eles desdobram-se nas personagens, mostrando, algumas vezes, o recurso a disfarces, como o emprego de máscaras por parte do ator e de efeitos (gestos, voz, movimentação) específicos de cada personagem. A esse respeito, os disfarces do ganancioso Pantalone provocam comicidade. A Columbina, outra personagem central da comédia dell'arte do século XVI, surgiu como empregada com características de rapariga atraente, inteligente e com humor, apaixonada por Arlequim. Antes de Arlequim, era Zanni o apaixonado de Columbina, a usar uma máscara preta, e a representar a figura de criado. Os enamorados (Isabela e Otávio) apresentam-se com o vestuário mais elegante, não usam máscaras e cantam ou dançam. A peça decorre numa feira, com a rulote de farturas, a barraca da louça e os restaurantes populares. Pena que esse ambiente de múltiplas experiências não acompanhe a representação.

Por ser comédia dell'arte, é um espetáculo leve mas mordaz, simples mas objetivo, que dispõe bem (juntando o estômago ao cérebro) mas indica pistas sérias. O cenário é despojado, as falas ficam no ouvido, a alegria da representação permanece após esta.


Antes do começo da peça, Miguel Seabra, um dos responsáveis do teatro, descrevia a situação do teatro e das artes performativas em Portugal. A DGArtes, depois de longa polémica na atribuição de apoios, divulgara na véspera (anteontem) os resultados finais dos concursos, no valor de 83 milhões de euros. O Teatro Meridional ia receber incentivos, mas, a caminho do meio do ano, ainda não chegara qualquer valor, com Feira dell'Arte a ser a segunda peça de 2018. No concurso, escrevem os jornais de hoje, ficaram de fora, contudo, algumas companhias de reconhecido valor, como o Teatro Experimental do Porto, a Casa Conveniente de Mónica Calle, os Primeiros Sintomas de Bruno Bravo, a Cão Solteiro de Paula e Mariana Sá Nogueira e o Festival Internacional de Marionetas do Porto. Estas companhias vão solicitar esclarecimentos e entrar numa batalha jurídica.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Ainda sobre as meninas dos telefones

"Está lá"? A legenda do desenho é elucidativa: "As meninas das reclamações debruçam-se sobre enormes calhamaços, quando nós cá de longe supomos que estão tranquilamente a namorar" (Domingo Ilustrado, 15 de fevereiro de 1925), após uma visita à central telefónica Norte (rua Andrade Corvo, Lisboa). O jornalista ainda teve oportunidade de ouvir "um murmúrio fresco do «para onde deseja»?".


terça-feira, 15 de maio de 2018

A rádio em 1925 e 1926

A revista Renovação (1925-1926) publicou 24 números. Numa linguagem quase hermética, indica no número inicial que "será um clarim vibrando revolta, mas será também uma cátedra distribuindo ensinamentos". Na última página, fornece mais informação: "Revista gráfica de novos horizontes sociais. Arte, Literatura e Atualidades". O número 6 esclarece mais: "Renovação retribui as fotografias interessantes que lhe sejam enviadas pelos seus leitores sobre acontecimentos que interessem à vida operaria tais corno manifestações populares, greves, congressos, comícios, desastres no trabalho, festas associativas, inauguração de escolas, sindicatos, cooperativas operárias". Números depois, surge associada à revista Batalha, jornal do movimento anarquista e da CGT.

A digitalização da publicação foi hoje tornada acessível pela Hemeroteca Municipal de Lisboa, no seu caminho louvável de facilitar a consulta a revistas há muito desaparecidas.

No número 22, de maio de 1926, surgia uma notícia sobre rádio, então ainda novidade. A rádio - ou telegrafia sem fios, como está identificada - permitia a audição em todo o mundo de concertos e novidades e era uma concorrente da imprensa e dos pianistas de fama. Durante décadas, até 1960 em Rádio Clube Português, as notícias lidas na rádio eram provenientes dos jornais. Existe até uma história deliciosa lida por um locutor da rádio, que inclui na sua leitura: "como se vê na fotografia ao lado". E em 1934 o primeiro presidente da Emissora Nacional, António Joyce, criaria orquestras a empregar quase todos os músicos profissionais do país. Mas os pianistas voltariam a ver ameaçados os seus lugares, eles que preenchiam o palco a acompanhar os filmes mudos, obsoletos com a sonorização dos mesmos.


Adenda a 16.5.2018: também o Domingo Ilustrado (14 de junho de 1925) se refere ao começo da TSF, aparelhos, neste caso, a colocar nos quartos dos hospitais, para aliviar a vida de sofrimento.


domingo, 13 de maio de 2018

Callas

A sinopse do filme Maria by Callas, de Tom Wolf (2017), indica: "Pela primeira vez, 40 anos depois da sua morte, a mais famosa cantora de ópera conta a sua história, nas suas próprias palavras. Um filme a partir de filmagens inéditas, fotografias nunca vistas, filmes pessoais em super 8, gravações ao vivo privadas, cartas íntimas e raras imagens de arquivo a cores".

E acrescenta incluir imagens e filmagens de, entre outros, Maria Callas, Vittorio De Sica, Aristotle Onassis, Pier Paolo Pasolini, Omar Sharif, Marilyn Monroe, Alain Delon, Yves Saint-Laurent, John Fitzgerald Kennedy, Luchino Visconti, Winston Churchill, Grace Kelly e Elizabeth Taylor.

Assim, o filme retrata a fascinante figura da cantora norte-americana (de Nova Iorque), regressada à Grécia dos seus pais com treze anos (1937), e onde ingressa na carreira musical. Não é um documentário como estamos habituados a ver na televisão, em que se cruzam depoimentos de especialistas numa matéria e que esclarecem os passos da pessoa a documentar. Apenas a sua professora Elvira de Hidalgo.

Para mim, outros pontos fracos do filme são que não explica adequadamente a razão porque a família saiu dos Estados Unidos, a troca sentimental dela por Jacqueline Kennedy por Onassis e a muita insistência, certamente para usar as imagens de arquivo, em chegadas de avião, entradas em automóveis, palmas nas salas onde cantou e vestidos e chapéus que usou e cãezinhos de estimação que a acompanhavam a todo o lado.


Mas fica, e isso é bastante para quem gosta de a ouvir e recordar, a sua imagem, nas entrevistas, de mulher tímida, nascida com nome de família Kalogerópulu e alterado para Callas, bem mais fácil de pronunciar, que sofreu com uma momentânea perda de voz em Roma (1958), e perdeu a carreira devido aos homens que amou, um porque explorou a sua condição mediática (o empresário Giovanni Battista Meneghini, bem mais velho que Callas, com quem casou) e outro porque era um bom vivant e, no fundo, aventureiro (Onassis) e a procurar constituir família e ter filhos. Uma vida simples, como acentuaria em entrevistas. O filho tido da relação com Onassis morreu no dia seguinte ao nascimento. A sua voz entraria em decadência e ela refugiou-se num apartamento em Paris, onde morreu. Apesar de muito famosa, creio que nunca terá alcançado a felicidade.

Se a glória foi efémera, a memória perdura. Maria Callas (1923-1977) cantaria em especial o bel canto, como Donizetti, Bellini e Rossini. Mas igualmente o repertório de Bizet e Wagner, entre outros [créditos das imagens: Leopardo Filmes].

terça-feira, 8 de maio de 2018

Relatos de futebol, técnicos e telefones

Num tempo em que se fala muito de futebol, deixo aqui algumas notas sobre o desporto e o modo como se faziam as ligações para os relatos nos estádios, incluindo técnicos da rádio e dos telefones.


De Alfredo Quádrio Raposo, o primeiro relator (ou relatador) desportivo profissional ao serviço da Emissora Nacional, reproduzo duas imagens (Rádio Nacional, 10 de julho de 1948, data não identificada). Um seu sucessor foi Artur Agostinho, de igual sucesso nas transmissões desportivas (imagem abaixo de abril de 1947, Gabinete Museológico e Documental da RTP). Não me lembro de ter escutado o primeiro mas retive no ouvido o tom de voz do segundo. De qualidade diferente, as imagens permitem-nos interpretar os ambientes em idêntico período. Elementos comuns em duas imagens são o microfone de peito e a boina, Quádrio Raposo a relatar no verão e Artur Agostinho no campo de futebol na primavera. Existe um terceiro elemento comum em todas as imagens: os relatos faziam-se à face do campo de jogos, com a assistência mesmo atrás, o que podia trazer problemas, caso os adeptos não gostassem dos comentários do relatador. Quádrio Raposo, nas duas imagens, tinha um bloco de apontamentos junto a si, ao passo que Artur Agostinho delega isso no seu assistente. Artur Agostinho usa auscultadores, o que permite ouvir o sinal de retorno e eventuais perguntas ou sugestões do estúdio, mas isso não acontece com Quádrio Raposo.

A segunda imagem de Quádrio Raposo, como aquela em que se vê Artur Agostinho, revela mais pormenores, como o assistente técnico, ao lado, junto a uma mesa técnica e com cabos (microfone e telefone). O assistente técnico intervinha quando houvesse alguma questão operacional de controlo de som. Os profissionais da Emissora Nacional (e a assistência) estão vestidos com gabardinas, a denunciar tempo chuvoso. À esquerda de Artur Agostinho, o assistente Helder Soares. Havia outro técnico na estação chamado Helder Sobral, "verdadeiros braços direitos e esquerdos do locutor", segundo informação oportuna de Orlando Dias Agudo, a quem agradeço. Outro dos assistentes técnicos da Emissora Nacional foi Álvaro Fonseca: ele levava o material, o OB e os microfones. Ele tinha um trabalho delicado, que a sua anterior prática de eletricista resolvia. No estádio do Lima (Porto), durante algum tempo campo onde jogou o FC Porto, a corrente elétrica para ligar o OB era de 110 volts. O técnico aventurava-se porque sabia o que fazia, embora pudesse apanhar, durante a montagem, um choque no microfone.


Nos bastidores dos relatos desportivos, havia outros profissionais, como o empregado dos telefones que ligava as linhas de comunicação. José de Almeida e Sousa era conhecido como o Almeida dos "campos de futebol" por fazer esse trabalho, homenageado por altura da sua reforma (Jornal de Notícias, 19 de outubro de 1969).





segunda-feira, 7 de maio de 2018

Curtas na Cinemateca

A Cinemateca Portuguesa exibe na quarta-feira (9.5.2018) duas curtas metragens de João Pupo Correia e Leonor Noivo.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Sobre o Festival da RTP, livro de Callixto e Mangorrinha

João Carlos Callixto e Jorge Mangorrinha publicaram agora o livro Portugal 12 pts, da editora Âncora, com apresentação de Júlio Isidro na última segunda-feira na livraria Férin (Lisboa).

De Jorge Mangorrinha, já escrevi aqui sobre o seu pequeno livro Portugal e a Eurovisão. 50 Anos de Canções (1964-2014), não o chegando a fazer relativamente ao livro Festival RTP da Canção: uma História de 50 Anos: 1964-2014 (exemplar existente na biblioteca João Paulo II da Universidade Católica). Ambos sairiam em 2014. De João Carlos Callixto, escrevi recentemente sobre o seu livro Canta, Amigo, Canta. Nova Canção Portuguesa (1960-1974).


O livro, ou melhor um livro-álbum de 453 páginas, a obra que mais trabalho de construção deu ao editor na sua atividade de mais de 30 anos, tem três partes distintas: uma, mais pequena, assinada pelos dois autores, a explicar a obra, a segunda assinada por Jorge Mangorrinha (Ser ou não Festivaleiro) e a terceira por João Carlos Callixto (Playlist). Se a parte desenvolvida por Mangorrinha narra e interpreta os sucessivos festivais da RTP, o texto de Callixto contém a lista de todas as canções concorrentes ao festival por ordem alfabética (o leitor preferia por cantor ou artista, mas aceita a opção do autor), desde A Boca do Lobo, de 1975, a Zero Zero, de 2018.


Jorge Mangorrinha justificou a origem da investigação: estudo dos níveis de promoção turística na representação de Portugal, tema de um dos livros de 2014, chegando à possibilidade de afirmação do país através do festival da Eurovisão, o que aconteceu o ano passado com a vitória de Salvador Sobral. O livro agora editado vale, além do texto, pela riqueza iconográfica. João Carlos Callixto, em apresentação que aparece aqui em vídeo, faz uma análise temporal e encontra grandes marcos na história do festival da canção, de Maria Fátima Bravo (Vocês Sabem Lá, 1958), do grupo de artistas da rádio em que a Emissora Nacional teve muita importância, a Madalena Iglésias, cujo Sei Quem Ele É, de ritmo já pop, cantores de grupos de rock como Eduardo Nascimento e Carlos Mendes, cantautores, em que incluiu Simone de Oliveira (Desfolhada), época da Aryvisão (referência ao poeta Ary dos Santos), novo modelo com a revolução de 1974 (Carlos do Carmo a cantar oito canções), até chegar à década de 1990, com cantoras como Lúcia Moniz, Anabela, Sara Tavares e Dulce Pontes a conseguirem melhores classificações, e o acima referido Salvador Sobral, vencedor do festival da Eurovisão o ano passado.

No texto inicial, os dois autores lembram que Portugal canta na Eurovisão há mais de cinco décadas (p. 13) O primeiro em que participou, 1964, seria uma novidade estimulante no pequeno panorama cultural do país. À televisão a preto e branco passada para cores, foi-se exigindo mais da produção anual em representação na Eurovisão. Nos primeiros festivais apareciam os cantores mais conhecidos da música ligeira e as suas canções geravam êxitos comerciais. Com a entrada do rock da década de 1980, verificou-se um certo afastamento do modelo do festival, mas a atual década permitiu relançar o festival com uma nova estrutura e que culminou com a canção Amar pelos Dois (2017). Recupero ainda o primeiro parágrafo do texto assinado apenas por Jorge Mangorrinha, cheio de analogias com os títulos das canções vencedoras nos festivais da canção: "Em meio século de história, a canção portuguesa criada para Festival já jogou em diferentes palcos: na fé, no amor, no mar, na política, na arena taurina. Já se vestiu de menina, já largou balões e papagaios de papel. Já fez filhos por gosto, como as canções que têm sido o que fomos e o que somos. E amámos por dois" (p. 17).

Para acabar, uma referência ao apresentador: Júlio Isidro. Foram cerca de 25 minutos de uma quase conferência a entusiasmar a assistência. Os cerca de seis minutos do vídeo abaixo mostram a parte inicial dessa boa exposição.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Um jornalista em Dachau

Dele posso escrever que se trata de um romancista, ou de um contista. Talvez melhor: romancista de livro policial. Os seus textos têm narrativa, suspense, contam a história com princípio e fim, agregam personagens múltiplos, mostram alegrias e tristezas nos percursos dos biografados, juntam a densidade do que conta à leveza como escreve. Ao excelente escritor junto o ótimo jornalista. Cada novo texto dá um novo e enorme prazer na sua leitura.

Escrevo, claro, de Gonçalo Pereira Rosa. O seu mais novo texto, agora publicado na revista Jornalismo e Jornalistas, nº 66 (janeiro-março de 2018), O Prisioneiro 94250 de Dachau era um Jornalista Português, conta a história de Agostinho das Neves, anarquista, preso em quatro países e, entre outros, correspondente do Jornal de Notícias.

Veja-se o modo simultaneamente elegante e científico com que começa (e um pouco à frente continua) o seu texto: "Há duas maneiras de narrar as vicissitudes de um homem. Uma, burocrática e impessoal, acompanha o rasto documental que qualquer ser humano deixa no seu encalço desde o momento em que vem ao mundo. [...] A segunda maneira de conhecer a vida de um homem é deixá-lo falar. Livremente".

O jornalista aqui apresentado nasceu em 1905, foi jornalista e tipógrafo e deu também pelo nome de José Neves. Em 1945, no final da II Guerra Mundial, era entrevistado em Paris por Fernando Teixeira (Diário Popular). Este descreveu aquele com uma criança perturbada, de olhos pequenos por detrás dos óculos. José Agostinho das Neves, anarquista, fizera explodir bombas artesanais perto da sede da Confederação Geral do Trabalho (CGT), à Calçada do Combro, no final de 1921. Esta ação fê-lo perder uma vista, passando a usar um olho de vidro. Foi preso, libertado, mas voltaria a ser preso em 1928, deportado para a Guiné, de onde fugiu para o Senegal. Em 1935, já em Espanha, era preso e algemado na fronteira com a França. Aí, teria estabelecido contactos com anarquistas franceses, editou o boletim Novos Horizontes e o jornal A Liberdade. Através dele, a CGT portuguesa manteve ligações ao exterior. Já em 1940, era denunciado como oposicionista ao governo de Vichy e preso e transferido para um campo de concentração, onde fez trabalho rural e de correio. Por dominar quatro línguas, entrou para os serviços de censura do campo. No final da guerra, com os alemães a perderem posições, ele e outros prisioneiros andariam num comboio à deriva para chegar à Alemanha. Uns foram assassinados, outros atingidos pela aviação aliada. A chegada a Dachau foi marcante na sua violência. Os americanos aproximavam-se do campo de concentração e o aventureiro Neves chegava a outro momento da sua vida. Sem poder regressar a Portugal, o jornalista ficou em França e começou a trabalhar na rádio pública do país. Ele escreveu sobre temas culturais e apoiou os homens de letras portugueses em Paris. Em 1951, assinaria uma declaração de retração e de recusa de atividade política, tendo regressado a Portugal e começado a colaborar com o jornal República. Depois, voltaria a Paris, a chefiar a redação de A Voz de Portugal, embora as polícias  de segurança em Portugal e em França continuassem a acompanhar os seus passos. Em 1974, seria o primeiro a entrevistar Mário Soares em Paris, a que se seguiu Mitterrand. Ele morreria em novembro do ano da liberdade.

Gonçalo Pereira Rosa é um brilhante contador de histórias (e jornalista de mérito). Com esta e outras histórias que dele conhecemos, faltam duas coisas: a primeira, já aqui o escrevi, é uma história do Diário Popular. A segunda é que ele pode dar um muito bom argumentista: nas suas histórias, há enredos, personagens de sucesso, mesmo que presos em quatro países, pelo colorido e pelos cheiros das aventuras e dos lugares por onde andou a personagem.

A última história que o jornalista e escritor está a desenvolver na sua página do Facebook, como se fosse folhetim, é "o que se faz quando se encontra um documento que afiança que um vulto das Letras portuguesas do século XX «colaborou ativamente com esta polícia»"? Alguém alvitrou o nome presente no título de uma Fundação, mas eu aguardo a resolução do enigma.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Campanha eleitoral de Humberto Delgado de 1958 em tese de doutoramento

Foi ontem que a jornalista da TVI Joana Reis defendeu tese de doutoramento com o título O Modelo de Comunicação Política da Campanha Eleitoral de Humberto Delgado em 1958: uma Campanha Americanizada. Local: Universidade Católica Portuguesa.

Para a agora doutora em Ciências da Comunicação, Humberto Delgado inauguraria em Portugal um novo estilo de aproximação à população, revelado pela forte adesão popular (Viseu, Porto, reunião no café Chave d'Ouro em Lisboa). Ele, que permaneceu alguns anos nos Estados Unidos em cargo diplomático-militar, seguiu de perto as campanhas de comunicação eleitorais de Eisenhower e aplicou-as quando decidiu concorrer à vagatura de presidente da República, após Francisco Craveiro Lopes.

A investigadora e jornalista utilizou documentação inédita, resultante nomeadamente de um fundo pertencente a Álvaro Monteiro, advogado e republicano que já apoiara a campanha de Norton de Matos e que foi doado à Torre do Tombo, levando a investigadora a analisar esses papéis e descobrir o funcionamento da organização da campanha.

Num primeiro momento, a pesquisa envolveu a reconstituição da campanha, após o que procedeu à identificação e análise dos elementos constituintes, para, em terceiro lugar, olhar a campanha dentro de um modelo de comunicação política (da investigadora Pippa Norris). Antes da análise da campanha eleitoral de Delgado, foi feito o levantamento de outras candidaturas de oposição: Norton de Matos (1949) e Quintão Meireles (1952). Houve ainda espaço para interpretar a razão do afastamento de Craveiro Lopes, que não concorreu a um segundo mandato, a escolha de Delgado, após consulta a outro possível candidato, a união da oposição, com desistência do candidato comunista, e a agitação criada pela campanha da oposição. Um dos capítulos da tese debruçou-se sobre a organização e atividades da campanha, a coordenação da campanha (centralizada e descentralizada, com destaque para as comissões locais de Viseu e Porto), voluntariado na campanha, custos e financiamento, material de propaganda, palavras de ordem da campanha e relação com os media. Neste último caso, Joana Reis defendeu que a campanha de Delgado foi bastante influenciada pelo modelo americano, pese embora a não existência de cobertura da televisão (ainda incipiente) e a fugaz aparição em programas radiofónicos, proibidos logo depois.

No último capítulo, a nova doutora refletiu sobre os principais elementos da campanha: o herói da guerra, as palavras de ordem, a mensagem do candidato (em especial a expressão "obviamente demito-o", referindo-se a Salazar), os materiais de campanha, a atenção a públicos específicos, a difusão da mensagem e as dificuldades com a censura, o perfil do apoiante e os elementos de profissionalização na campanha.

Joana Reis é autora de A Transição Impossível: a Rutura de Francisco Sá Carneiro com Marcelo Caetano (2010, Casa das Letras) e Melo e Castro: o Provedor que Dizia Sim à Democracia (2013, Casa das Letras).


[imagem: da esquerda para a direita: Rogério Santos, Paula Espírito Santo, Rita Figueiras, orientadora, Joana Reis, Nelson Ribeiro, presidente do júri e diretor da Faculdade de Ciências Humanas, Isabel Férin da Cunha e Estrela Serrano]

A minha intervenção seria de prolongamento de análise a partir do uso da rádio na campanha e alguma contextualização de vários agentes políticos na época. Na campanha eleitoral à presidência da República em 1958, com três candidatos (Américo Tomás, Humberto Delgado e Arlindo Vicente), Rádio Clube Português abriu espaços de propaganda política. A 15 de maio, na emissão da campanha de Delgado ouviu-se: "os sofrimentos do povo têm o direito de gritar bem alto o seu desespero, mesmo que isso incomode os tímpanos melindrosos da União Nacional ou do próprio Sr. dr. Oliveira Salazar. [...] haveremos de inculpar esses sofrimentos aqueles que deles têm a responsabilidade, enquanto a censura não calar a nossa boca - porta-voz do povo". Alguns dias depois, a direção da estação de rádio publicava um comunicado, a criticar a censura oficial por ter aprovado o texto transmitido. Acabavam aí as emissões da candidatura de Delgado (e também de Arlindo Vicente).

Humberto Delgado fora a escolha da oposição não comunista como candidato à eleição, depois da recusa de Francisco Cunha Leal, que alegou razões de saúde. O engenheiro e militar Cunha Leal fora diretor de O Século, reitor da Universidade de Coimbra, deputado, antigo ministro das Finanças e primeiro-ministro da Primeira República e preso político diversas vezes. Apesar de não ser candidato em 1958, ele escreveu diversos textos, quase manifestos, contra o regime, provocando a polémica, com réplicas e tréplicas com os ministérios do Interior e das Finanças. Cunha Leal apoiara antes as candidaturas de Norton de Matos (1949) e de Quintão Meireles (1952). Ainda em 1968, enviaria uma mensagem de apoio ao congresso republicano em Aveiro. Faleceu em 1970, com 81 anos.

Salazar, habitualmente parco em termos de uso da comunicação social, fez três discursos pela rádio e publicados na imprensa na campanha de 1958: no começo, no final e após as eleições. Na última, contundente, disse que a oposição fizera uma campanha subversiva, pelo que as eleições presidenciais seguintes seriam disputadas com modelo distinto: colégio dentro da Assembleia Nacional. Desse discurso, ficaram frases como "eu compreendo que a censura moleste um pouco os jornais", "de todos os agrupados para o assalto [ao poder], só uns, embora pouco numerosos, têm uma doutrina, uma fé, métodos próprios de ação: são os comunistas" e "sou um homem que está sempre preparado a partir". Isso aconteceu apenas em 1968, quando de doença irreversível.

Após as eleições, Delgado foi exonerado do cargo na Aeronáutica Civil – que o próprio não acreditava acontecer – e Craveiro Lopes elevado a marechal. Jorge Botelho Moniz, o patrão de Rádio Clube Português, ficou doente entre 22 de maio e 12 de junho (problemas cardíacos), com alta após as eleições. Berta Craveiro Lopes, a mulher do presidente da República substituído, falecera depois das eleições, após um derrame cerebral, a ilustrar certamente o ambiente de consternação no lar dos Craveiro Lopes. Depois da tomada de posse de Tomás, Salazar pediu exoneração do cargo, atitude protocolar mas hipócrita, porque era ele que controlava o aparelho de Estado.

O novo presidente convidou-o a formar e renovar o ministério. Dentro de profunda remodelação, Marcelo Caetano, o ministro da Presidência, foi afastado e substituído por Pedro Teotónio Pereira. Para a pasta da Defesa, entrou Júlio Botelho Moniz, o irmão do patrão de Rádio Clube Português. Em 1961, ano horrível para Salazar, Júlio Botelho Moniz encabeçaria uma revolta perdida contra o ditador.

Já nas eleições de 1954, a oposição obtivera espaço radiofónico em Rádio Clube Português. Mas, logo após o primeiro registo, a estação proibiria novas alocuções. E Cunha Leal proferira em Rádio Clube Português uma palestra política em 1952, em apoio da candidatura de Quintão Meireles.

Em 1959, Humberto Delgado refugiou-se na embaixada do Brasil e Henrique Galvão refugiou-se na embaixada da Argentina. Galvão seria o mentor de Delgado. O resto da história é mais conhecido: o assalto ao paquete Santa Maria, chefiado por Henrique Galvão, e o assassinato de Humberto Delgado pela PIDE.